Figurinos e estrutura de diva pop: Liniker estreia turnê ‘Bye bye, Caju’ com show histórico em SP
Com repertório que percorre diferentes fases da carreira, artista transformou a despedida de “Caju” em afirmação de seu lugar na música brasileira

A cantora Liniker deu o pontapé inicial na turnê Bye Bye, Caju diante de uma plateia de 48 mil pessoas, na noite do sábado (11), em São Paulo. O show começou às 19h45, com cerca de 45 minutos de atraso, detalhe que rapidamente foi esquecido quando as luzes se apagaram e o público se deparou com a grandiosidade proposta pela artista.
Mais do que uma despedida da era Caju, álbum que consolidou Liniker como um dos principais nomes da música brasileira contemporânea e a levou a conquistar mais três gramofones no Grammy Latino, o espetáculo funciona como uma celebração de toda a sua trajetória.
Ao longo de quase três horas, a artista passeou por diferentes fases da carreira, costurando sucessos antigos e recentes em um roteiro que narra sua evolução artística e pessoal.
A narrativa ganha ainda mais força com a construção visual do show. A abertura, marcada por um texto potente, já indicava que o público assistiria a uma experiência pensada nos mínimos detalhes.
Em seguida, Liniker surgiu acompanhada por uma banda numerosa, corpo de balé e uma estrutura de palco que dialoga com grandes produções internacionais, sem abrir mão da identidade brasileira.
Os figurinos de Caju
Grande parte da força da identidade construída passa pelo figurino. Caju não é só o título do segundo álbum de estúdio da cantora, é a persona que passou a guiar o tom de suas composições.

Em parceria criativa com a stylist Caroline Passos, Alan Gomes e Larissa Benevenuto, a cantora usou vários figurinos ao longo da apresentação e dos visuais mostrados em telão. Cada uma das criações representando as fases de sua carreira.
O resultado reforça a imagem de diva pop consolidada com “Caju”, com referências que remetem ao glamour de artistas como Donna Summer, Beyoncé e Elsa Soares.
A primeira peça, assinada pela estilista Michelly X (responsável também por figurinos de Ivete Sangalo e Xuxa), trouxe o impacto necessário para preparar a plateia para o espetáculo que nos aguardava.
O longo vermelho bordado com franjas e muitos cristais remete aos figurinos exuberantes eternizados por Bob Mackie, mas reinterpretado sob uma perspectiva contemporânea e brasileira.
Já o terceiro look, um vestido colorido de crochê com aplicações de cristais, foi feito manualmente pela estilista Amapaense Abrilhante.
O espetáculo de Caju
Ao mesmo tempo em que impressiona pela grandiosidade, o espetáculo preserva a intimidade característica da artista. Em diversos momentos, os cenários criam uma atmosfera acolhedora, quase como a de um show em um speakeasy.
Logo nas primeiras músicas, o coro de 48 mil pessoas deixou evidente que o repertório de Liniker já faz parte da memória afetiva do público.
Ao som de Zero, single de Cru, EP de estreia da carreira, provocou uma explosão de entusiasmo, enquanto Liniker demonstrava estar completamente à vontade diante da multidão, reflexo de uma artista que hoje ocupa o palco com a segurança proporcionada pelo reconhecimento do público e da crítica.

“Que honra, que sonho viver isso. Cantar com vocês e celebrar com vocês. Hoje é noite de festa”, disse logo no início da apresentação.
Em um dos momentos mais emocionantes da noite, antes de cantar Psiu, Liniker relembrou o processo de criação do álbum. “Lembro que estava num momento da vida muito decisivo entre o que fazer, para onde seguir, trilhar um novo caminho. Estava em Salvador, uma cidade que amo demais, e tive um momento de mergulho. Depois que emergi, vi que era mais corajosa do que eu pensava que era”, contou.
Outro ponto alto aconteceu durante Baby 95. Enquanto a plateia assumia os vocais, Liniker atravessou o público, transformando a canção em um dos momentos de maior proximidade com os fãs.
A emoção atingiu o auge em Veludo Marrom. Com apenas voz, guitarra e milhares de celulares iluminando o estádio, o público assumiu o protagonismo na segunda estrofe enquanto a cantora, visivelmente emocionada, agradecia o carinho recebido.
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Os vocais, marca registrada de Liniker, também ganharam protagonismo em diferentes momentos do espetáculo. As harmonizações individuais da banda evidenciaram a potência do grupo que acompanha a artista e reforçaram a riqueza musical da apresentação.
Se musicalmente o show já impressiona, a direção também chama atenção pela forma como incorpora diferentes referências brasileiras. A coreografia em Mayonga mistura samba, gafieira e charleston em movimentos que dialogam tanto com a tradição quanto com a linguagem pop contemporânea.
Durante a apresentação, Liniker fez questão de destacar o caráter histórico daquela noite. “Isso é um dado histórico. É a primeira vez que uma travesti faz um show sold out aqui. É a primeira vez que a gente pode ocupar esse espaço. É um grito com fé, com resistência. Que muitas pessoas LGBT possam ocupar os estádios, as casas, os locais com dignidade”, afirmou, sendo ovacionada pelo público.
Em outro momento, antes de interpretar uma das canções, a artista também celebrou suas referências: “Essa música é em homenagem a toda música negra do mundo, principalmente à música negra no Brasil.”
A participação de Priscila Senna em Pote de Ouro elevou ainda mais a energia da reta final do espetáculo, que terminou às 22h32 com CHARME, encerrando a noite histórica.
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