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Carla Borriello e Michelle Sápiras estruturam mercado de azeite

Azeites Borrielo e Bem-te-vi unem produções de olivas da Serra da Mantiqueira ao Rio Grande do Sul dão origem a um modelo que conecta qualidade, escala e distribuição

Aprendiz de Cozinheira|Aline SordiliOpens in new window

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Carla Borriello e Michele Sápires uniram forças para produzir azeite premium brasileiro de alta qualidade.
  • A produção é realizada em dois terroirs distintos: Serra da Mantiqueira (Minas Gerais) e Serra do Sudeste (Rio Grande do Sul).
  • A sociedade entre as duas mulheres surge da necessidade de atender a demanda crescente e superar desafios no mercado de azeite.
  • O objetivo é faturar R$ 1,5 milhão em 2025 com uma operação focada na qualidade e no reconhecimento das marcas Borriello e Bem-te-vi.

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As produtoras de azeite de oliva Michelle Sápiras e Carla Borriello durante a colheita da safra em Encruzilhada do Sul (RS), que dá origem aos azeites premiados Borriello e Bem-te-vi
As produtoras de azeite de oliva Michelle Sápiras e Carla Borriello durante a colheita da safra em Encruzilhada do Sul (RS), que dá origem aos azeites premiados Borriello e Bem-te-vi Diego Vara/Divulgação

Carla Borriello e Michele Sápiras produzem azeite extravirgem brasileiro. Dos melhores, na minha opinião. A produção final acontece na Serra da Mantiqueira, num mix de terroirs de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul.

As duas se conheceram pelo mundo do azeite e construíram uma operação que conecta dois terroirs brasileiros, uma equipe inteiramente feminina e um produto reconhecido entre os melhores do mundo, partindo de uma insatisfação que nada tinha a ver com oliveiras.


Carla trabalhou durante 25 anos no mercado financeiro. “Eu estava com uma vontade enorme de sair desse universo”, conta. A saída veio de um projeto que parecia doméstico.

Em 2007, ela e o marido Mario, nascido em Gênova, com apreço por ingredientes italianos, plantaram 700 oliveiras na propriedade da família em Andradas, na Serra da Mantiqueira, em parceria com a EPAMIG (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais).


A ideia era fazer azeite para consumo próprio. Em 2013, a primeira colheita rendeu 3 toneladas de azeitona. No ano seguinte, foram 8 toneladas. Os frutos precisaram percorrer até Maria da Fé para a extração.

Carla encheu um caminhão de azeitonas, levou até lá e voltou com azeite. Quando o resultado passou por análise no laboratório Cerelab, em São Paulo, a acidez marcou 0,1, um índice que revelava fruta bem tratada e processo de extração impecável.


O primeiro movimento comercial aconteceu em garrafas de vinho. Não havia rótulo, não havia licença, não havia garrafa de azeite. “Eu comecei a vender esse azeite para os amigos, inclusive em garrafa de vinho ainda naquela época, porque não tinha garrafa de azeite, não tinha rótulo, não tinha licença. E todo mundo falando: nossa, que azeite espetacular”, lembra Carla.

A reação foi unânime. O passo seguinte foram as feiras gastronômicas. Todo final de semana, Carla ficava na Queijaria da Vila Madalena fazendo degustação e explicando como fazia e o que era a sua pequena produção de azeite Borriello na Serra da Mantiqueira.


“As pessoas me olhavam com uma cara meio desconfiada ainda, porque ninguém falava de produzir azeite no Brasil. Como assim, azeite brasileiro?” A desconfiança durava até o primeiro gole.

Em abril de 2014, a queijaria organizou uma feira de aniversário no Beco do Batman e convidou Carla. O evento se tornou um ponto de inflexão. Ivan Ralston, dono do Tuju, passou pela barraca, provou o azeite e disse que queria trabalhar com ele.

“Quando ele falou isso, isso deu uma grande motivação pra gente fazer toda a coisa de forma certinha”, diz Carla. A frase do chef funcionou como ordem de serviço. Veio o projeto do lagar, a importação da máquina da Mori na Itália, a corrida para obter todas as licenças.

