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Remédio para emagrecer existe. O que não existe é acesso para todos

Enquanto alguns conseguem tratar a obesidade com apoio médico e tecnologia, outros seguem sendo responsabilizados

Obesidade sem Tabu|Mariana VerdelhoOpens in new window

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Mais da metade dos usuários de medicamentos para obesidade abandona o tratamento em menos de um ano.
  • Enquanto o mercado ilegal cresce, tratamentos custam entre R$ 800 e R$ 2.500 por mês, tornando-se inacessíveis para muitos.
  • O tratamento da obesidade envolve acompanhamento e não é apenas uma questão de força de vontade.
  • A desigualdade no acesso ao tratamento é preocupante, já que a responsabilidade é frequentemente colocada sobre o indivíduo.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

O tratamento existe — mas nem todo mundo consegue começar. E muitos não conseguem continuar Inteligência artificial/ChatGPT.

Mais da metade das pessoas que começam a usar medicamentos para obesidade abandonam o tratamento em menos de um ano, como mostram estudos e análises recentes.

Ao mesmo tempo, aumentam os casos de roubos a farmácias e até de contrabando dessas mesmas canetas emagrecedoras. Nesta semana, por exemplo, um casal foi preso após trazer ilegalmente cerca de mil unidades desses medicamentos do Paraguai, sem autorização sanitária.


De um lado, pessoas que não conseguem sustentar o tratamento. Do outro, um mercado ilegal crescendo em torno dele.

As canetas — assim como a magreza — viraram objeto de desejo. E isso diz muito sobre o momento que estamos vivendo. A obesidade finalmente começou a ser tratada como doença.


Depois de anos ouvindo que era “falta de força de vontade”, “preguiça” ou “desleixo”, surgiram medicamentos que mudaram o jogo. Pela primeira vez, muita gente viu o próprio corpo responder de forma diferente — com menos fome, menos compulsão, mais controle.

Mas, junto com esse avanço, veio uma pergunta incômoda que pouca gente quer encarar: quem, de fato, tem acesso a esse tratamento?


Hoje, medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida, indicados para o tratamento da obesidade, custam caro — o suficiente para serem inacessíveis para grande parte da população.

No Brasil, tratar a obesidade com esses medicamentos pode custar entre R$ 800 e R$ 2.500 por mês — e esse valor pode ser ainda maior quando se considera o acompanhamento médico necessário.


Ou seja: estamos falando de um tratamento que pode custar mais que um salário mínimo por mês.

Esse dado, por si só, já escancara a pergunta que insiste em voltar: se existe tratamento, por que ele ainda não é para todos?

Quando um tratamento de saúde passa a ser abandonado por quem não consegue pagar — e, ao mesmo tempo, passa a circular no mercado ilegal — é sinal de que algo está fora do eixo.

Porque isso já não é mais só sobre estética. É sobre acesso. É sobre desigualdade.

Enquanto uma parcela consegue tratar a obesidade com acompanhamento e tecnologia, outra continua lidando com o mesmo problema de sempre: sozinha.

E, ainda assim, o julgamento não mudou. Todo mundo opina. Todo mundo aponta. Todo mundo ainda acredita que é só “querer”. Mas será mesmo?

Quando alguém pergunta “por que você não faz o tratamento?”, parece uma dúvida simples. Mas não é. Essa pergunta ignora algo básico: tratamento sem acesso não é tratamento — é privilégio.

A obesidade é uma doença crônica. Não se resolve em semanas, nem em ciclos curtos de medicação. Exige acompanhamento, continuidade, adaptação. Agora pense: se o tratamento custa caro e precisa ser mantido ao longo do tempo, quem consegue sustentá-lo? E o que acontece com quem até começa, mas precisa parar?

O corpo sente. O peso pode voltar. A frustração aparece. E, quase sempre, o julgamento volta junto — como se o problema fosse falta de esforço, e não falta de condição.

Os medicamentos ajudam, sim. São uma ferramenta importante, principalmente para quem convive com fome constante, compulsão ou uma desregulação que vai muito além do “comer demais”.

Mas não são solução isolada. Não substituem acompanhamento médico, suporte nutricional, cuidado com a saúde mental ou mudanças no ambiente. Ou seja: o tratamento é complexo — e deveria ser acessível.

O que estamos vendo agora é o surgimento de uma nova desigualdade. De um lado, pessoas que finalmente conseguem tratar a obesidade com recursos modernos. Do outro, pessoas que continuam sendo responsabilizadas por não conseguirem acessar esse mesmo cuidado.

E isso é ainda mais grave porque não estamos falando apenas de estética. Estamos falando de saúde, risco cardiovascular, qualidade de vida, expectativa de futuro.

Talvez o mais inquietante seja perceber que o discurso mudou — mas nem tanto. Antes, diziam: “É só fechar a boca”. Agora, dizem: “É só tomar o remédio”. Em ambos os casos, a responsabilidade continua sendo colocada no indivíduo, enquanto o contexto segue invisível.

Se a obesidade é uma doença, como a ciência já reconhece, por que o tratamento ainda depende tanto da renda? E mais do que isso: até quando vamos continuar culpando pessoas por não terem acesso ao que poderia, de fato, ajudá-las?

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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