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O que Nietzsche tem a ver com punk rock? Musical mistura filosofia e humor ácido

Produção da Bife Seco, ‘O Fantasma de Friedrich’ aposta em 17 canções originais e elenco afiado

R7 Teatro|Maria Cunha, do R7

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • O musical "O Fantasma de Friedrich" mistura filosofia, punk rock e humor ácido, com 17 canções originais e um elenco afiado.
  • A trama segue Alana, que busca respostas sobre o desaparecimento de sua irmã e encontra o fantasma de Nietzsche, que bagunça suas certezas.
  • O elenco se destaca por atuações impressionantes, especialmente Laura Binder como Alana e Laís Cristina em um papel que desafia normas de identidade de gênero.
  • A produção exige repertório e atenção do público, oferecendo uma experiência rica em referências filosóficas e culturais.

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‘O Fantasma de Friedrich’ está em cartaz no Teatro Arthur Azevedo Divulgação

Antes mesmo de as luzes do palco se acenderem, O Fantasma de Friedrich – Uma Pop Ópera Punk já começa a construir seu universo. Na estreia VIP, realizada no Teatro Arthur Azevedo, o público era recebido por atendentes caracterizadas como enfermeiras, drinks que simulavam medicamentos e até um dos fantasmas do espetáculo circulando pelo espaço. A experiência não terminava na porta do teatro. Ela começava ali.

E essa talvez seja uma das melhores maneiras de apresentar o trabalho da Bife Seco, companhia de Curitiba que merece mérito por apostar em uma produção autoral de teatro musical brasileiro. Com 15 artistas em cena e 17 canções originais executadas ao vivo, o espetáculo mistura filosofia, fantasia dark, punk rock e humor para contar uma história sobre amadurecimento, liberdade, pertencimento e saúde mental.


A trama acompanha Alana, uma jovem marcada pelo desaparecimento da irmã e que decide entrar no Hospital das Graças em busca de respostas. É nesse ambiente que ela encontra um livro capaz de libertar ninguém menos que Friedrich Nietzsche. Ou melhor, seu fantasma. Rabugento, existencialista e acompanhado do neurótico urso de pelúcia Adolfo, o filósofo entra na história para bagunçar ainda mais as certezas da protagonista.

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O título, porém, cria uma expectativa que poderia ser mais explorada. O Fantasma de Friedrich é um dos personagens mais divertidos da montagem, mas justamente por isso fica a sensação de que ele poderia aparecer mais. Kauê Persona encontra no personagem uma combinação muito particular de inteligência, carisma e humor. Nietzsche é, facilmente, um dos grandes destaques da produção.


Mas, quando o assunto é interpretação, o elenco guarda outros momentos especialmente impressionantes.

Laura Binder, protagonista como Alana, tem carisma e segurança vocal. Ela conduz a história sem perder a conexão com o público, mesmo em uma narrativa que exige atenção às referências e às mudanças de tom.


Mo Amaral, como Lídia, também merece destaque. A atriz interpreta com maestria uma personagem com síndrome de Tourette, sem transformar a condição em um recurso vazio. Lídia é engraçada, cheia de personalidade e, em vários momentos, surpreendentemente relacionável.

É Laís Cristina, porém, quem protagoniza talvez o trabalho de interpretação mais impressionante da montagem. Ela interpreta um personagem que transita entre Samuel e Sofia, alternando rapidamente voz, corpo e maneira de se expressar. A transformação acontece diante do público com uma precisão que chama atenção.


O trabalho é tão convincente que, em determinados momentos, a própria identidade de gênero de quem está por trás daquele personagem deixa de ser uma informação relevante para quem assiste. O que existe diante dos olhos é Samuel ou Sofia. E é justamente aí que está a força da atuação de Laís.

Até o figurino contribui para essa construção. A roupa da personagem reúne elementos associados aos dois gêneros e reforça visualmente a dualidade apresentada em cena. É um trabalho cuidadoso, assim como os demais figurinos da produção, que ajudam a criar uma estética bonita e coerente com o universo punk e sombrio do espetáculo.

A montagem também entrega um plot twist interessante. É possível que parte do público antecipe o caminho que a história vai tomar, mas isso não diminui o efeito. Pelo contrário: mesmo quando algumas pistas estão diante dos olhos, a peça consegue criar curiosidade suficiente para fazer o espectador querer descobrir como tudo vai terminar.

Há, no entanto, momentos em que O Fantasma de Friedrich parece querer chamar atenção de maneira mais explícita do que precisa. Algumas escolhas soam apelativas justamente porque aparecem dentro de uma produção que, no restante do tempo, demonstra ter muito mais conteúdo e personalidade. A peça estava indo tão bem que poderia confiar um pouco mais na própria narrativa.

E conteúdo não falta.

A montagem exige repertório do espectador. Nietzsche é apenas uma das referências que atravessam a história, e algumas passagens podem deixar parte da plateia momentaneamente confusa. Isso não é necessariamente um defeito. Teatro também pode provocar, exigir atenção e deixar perguntas sem resposta imediata.

Talvez seja justamente esse um dos méritos da produção: em uma época em que até obras fundamentais da cultura e da história podem ser reduzidas a opiniões rasas nas redes sociais, ainda existe espaço para um musical que pressupõe curiosidade, repertório e disposição para pensar.

No fim, O Fantasma de Friedrich não é apenas uma produção para quem gosta de musicais. É uma experiência que começa no ambiente do teatro, passa pela música, pelos figurinos e pelas atuações e termina colocando filosofia, liberdade e identidade dentro de uma história pop, punk e brasileira.

E isso, por si só, já é uma boa razão para prestar atenção no que a Bife Seco está fazendo.

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