Maria Casadevall fala sobre início no teatro e nova temporada nos palcos: ‘Porta que me acolheu’
Em entrevista ao R7 Teatro, atriz reflete sobre a mulher que interpreta em ‘Um Dia Muito Especial’ e os temas que fazem a história continuar atual
R7 Teatro|Maria Cunha, do R7

O teatro ocupa um lugar especial na trajetória de Maria Casadevall. Foi nos palcos que a atriz deu os primeiros passos da carreira e, depois de cerca de três anos afastada dos trabalhos, voltou a atuar, em outubro de 2025, com a peça Um Dia Muito Especial, ao lado de Reynaldo Gianecchini.
Quase um ano depois, a montagem ganha novas apresentações em São Paulo e será apresentada nos dias 7 e 8 de setembro, às 20h, no BTG Pactual Hall, dentro da programação do novo Festival de Teatro de São Paulo.
Depois, segue para a temporada de despedida no Teatro Renaissance, onde fica em cartaz de 30 de outubro a 20 de dezembro de 2026, com retorno de 8 a 31 de janeiro de 2027.
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Em entrevista ao R7 Teatro, Maria falou sobre o significado de voltar ao palco justamente pela linguagem que marcou o início de sua carreira.
“Eu me senti realmente esse tempo mais afastada, esses últimos três anos. Mas retornar pela via do teatro, que foi por onde eu entrei, me parecia muito simbólico. E pedi essa licença mesmo do teatro, para poder retornar pela mesma porta pela qual me acolheu quando eu estava começando.”
A atriz também se identificou com a história ao receber o convite para a montagem, adaptação do filme homônimo de Ettore Scola, lançado em 1977. Além da lembrança afetiva com a obra, Maria se interessou pela mistura de entretenimento e reflexão proposta pelo espetáculo.
“A peça tem um viés de entretenimento, claro. Tem canto, tem dança, tem comédia. Mas tem também um viés muito reflexivo, importante, provocativo, que provoca reflexão, que te chama a repensar uma série de coisas“
Uma mulher presa à rotina

Na trama, Maria interpreta Antonietta, uma mulher da classe trabalhadora, mãe de seis filhos, que vive submetida ao marido na Itália fascista de 1938. A história se passa em 6 de maio, dia da visita de Adolf Hitler a Benito Mussolini.
Enquanto os moradores do prédio saem para acompanhar a celebração política, ela permanece em casa porque precisa cuidar da família e dos afazeres domésticos.
“Ela vive invisibilizada dentro de uma casa, numa relação opressiva, e exerce um poder também muito figurativo dentro de casa, porque é ela que organiza e toma conta de tudo. Um poder totalmente mentiroso, em que ela está submetida ao poder do próprio marido. Ela não tem o direito à escolha. Ela não escolheu aquela condição.”
Um encontro inesperado
Ao longo daquele dia, porém, algo rompe a rotina programada de Antonietta.
“Ela já está ali dobrando a roupa de cama, arrumando aqui, cozinhando ali. E, em um determinado momento, numa tarde inesperada, alguma coisa diferente acontece nessa rotina que parece tão programada.”
Esse “diferente” é Gabriele, interpretado por Gianecchini. Recém-demitido da rádio que trabalha por ser homossexual e sob risco de perseguição, ele permanece no prédio enquanto os demais moradores participam da celebração.
“Tem uma coisa muito legal da peça: quando dois diferentes, dois improváveis, se encontram e, apesar das diferenças, se colocam na presença. A disponibilidade de ouvir e de enxergar esse encontro humano tem o potencial de transformar. E é isso que acontece“
O encontro aproxima duas pessoas que, em circunstâncias normais, provavelmente jamais cruzariam seus caminhos. Entre conversas sobre frustrações, sonhos e solidão, surge uma conexão que, segundo Maria, tem o poder de transformar os personagens.
Maria evita entregar os acontecimentos seguintes para não estragar a experiência do público, mas destaca que a trajetória da personagem também permite discutir a condição feminina para além daquele período histórico.
“Eu acho que me interessa falar sobre a condição de muitas mulheres naquele contexto e também trazer a atenção para a situação atual. Então, a gente não está mais naquele contexto de invisibilização entre lugares. Mas ainda permanecemos invisibilizadas de alguma forma”.
Uma história que continua atual
A discussão se amplia quando a peça estabelece uma ponte entre o passado e o presente. O filme foi lançado na década de 1970, quando, segundo Maria, havia a sensação de que o fascismo era uma experiência superada.
“Quando o filme foi feito, na década de 1970, falando sobre os anos 1940, era um consenso que o fascismo era uma coisa horrorosa e que nunca mais deveria se repetir.”
Para a atriz, revisitar aquela história hoje é justamente uma forma de reforçar o alerta. “Essa peça vem mostrar também o quanto é cíclica a história. E hoje a gente está precisando falar sobre isso para que não se repita.”
Serviço
Um Dia Muito Especial
BTG Pactual Hall
- 7 e 8 de setembro de 2026, às 20h
- Dentro da programação do Festival de Teatro de São Paulo
Teatro Renaissance
- 30 de outubro a 20 de dezembro de 2026
- 8 a 31 de janeiro de 2027
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