Transtornos alimentares podem aparecer ainda na infância
No Dia Mundial de Conscientização dos Transtornos Alimentares, psicóloga explica quais sinais merecem atenção
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Nesta terça-feira, 2 de junho, é celebrado o Dia Mundial dos Transtornos Alimentares, uma data que busca ampliar a conscientização sobre condições que ainda são cercadas por estigmas, diagnósticos tardios e muitos equívocos.
Quando pensamos em transtorno alimentar, muita gente ainda imagina apenas uma pessoa extremamente magra recusando comida. Mas a realidade é muito mais complexa — e, muitas vezes, começa muito antes do que imaginamos.
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Eu mesma demorei anos para entender isso.
Na infância, eu era aquela criança que dava trabalho para comer. Já fui pega jogando comida fora para que os adultos acreditassem que eu havia almoçado.
Nos anos 1980 e 1990, comportamentos assim eram frequentemente vistos como “manha”, “frescura” ou simples dificuldade alimentar. Hoje sabemos que podem ser sinais importantes de uma relação difícil com a comida.
Anos depois, desenvolvi anorexia. Mais tarde, compulsão alimentar. À primeira vista, os dois quadros parecem opostos. Mas, olhando para trás, percebo que ambos estavam ligados ao mesmo sofrimento emocional e à mesma relação conflituosa com o corpo e a alimentação.
Outro aspecto pouco conhecido é que nem sempre quem vive um transtorno alimentar enxerga o próprio corpo da mesma forma que as outras pessoas. Mesmo quando cheguei a pesar mais de 100 quilos, nem sempre me percebia tão grande quanto realmente estava.
A experiência me mostrou que a relação com a imagem corporal pode ser muito mais complexa do que simplesmente enxergar um número na balança.
Por isso, neste Dia Mundial dos Transtornos Alimentares, vale lembrar que essas condições não surgem do nada — e nem têm uma única aparência.

Segundo Camila Canguçu, psicóloga especializada em desenvolvimento infantil, a relação com o próprio corpo começa a ser construída muito cedo.
“A criança não nasce tendo uma relação negativa com o próprio corpo. Essa relação vai sendo construída nas experiências do dia a dia, nos comentários que escuta, nas comparações, nas relações com colegas, na mídia, na escola e na forma como os adultos falam sobre comida, peso e aparência”, explica.
Estudos mostram que crianças entre 6 e 8 anos já podem demonstrar preocupação com magreza, barriga, musculatura, aparência e aceitação dos colegas. Ou seja, a influência dos padrões estéticos pode surgir muito antes da adolescência.
As crianças aprendem observando. Quando escutam frases como “não posso comer isso porque engorda”, “preciso compensar na academia” ou “estou me sentindo gorda”, absorvem mensagens sobre valor pessoal, aceitação e aparência.
“A criança aprende observando. Quando adultos falam de dieta, de culpa ao comer, de medo de engordar ou fazem comentários sobre corpos, a criança entende que o corpo precisa ser controlado para ser aceito”, afirma a especialista.
Segundo Camila, muitas vezes não são apenas os comentários direcionados à criança que causam impacto. Conversas entre adultos, brincadeiras familiares e observações aparentemente inocentes também ajudam a moldar a forma como ela passa a enxergar o próprio corpo.
Os transtornos alimentares não surgem de um dia para o outro. Frequentemente, eles são precedidos por mudanças de comportamento que podem passar despercebidas.
Entre os sinais de alerta estão esconder ou jogar comida fora, evitar refeições, comer escondido, demonstrar medo intenso de engordar, apresentar preocupação excessiva com peso e aparência, sentir vergonha do próprio corpo, isolar-se durante as refeições e apresentar mudanças importantes de humor, autoestima ou peso.
Olhando para trás, reconheço alguns desses sinais na minha própria infância. Na época, pouca gente falava sobre transtornos alimentares e muito menos sobre a possibilidade de que eles pudessem começar tão cedo.
“Quando olhamos apenas para o peso, podemos deixar de perceber sofrimento importante, restrição alimentar, compulsão, purgação e sofrimento psicológico”, alerta Camila.
Essa é uma das razões pelas quais associar transtornos alimentares apenas à magreza pode ser tão perigoso. Pessoas com compulsão alimentar, bulimia, anorexia atípica e outros transtornos podem viver em corpos de diferentes tamanhos.
Muitas vezes, justamente por não se encaixarem no estereótipo da extrema magreza, passam anos sem diagnóstico.
“Essa visão focada apenas no baixo peso pode atrasar diagnósticos e agravar quadros físicos e emocionais”, explica.
Outro ponto importante abordado pela especialista é o impacto que a restrição alimentar pode ter ao longo da vida.
“Dietas rígidas, proibições e culpa em torno da comida podem criar um ciclo de controle, privação e perda de controle”, afirma.
A observação chama atenção porque muitas pessoas que enfrentam episódios de compulsão alimentar relatam um histórico marcado por tentativas repetidas de controle excessivo da alimentação.
Segundo Camila, uma relação saudável com a comida passa por equilíbrio, variedade e prazer — e não por culpa ou punição.
Para a psicóloga, famílias e escolas têm papel fundamental na prevenção dos transtornos alimentares. Em vez de elogiar apenas aparência ou perda de peso, é importante valorizar criatividade, dedicação, autonomia, amizades, gentileza e conquistas.
“Quando reforçamos capacidades da criança que não estão relacionadas apenas à alimentação, peso ou estética, ela percebe que seu valor vai muito além da aparência”, destaca.
No fim das contas, talvez a principal mensagem deste Dia Mundial dos Transtornos Alimentares seja justamente essa: crianças não nascem odiando seus corpos. Elas aprendem isso.
E, da mesma forma, também podem aprender que seu valor não depende de um número na balança, de uma roupa ou da aprovação dos outros.
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