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Aprendiz de cozinheira

Juliana Aquino transforma herança do cacau no chocolate de origem Baianí

Depois de deixar a carreira artística, empreendedora volta às raízes familiares, encontra uma cadeia marcada pela vassoura-de-bruxa e cria a tree to bar Baianí

Aprendiz de Cozinheira|Aline SordiliOpens in new window

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Juliana Aquino, da Baianí, de chocolates tree to bar
Juliana Aquino, da Baianí, de chocolates tree to bar Divulgação

Juliana Aquino saiu da música, voltou ao sul da Bahia e encontrou na fazenda da família uma história de quatro gerações ligada ao cacau, uma terra marcada pela crise da vassoura-de-bruxa e uma cadeia que precisava reaprender a gerar valor. • “A gente traz de volta o protagonismo do cacau”, afirma ela.

Foi nesse retorno que nasceu a Baianí, marca de chocolate tree to bar (da árvore a barra de chocolate) criada para transformar origem, técnica e repertório em negócio, num percurso que também ajuda a redesenhar o lugar do empreendedorismo feminino dentro de um universo ainda dominado por homens.


Juliana faz chocolate e transforma uma herança ferida em valor de novo. Na sua volta à fazenda, encontrou uma propriedade marcada pelo abandono depois da passagem da vassoura de bruxa, uma escola rural, uma cadeia produtiva que já tinha sido uma potência nacional e uma pergunta concreta demais para ser adiada: o que fazer com uma terra cercada pela Mata Atlântica, cortada por três rios, carregada de memória, mas sem recursos para se sustentar?

A resposta não veio pronta, nem em tom de epifania gourmet. Veio da combinação entre origem, limite e trabalho. Juliana cresceu com o cacau por perto, mesmo quando a vida a levou para outros caminhos. O pai comprou a fazenda quando ela tinha sete anos, mas a história da família com a cacauicultura é mais antiga: são quatro gerações ligadas ao cacau no sul da Bahia.


Antes de voltar à fazenda, Juliana saiu do sul da Bahia para viver outra experiência. Escolheu a música, gravou dois discos, construiu uma trajetória artística e foi atrás de uma forma de liberdade que, para ela, sempre importou mais do que fama. “Eu sempre quis cantar, mas a fama era uma coisa que me afastava”, diz. Não queria perder autonomia, nem transformar a própria vida em vitrine permanente. Durante um tempo, funcionou. Depois, deixou de funcionar.

Houve um momento em que a música começou a parecer exaustiva. Não pela criação em si, mas pela engrenagem que a cercava: vender a própria imagem, organizar shows, reunir músicos, ensaiar, sustentar um ritmo que já não lhe parecia natural. “Eu bati a cabeça no teto”, resume. Ao mesmo tempo, a fazenda seguia ali, chamando de outro jeito.


A escola fundada pelo pai em 1987, mantida pela prefeitura e nunca interrompida, nem nos piores momentos da crise, a puxou para dentro. A fazenda deixou de ser só herança. Virou responsabilidade.

A essa altura, o cacau já carregava outro peso na história. A crise da vassoura-de-bruxa devastou a cacauicultura baiana e rebaixou o Brasil no mapa mundial da produção. Juliana se lembra bem da dimensão da ruptura: perda de trabalho, perda de protagonismo, propriedades sem recursos, fazendas abandonadas.


O país, que havia sido o segundo maior produtor de cacau do mundo, caiu de posição. A fazenda da família entrou nessa mesma corrente de decadência. A Baianí, marca que ela criaria depois, nasce exatamente desse ponto: não como exercício de estilo, mas como resposta a uma cadeia que perdeu valor e precisava ser reconstruída em outra base.

Em 2013, com o ciclo da música se fechando e a volta à fazenda ganhando força, Juliana começou a pensar no cacau de forma diferente. Fez gastronomia, outra paixão antiga, e passou a pesquisar, com o então marido e sócio, caminhos reais para valorizar a produção.

A pergunta era prática: como aumentar o valor do cacau produzido ali? A resposta veio em duas frentes. Primeiro, investir em cacau de alto padrão, com estrutura de colheita e pós-colheita mais cuidadosa. Depois, entender o movimento bean to bar (do grão à barra) e, no caso deles, tree to bar, da árvore à barra.

A distinção é importante porque explica o centro do trabalho dela. “Eu nunca deixei de ser cacauicultora para ser chocolate maker”, diz. A frase organiza tudo.

No caso da Baianí, o chocolate não é uma camada de branding colocada por cima da fazenda. É continuação da fazenda por outros meios. A barra final depende da escolha das variedades, do ponto da colheita, da fermentação, da secagem, da torra e da formulação. Antes de virar marca, o chocolate serviu como teste da qualidade dos lotes produzidos ali. Veio quase como instrumento de validação sensorial da amêndoa. Depois, agradou amigos e família. Só então virou negócio.

A empresária também não romantiza o processo. O maior desafio, segundo ela, nunca foi fabricar chocolate. Foi formar mercado. O consumidor brasileiro ainda sabe pouco sobre a diferença entre chocolate de verdade e sabor chocolate, entre bean to bar e tree to bar, entre manteiga de cacau e gordura hidrogenada, entre origem e formulação industrial. “O público ainda não conhece o chocolate que a gente faz”, diz. Há um nicho formado, sim, mas não uma massa de consumidores capaz de sustentar o negócio no tamanho que ele poderia ter.

