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Se eu fosse eu

Desafiada, Clarice Lispector escreveu crônica sobre futebol e revelou para qual time torcia

Somos todos torcedores ignorantes, Clarice; somos 215 milhões de Ancelottis escalando Endrick e Neymar combalido

Se eu fosse eu|Renata ChiarantanoOpens in new window

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Clarice Lispector, desafiada por Armando Nogueira, escreveu uma crônica sobre futebol, revelando sua torcida pelo Botafogo.
  • A crônica, intitulada "Futebol e eu, Coitada", foi publicada em 1968 no Jornal do Brasil.
  • Clarice expressou sua ignorância apaixonada pelo futebol e a dificuldade de entender o esporte, mas reconheceu sua beleza.
  • A amizade e o amor pelo Botafogo uniram Clarice e Armando, resultando em uma troca de desafios literários e reflexões sobre a vida e o futebol.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Armando Nogueira, um dos maiores cronistas esportivos do Brasil, desafiou Clarice Imagem gerada por IA/Gemini

Um desafio à la final de Copa do Mundo. Chega aqui menino Endrick. Vem também Vini Jr., nosso artista com os pés. Vocês só têm noventa minutos e uns quebrados pra agradar uma nação inteira. Clarice Lispector não tinha intimidade com a bola, sobrava olé nas palavras, caneta na mão, mas bem que podia ser no campo... ⚽

Armando Nogueira, um dos maiores cronistas esportivos do país, se não for o maior, lançou a bola, ou melhor, o desafio: Clarice, uma das maiores escritoras do país, pra não dizer a maior, tinha que escrever uma crônica de futebol.


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Emocional e certeiro, disse que trocaria uma vitória de seu time de coração por um romance dela sobre futebol. Botafoguense desde o embrião, Armando jogou a bola pro alto. Clarice, botafoguense de alma, aceitou a provocação.

E agora, Clarice? A festa não acabou, a luz não apagou e o povo não sumiu. Drummond, cruzeirense, encarnou. E assim nasceu Armando Nogueira, Futebol e eu, Coitada. ✍️


Publicada em 30 de março de 1968 no Jornal do Brasil, a crônica ganhou um título verde e amarelo, que Clarice inventou para agradar Armando, o amigo botafoguense.

“Deixe eu lhe contar minhas relações com futebol, que justificam o coitada do título. Sou Botafogo, o que já começa por ser um pequeno drama que não tomo maior porque sempre procuro reter, como as rédeas de um cavalo, minha tendência ao excessivo. É o seguinte: não me é fácil tomar partido em futebol – mas como poderia eu me isentar a tal ponto da vida do Brasil?”, diz Clarice na crônica futebolística.


Mãe de um filho Botafogo e outro filho Flamengo, Clarice escreveu com a sensação de dar um drible no Pelé. Traição pura. A ignorante apaixonada, como ela própria se definia, sentia que um dia poderia entender de futebol. Do balé de pernas e magia. “O futebol tem uma beleza própria de movimentos que não precisa de comparações.”

Acostumada a dissecar a própria alma e a de todos nós, leitores da escritora, Clarice perdeu o pudor ao confessar a falta de conhecimento no assunto. “Um dia entenderei mais. Nem que seja, se eu viver até lá, quando eu for velhinha e já andando devagar.”


Somos todos torcedores ignorantes, Clarice. Somos 215 milhões de Ancelottis escalando Endrick e Neymar combalido, tirando Casemiro e, minutos depois, agradecendo o gol. Somos apaixonados também. Nem todos botafoguenses, nem todos flamenguistas, nem todos cruzeirenses. Mas todos brasileiros.

O fanatismo pelo Botafogo uniu dois iguais, que sempre desejavam balé e baile em campo e na máquina de escrever. Armando Nogueira, jornalista craque, com quinze Copas do Mundo no currículo e sete Jogos Olímpicos, cronista de mãos e pés afinados, escrevia sobre futebol como quem bebia água Perrier.

Borbulhante, elegante e refinado, inspirou Clarice a se despir e a se questionar. “Na minha avidez por participar de tudo, logo de futebol que é Brasil, eu não vou entender jamais?” A crônica oscila entre o mundo dos ignorantes do esporte e os que não desistem. Um déjà-vu brasileiríssimo. Afinal, de não entender, Clarice entende bem. “Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Não entender, do modo como falo, é um dom...” já escreveu a botafoguense em outra crônica: “Não Entender”.

Não entender é apenas torcer. “Sinto que isso é tão errado como se eu fosse uma brasileira errada”, divagou a coitada na crônica.

E agora, contra a Noruega de Haaland, entender importa? O que importa é impedir que o cometa nórdico não voe e torcer para que Vini Jr., Endrick, Neymar abatido e cia, brilhem na terrinha do tio Sam. Brasileiro errado é aquele que não torce, Clarice.

Do início ao fim da crônica, a fanática botafoguense, escritora da essência e essencial, lançou o seu desafio ao torcedor do mesmo time: “Meu primeiro impulso foi o de uma vingança carinhosa: dizer aqui que trocaria muita coisa que me vale por uma crônica de Armando Nogueira sobre, digamos, a vida. Meu desafio amigável: escreva sobre a vida, o que significaria você na vida...”

A dupla de escritores atacantes viscerais deu um baile na dobradinha. Um balé mesmo no bate-bola de palavras e sentimentos. Vem aqui, Vini, chega mais, Endrick. Contra a Noruega, precisamos de sentimentos. De gritos de gol, de comemoração, de Hexa entalado há mais de 20 anos. As estrelas botafoguenses vão brilhar no céu.

A crônica completa de Clarice Lispector, Armando Nogueira, Futebol e eu, Coitada, está no livro Todas as Crônicas, da editora Rocco.

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