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Se eu fosse eu

‘O mundo mudou e uma nova geração descobriu Clarice Lispector’, avalia Beth Goulart

Atriz encarna a maior escritora do século XX sem pudor em peça que está em cartaz em São Paulo

Se eu fosse eu|Renata ChiarantanoOpens in new window

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Beth Goulart está à vontade na pele de Clarice Lispector em peça Reprodução/Instagram/@teatromoisesafra

Duas cadeiras, uma máquina de escrever, alguns apetrechos, e duas mulheres à frente do tempo. Beth Goulart está à vontade. Encarna a maior escritora do século XX sem pudor. Debruçada em Joana, Ana, Lóri, Ângela Pralini, G.H, Macabéa. Tantas em uma só: Clarice Lispector.

Um monólogo perto dos corações selvagens da plateia. Ninguém se engana. Beth só conseguiu a simplicidade através de muito trabalho. Os trechos escolhidos combinam com as roupas, trocadas minuciosamente, a cada descoberta do mundo. São dez trocas de roupas, entre vestidos e adereços.


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Depois do Rio de Janeiro, a cidade de São Paulo sitiada, ali, na sua frente. Beth escolheu a dedo os textos, dirigiu e se despiu dela mesma para se transformar em Clarice. “Eu sou logo; sou”, ‘epifaneou’ a escritora ucraniana.

O premiado espetáculo Simplesmente eu, Clarice Lispector estreou em 2009 num Brasil diferente, e agora entra na alma de espectadores sedentos pós-pandemia.


Gente que lê Clarice raivosa e belamente, gente que nunca leu Clarice, mas que depois da peça vai correr pra ler, gente como a gente, que só quer claricear e viver.

Christhénay Buozi, professora de Literatura, tem Clarice na alma e na pele. As tatuagens ocupam praticamente todo o braço esquerdo dela. Textos prediletos, misturados ao rosto de Clarice, eternizam a grande escritora naturalizada brasileira.


“Clarice é minha linguagem, a minha vida, eu me vejo nela, acho que tudo isso é paixão!”, diz. Nem precisamos dizer que Christhénay garantiu um lugar em frente ao palco.

A escritora não-popularesca nunca foi tão popular. “Clarice se conecta com o nosso tempo interior e com o exterior, ela tem a marca dos grandes, ultrapassa o tempo e consegue essa proeza de tocar nossa alma em qualquer tempo”, diz Beth.


A dupla Beth-Clarice não pede passagem: entra rasgando textos fortes e esbravejando as diferentes epifanias da escritora. A conexão com os jovens é imediata. Hormônios a mil se deliciam com a fala gutural. A língua presa que foge das frases óbvias. Muitas despejadas nas redes sociais e atribuídas erroneamente à escritora.

O mundo mudou, mas uma nova geração descobriu Clarice, o que me dá uma esperança intensa de que a arte pode despertar nossa consciência e auxiliar nossas escolhas para um caminho melhor para nossa humanidade

(Beth Goulart)

A verdade é que, não importa a idade, essa dupla simplesmente arrebatadora fala para pessoas de alma já formada. De olhos fechados, Clarice está ali.

“Hoje, sinto que estou mais perto dela do que antes porque o tempo nos torna melhores, ganhamos vivências importantes, somos transformados pelas experiências da vida, ganhamos mais bagagens emocionais e sabedoria”, afirma a atriz.

Aos 65 anos, mais madura e mais clariceana do que nunca, e diante de muitos cegos que mastigam chicletes, a atriz enfrentou dramas que se misturam aos da escritora. Perdeu a mãe, Nicette Bruno, para a Covid-19 em 2020, seis anos depois de o pai, Paulo Goulart, morrer em decorrência de um câncer.

Clarice cresceu achando que o nascimento dela curaria a mãe, Mania Lispector. “Fizeram-me para uma missão e eu falhei”, revelou a escritora. A sensação de falhar, de não ser feliz, de não ter uma hora de estrela, é assunto para a psicanálise de Clarice, e o palco de Beth.

Em pouco mais de 60 minutos, a atriz em excelente forma acalenta o público sob devaneios clariceanos. “Hoje, as pessoas compreendem melhor Clarice. Ela ficou ainda mais próxima de todos com o tempo, então o espetáculo ampliou essa compreensão e proximidade com ela também”.

Ser ou não ser, eis a questão que Clarice carregou a vida inteira. Uma escritora que arrasta outras escritoras. “Eu poderia assistir essa peça 10, 20 vezes. Porque a Beth é a incorporação de Clarice, que é profunda, não é hermética”, diz a dramaturga, escritora e roteirista Maria Adelaide Amaral, ansiosa por prestigiar Beth na estreia em São Paulo.

No monólogo clariceano profundo, Beth tem a sua Hora da Estrela. Aplaudida sempre exaustivamente, com os jovens puxando as palmas. “É uma alegria imensa ver a plateia lotada, sinal de que o espetáculo continua com força, dialogando com todas as gerações e com mais amplitude”.

Simplesmente eu, Clarice Lispector já emocionou mais de 1,3 milhão e meio de pessoas no país. Depois de Rio e São Paulo, o futuro é indefinido, típico roteiro clariceano. “Vamos estender a temporada em São Paulo e assim vamos seguindo...”

A dupla Beth-Clarice também é mistério.

Serviço: A peça “Simplesmente eu, Clarice Lispector” está em cartaz no Teatro Moise Safra.

Serviço

Temporada: até 28 de junho

Sessões:

  • Sexta-feira, às 20h
  • Sábado e domingo 19h

Local: Teatro Moise Safra — R. Prof. Walter Lerner, 315, Barra Funda, São Paulo

Ingressos: de R$ 50 a R$ 450

Classificação: 12 anos

Duração: 60 minutos

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