A partir dali, outros chefs procuraram Carla. A executiva do mercado financeiro aplicou o que sabia fazer: mapeamento de restaurantes, visitas comerciais, amostras para chefs. Fez gastronomia para entender a dinâmica de uma cozinha profissional. A produção cresceu de 700 para 5 mil árvores. E surgiu um problema bom: a demanda passou a superar a oferta.

E é aí que Michele Sápiras entra nessa história, em 2022. O sobrenome é grego, e ela brinca que por isso foi parar no azeite. A trajetória profissional era outra: 25 anos como executiva no agronegócio, sócia de uma indústria de insumos para produção rural, com experiência em gestão de contas estratégicas.

“Eu comecei a ter vontade de ter o pé na terra mesmo, de ter o meu empreendimento no campo. Eu queria produzir, mas eu não queria produzir uma commodity. Eu queria produzir algo que fizesse bem para as pessoas, que fosse saboroso, que trouxesse um pouco mais de diversidade”, explica.

Estudou uva, noz-pecã, frutas vermelhas. Até que visitou um olival da Olivas do Sul, no Rio Grande do Sul. “Quando eu entrei nesse olival, eu senti uma energia tão boa e eu provei o azeite brasileiro e achei sensacional.” A decisão estava tomada.

Michele comprou terra em Encruzilhada do Sul, na Serra do Sudeste gaúcha, região com a maior área plantada de oliveiras do Brasil, e começou a construir o projeto que se tornaria o azeite Bem-te-vi.

Antes de plantar, estudou agrônomos, viajou, conversou com todos os produtores que haviam implantado olivais no país para mapear erros. Fez o curso da ONAO, escola italiana de degustação. Quando plantou, já sabia o perfil de solo, de clima, de relevo e de demanda que precisava.

Azeite Borriello
Azeite Borriello Diego Vara/Divulgação

A sociedade nasceu durante uma tempestade, literalmente. Em 2022, a azeitóloga Ana Belotto foi visitar a fazenda de Michele em Encruzilhada do Sul durante a colheita. Uma tempestade cortou a energia e inviabilizou todo o roteiro.

Ana ficou três dias na fazenda, sem luz, no meio do caos climático. Nesse intervalo, falou sobre Carla: uma produtora pioneira em São Paulo, com canal comercial consolidado na alta gastronomia e demanda que superava a oferta.

Michele ouviu e pensou que era exatamente o que precisava: alguém que valorizasse qualidade. Carla, do outro lado, tinha clientes e não tinha azeite suficiente. Michele tinha produção crescente e precisava de reputação de marca.

“Juntamos os dois desesperos”, brinca Carla. Um dia, bebendo espumante em São Paulo, decidiram que não fazia sentido seguir separadas. Criaram a BB Brasil Azeites, uma administradora para gerir as duas marcas premium, Borriello e Bem-te-vi, mantendo a identidade de cada uma.

A operação passou a operar em dois polos produtivos: Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais, com o olival histórico de Carla, e Serra do Sudeste, no Rio Grande do Sul, com o olival de Michele. A formalização veio em 2025.

Quebraram, de passagem, um paradigma: a suposta rivalidade entre produtores do Sul e da Mantiqueira. “Duas mulheres se unem pra acabar com essa história”, diz Michele. “Vaidades”, completa Carla.

Na Forbes Brasil, declararam meta de faturar R$ 1,5 milhão em 2025, com produção estimada de 6 mil litros distribuídos entre os dois terroirs. No ano anterior, o negócio de Carla havia faturado R$ 1,3 milhão, e a operação gaúcha, R$ 400 mil.

Em 2026, a safra superou as projeções. A proporção é de 10 quilos de azeitona para cada litro de azeite. Michele estima 70 toneladas de fruta nesta colheita, o que se traduz em aproximadamente 7 mil litros. “Todo ano ela me engana”, ri Carla. “Ela vai me surpreendendo. Começa: ‘olha, vai ter 60, vai ter 65’.”

Michele responde rindo: “É a estratégia de expectativa, Carla.” A produção já está praticamente toda vendida. O risco, neste momento, é faltar azeite, o que as obriga a segurar a abertura de novos clientes.

O número ganha dimensão quando se considera que a produção brasileira inteira de azeite foi estimada em 400 mil litros em 2024, uma fração mínima da demanda interna, que segue dependente de importação.

