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Análise: então é Natal

...E o que você fez? Que as boas virtudes não sejam limitadas apenas à data, mas sim um hábito constante

Viva a Vida|Neia Dutra*

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Então é Natal, e o que você fez?
Então é Natal, e o que você fez?

Como na canção de John Lennon, “então é natal...e o que você fez?”. Para muitos, responder a esta pergunta é um verdadeiro martírio.

A época festiva domina os ambientes: na confraternização do trabalho, no reencontro anual dos amigos e nas visitas familiares. Os alertas de que é Natal ressoam nos enfeites natalinos e um convite às compras é feito para, quem sabe, nos adequarmos mais ao clima. O comércio dispara estímulos para gastarmos até o que não temos por meio do crédito fácil. E muitos tentam levar para casa, nas dezenas de sacolas, um sentido que seja.


Com o discurso de que se comemora o nascimento de Jesus – o que não é verdade —, há um apelo emocional para a bondade e para as ações solidárias que se espalham pelas esquinas nesse período. O tal espírito natalino parece uma convocação social para aqueles que não enxergaram o próximo nos outros dias, como se pudessem redimir nessa época a maneira egoísta com que viveram o restante do ano. Sim, dezembro é o mês das virtudes instáveis e temporais.

E o que chama bastante a atenção é que, no Natal, a família vai parar numa moldura, do tipo "comercial de margarina". Todos cabem apertados num retrato, como se estivessem de fato felizes e bem relacionados tal qual mostra a foto.


Mas há aqueles que sequer conseguem fantasiar a dor. Envoltas em um clima de grande inadequação estão as pessoas que não se enquadram em nenhum modelo, porque vivem sozinhas. São filhos sem pais, pais sem filhos, pessoas distantes dos familiares, quem vive a recente perda de um amigo ou ente querido e tantas outras situações inimagináveis, nas quais não cabe nenhum laço vermelho.

Há uma pressão que nada tem de encanto sobre muitos por esses dias. Pessoas que acabam se culpando, porque, para elas, definitivamente não é Natal. Alguns fingem o entorpecimento, congelam o sorriso e torcem para que as horas passem logo, que tudo acabe depressa e volte de novo à rotina “normal”. Parece que há a obrigação de chegar nessa época com tudo perfeito, bem resolvido como nos finais de novela.


Há outros que, tristemente, não resistem. Apesar de não divulgarem os dados oficiais, as tentativas de suicídios e os suicídios aumentam nessa época. A cada 40 segundos no mundo, uma pessoa dá fim à própria vida. E, no Natal, este intervalo assustadoramente diminui.

Então é Natal... e tudo que precisamos de fato é cuidar das nossas emoções para não nos enganarmos com a magia inventada e nos enveredarmos pelo sentimento de culpa, amor fingido e ainda levar "de presente" um endividamento financeiro.


Que seja um momento de reflexão ainda mais racional, para identificar os erros e acertos praticados no ano que se vai e tomar a decisão de fazer as escolhas certas daqui pra frente, acreditando que, pela fé, tudo pode se tornar possível. Que as boas virtudes não sejam "coisas do Natal", mas um hábito constante que trará um sentido sólido para toda a vida.

*Neia Dutra é mãe, psicóloga, coordenadora do Projeto Escola de Mães

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