Essa leitura dá à Juliana um tipo de autoridade rara: a de quem entende que o problema não é apenas produtivo, mas cultural. Reconhece que a indústria trabalha com escala, custo e volume para alimentar bilhões de pessoas.

Ao mesmo tempo, critica a naturalização do “sabor chocolate” e a baixa qualidade de informação oferecida ao consumidor sobre o que está comprando. Sua posição não é de demonização, mas de disputa simbólica e educativa. É preciso ampliar o repertório do público, fortalecer canais de comunicação e reposicionar o cacau como protagonista.

A QUARTA GERAÇÃO MUDIAL DO CHOCOLATE

A dona do Baianí explica a ideia de que estamos na “quarta geração do chocolate” ajuda a entender essa ambição. Na leitura de Juliana, a primeira geração está nos povos pré-colombianos, que transformavam o cacau em bebida estimulante. A segunda vem com a chegada dessa iguaria à Europa.

A terceira se consolida com a revolução industrial e a popularização da barra de chocolate. A quarta, que ela associa ao bean to bar e ao tree to bar, resgata a centralidade do cacau, da origem e do sabor. O que volta à cena não é só um produto mais puro. É outra lógica de valor.

Essa lógica passa por decisões muito concretas na fazenda. Juliana fala do sistema cabruca, em que o cacau convive com a Mata Atlântica, das melhores variedades para desenvolver sabor, da fermentação adequada, da secagem lenta e controlada, da torra como momento de selar aquilo que foi construído antes. Não há truque posterior que substitua uma origem mal-cuidada. No chocolate que ela defende, sabor não é maquiagem. É consequência.

Sobre o empreendedorismo feminino, Juliana reconhece o machismo do ambiente rural, especialmente num universo de trabalhadores historicamente pouco privilegiados em educação e acesso. Mas recusa organizar sua trajetória a partir da vitimização.

Prefere falar em autoconfiança, conhecimento e troca. Diz que os homens da roça sabem muito mais do que ela sobre a lavoura no dia a dia, e que a autoridade não se impõe no grito. Se constrói no trabalho, no entendimento da função de cada um e no respeito ao processo.

Ao mesmo tempo, faz escolhas claras. Na fermentação, por exemplo, prefere ter mulheres. Para ela, há ali uma sensibilidade específica para cor, cheiro, aroma e temperatura, detalhes decisivos num estágio que define o sabor do chocolate. Não é uma defesa ornamental da presença feminina, mas uma associação direta entre percepção e qualidade de produção.

Esse pragmatismo aparece também no associativismo. Juliana é uma das fundadoras da Associação Bean to Bar Brasil, criada para unir pequenos produtores, valorizar origens brasileiras e educar o consumidor. Sua atuação, portanto, não se limita à Baianí. Ela participa da construção institucional de um mercado ainda jovem, tentando equilibrar exigência de qualidade com compreensão das dificuldades reais de quem produz. Rejeita, inclusive, certo purismo fácil que condena pequenos ajustes técnicos sem conhecer as limitações enfrentadas no interior da cadeia.

No fim, quando aconselha outras mulheres a empreender na gastronomia ou em produtos de origem, volta a duas palavras que resumem sua própria trajetória: empirismo e credenciais. É preciso “barriga no fogão”, diz ela, isto é, experiência prática, mão na massa, entendimento real do processo. Mas também é preciso formação, certificação, lastro, tudo aquilo que ajuda a transformar conhecimento em confiança para o consumidor.

A trajetória de Juliana Aquino mostra como um produto de origem pode carregar muito mais do que sabor. Pode carregar memória, reparação, técnica, liderança e visão de futuro.

A Baianí, nesse sentido, não é só uma marca premium do sul da Bahia. É a forma que Juliana encontrou de traduzir o cacau brasileiro outra vez, agora com mais consciência de origem, mais valor agregado e menos submissão ao papel secundário que a crise impôs à cadeia.

Sua atuação extrapola a marca. Juliana é uma das fundadoras da Associação Bean to Bar Brasil, criada para unir pequenos produtores, valorizar origens brasileiras e educar o público consumidor. Esse associativismo reforça sua posição de liderança setorial.

Ela participa da construção institucional de um mercado ainda jovem no país. Leva para esse espaço uma visão que combina exigência técnica e pragmatismo. Defende qualidade e origem. Reconhece também que pequenos produtores enfrentam limitações muito diversas. Rejeita o purismo fácil que ignora as condições reais de produção no interior da Bahia e em outras regiões do país.

Seu conselho para mulheres interessadas em empreender na gastronomia ou em produtos de origem resume bem a própria trajetória. Juliana fala em empirismo e credenciais. O primeiro pede mão no processo, conhecimento construído na prática, erro, teste e domínio real do que se faz.

As credenciais entram como formação, curso, certificação e lastro visível para o consumidor. Quem compra um produto de origem quer saber em quem está confiando. Juliana construiu essa confiança por acúmulo, e não por autopromoção.

Juliana Aquino faz chocolate. O trabalho dela, no entanto, alcança um campo mais amplo. Ao reconstruir uma fazenda, sofisticar uma cadeia produtiva e devolver ao cacau seu lugar de protagonista, ela se torna uma tradutora contemporânea do cacau brasileiro.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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