A operação diária é enxuta. “A nossa equipe inteira é feminina”, diz Michele. Além das duas sócias, há mulheres na área administrativa e comercial, financeiro e na coordenação da colheita. “É um azeite muito feminino o nosso. Só não posso dizer completamente porque a gente tem dois funcionários homens muito bons aqui na fazenda, eles vão brigar comigo.”

A escolha de não contratar representantes comerciais é deliberada. “Uma coisa que fez uma grande diferença é você estar na linha de frente falando do teu produto”, explica Carla. As duas vendem pessoalmente para chefs, empórios e consumidores finais.

A Borriello se concentrou no food service do Sudeste, atende Tangará, Rosewood, Renaissance, Copacabana Palace, e é recordista de venda no Empório Santa Luzia. A Bem-te-vi se posiciona no mercado gaúcho.

Cada restaurante novo passa por um treinamento conduzido pela própria Carla: como degustar, quais as propriedades, o que diferencia o produto. Os dois terroirs produzem azeites com perfis sensoriais distintos.

Na Mantiqueira, a chuva no período de colheita hidrata os frutos e resulta em um azeite mais suave. Na Serra do Sudeste, o clima semiárido concentra as partículas e entrega um azeite mais intenso, com amargor e picância marcados.

A solução foi criar um blend com as sete variedades cultivadas, equilibrado o suficiente para não assustar quem está descobrindo o azeite fresco, denso o bastante para não decepcionar quem já procura frutado e picância.

O posicionamento premium se sustenta em indicadores verificáveis: o Borriello aparece com 81 pontos no guia italiano Flos Olei 2026, ao lado de apenas oito outras marcas brasileiras selecionadas para a publicação. Carla já figurava na lista Forbes 100 Mulheres do Agro em 2021.

Em março de 2026, quando fiz a entrevista, a sexta colheita estava em andamento. E Michele a define como a melhor até então. “A gente amadureceu, a gente aprendeu, viu onde estão os gargalos, trabalhou pra eliminar os gargalos, aprendeu o perfil de pessoa que tem que ter aqui pra trabalhar.”

A rede de apoio local em Encruzilhada do Sul funciona como um ecossistema: vizinhos emprestam equipamentos, dividem cargas de produtos, compartilham manutenção. A lógica é cooperativa e pragmática. Quando Michele precisa de um equipamento, sabe onde buscar. Quando os vizinhos precisam dos dela, estão disponíveis.

A experiência de construir uma operação agrícola sendo mulher no interior do Rio Grande do Sul trouxe resistência concreta. A validação veio pelo domínio técnico. “Eu sempre estudei muito o assunto tecnicamente. Eles viram que eu estava dando orientações pertinentes. E eles passaram a respeitar. Foi um processo.”

Carla percebe o mesmo fenômeno com intensidades diferentes conforme a geografia: em São Paulo, onde circula em ambiente gastronômico de alto nível, a questão aparece menos. Em Minas Gerais, um pouco mais.

Entre elas, a dinâmica ganhou um código próprio. “Quando a gente encontra um homem preconceituoso, a gente fala: ah, esse é dos homenzinhos.” A equipe feminina não nasceu de uma tese sobre diversidade, mas de quem se apresentou com competência para ocupar cada função.

A visão de mercado que sustenta a operação parte de uma premissa sensorial. “O paladar não retrocede”, diz Michele. “Quando as pessoas provam o azeite de qualidade, e o melhor azeite é sempre o mais fresco e o feito localmente, as pessoas não querem voltar àquele óleo comercial que compravam antes no supermercado. É igual o vinho, que você vai provando um vinho melhor, você não quer voltar a tomar o vinho de garrafão.”

Carla observa o efeito na prática: o consumidor brasileiro está aprendendo a separar o azeite de cozinhar do azeite de finalização. “Antes era tudo numa cesta só. Agora não.”

O setor de azeite premium brasileiro vai prosperar. A questão é quais marcas conseguirão se posicionar. E posicionar-se, na lógica que Carla e Michele construíram, significa estar presente na colheita, na extração, na degustação, na venda, na conversa com o chef. As duas estudaram. E continuam estudando, safra após safra, no olival e fora dele.

Onde encontrar: https://azeiteborriello.com.br/ e https://www.instagram.com/azeitebemtevi/

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