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Aluno da noite

Até onde sei|Eugenio Goussinsky

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Na mesma rua, à noite, parou em frente ao muro da escola. Voltava sozinho de uma compra no shopping. Momento tranquilo. Fim de domingo, praticamente a única oportunidade de sentir uma cidade mais calma e vazia nos dias atuais.

Ouvia uma velha música dos anos 70, fazendo relembrar passagens de quando estava na escola.

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Com seu filho, revive aquela época em que os pais, em frente a um portão semelhante, aguardavam as crianças saírem em alarido frenético, enquanto o sorveteiro era cercado por uma legião ávida por doces.

Hoje não tem sorveteiro. Mas ainda tem porteiro e a mesma febre infantil em busca de novidades.

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As crianças saem em disparada, no pátio da escola, brincando de roda, rodando as malas, tropeçando, ouvindo recomendações de cuidado.

Correm de um lado para o outro enquanto o segurança, sim, hoje é necessário, chama uma a uma pelo microfone, assim que chega um responsável para buscá-la.

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Em frente àquele portão, no cenário escuro, ele revivia tudo aquilo em sua mente. A lembrança da voz no microfone vinha metálica, parecia ressoar pelos contornos da noite nublada, carregada de mistério.

A árvore dentro da escola balançava com a brisa refrescante, como se acenasse para ele avisando que estava lá, de folga, guardiã à espera da gritaria do dia seguinte.

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Os acordes da música o faziam viajar naquele palco conhecido, agora adormecido e vazio. Na frente da porta sempre repleta, o silêncio causou-lhe um misto de estranheza e encanto.

Foi tomado por uma sensação que o levava a vivenciar aquele dia-a-dia agitado. No papel de espectador de si mesmo.

Assistia a um replay de sua rotina, como uma partida de futebol reprisada no final do dia, quando detalhes podem ser melhor percebidos.

O farol da esquina abriu. E desfez o devaneio. Precisava acordar cedo para, dali a poucas horas, voltar ao mesmo local, trazendo o seu filho e retomando o ciclo da correria, no relógio do mundo, na panela que ferve e depois se assenta.

Sentiu-se reconfortado com a experiência e iria utilizá-la quando não pudesse segurar as horas e permanecer se alimentando eternamente daquele frenesi, o mesmo de seus dias de colégio.

Acabara de ganhar um presente: a escola à noite. Em sua nova fase de aluno. Onde, sempre que quisesse, iria para refletir. Para recordar. Para sentir o alarido, compensando o tempo que escorria por suas mãos e que ele não podia segurar. Foi embora enquanto a árvore, lá do fundo da escuridão, ainda balançava com o vento. Continuava lhe dizendo até amanhã.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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