A distância que separa as mulheres do diagnóstico precoce de câncer de mama
Por que o câncer de mama é descoberto em fases diferentes pelo Brasil
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O câncer de mama é o mesmo em qualquer lugar do Brasil, mas o caminho até o diagnóstico nem sempre é. Entre marcar a mamografia, realizá-la, receber o laudo, fazer uma biópsia e começar o tratamento, existem etapas que dependem de equipamentos, profissionais, transporte e organização da rede de saúde. Quando alguma delas falha ou demora, a doença pode ser descoberta em uma fase mais avançada.
Em setembro de 2025, o Ministério da Saúde ampliou o acesso ao exame no SUS para mulheres de 40 a 49 anos, um passo importante para a saúde pública. No entanto, neste Outubro Rosa, em vez de discutir a idade para começar o exame, este texto olha para outra pergunta: quem consegue chegar até ele? E o que os dados brasileiros dizem sobre o peso do lugar onde a mulher mora e de suas condições sociais?
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O que os números mostram sobre a cobertura
A meta da Organização Mundial da Saúde é que 70% das mulheres da faixa-alvo do rastreamento façam mamografia no intervalo recomendado. Um levantamento divulgado pela Associação Paulista de Medicina, com dados do DATASUS de 2015 a 2024, aponta cobertura nacional de 23,7%, com contrastes fortes entre estados: 3,5% em Roraima, 6,1% em Tocantins e 10,5% em Rondônia, contra 34% no Piauí e 31,5% na Bahia. Mesmo São Paulo ficou em 29,8%, longe da meta, o que mostra que o desafio não se restringe a uma região.
A Febrasgo lembra que, em 2022, a cobertura ficou abaixo de 40%. E um estudo publicado em 2026 na revista Women, com dados de 2013 a 2022, mostrou que nenhuma região chegou a 50% de cobertura em nenhum ano, com os menores valores no Norte e uma associação clara com a escolaridade: quanto menor o nível de estudo, menos mulheres faziam o exame.
As fontes usam bases e denominadores diferentes, e por isso os percentuais não são idênticos, mas todas indicam cobertura abaixo do desejado e desigual.
O aparelho existe, mas onde está?
Em 2023, o Brasil contava com cerca de 6,6 mil mamógrafos (sendo 6,3 mil em uso), somando as redes pública e privada, de acordo com o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES/INCA).
Embora a distribuição geral acompanhe o tamanho da população de cada região, Norte e Nordeste ficam em desvantagem, possuindo menos aparelhos do que o proporcional ao número de habitantes.
| Região | % da população (Censo 2022) | % dos mamógrafos (2023) |
|---|---|---|
| Sudeste | 41,8% | 45,4% |
| Nordeste | 26,9% | 23,1% |
| Sul | 14,7% | 15,5% |
| Centro-Oeste | 8,0% | 9,2% |
| Norte | 8,5% | 6,8% |
Tabela: cálculo da redação a partir dos dados do INCA (aparelhos existentes) e do Censo 2022 do IBGE.
O número, porém, conta só parte da história. A Febrasgo observa que os mamógrafos são menos numerosos no Norte e no Nordeste e costumam ficar restritos a áreas estratégicas, o que, no interior da Amazônia, pode significar deslocamentos longos, inclusive por rios.
Também importa a tecnologia: o INCA reconhece que as informações sobre o tipo de mamógrafo no cadastro nacional são incompletas, o que dificulta saber quantos aparelhos são digitais e como a qualidade do exame varia entre regiões.
E ter o aparelho é apenas o começo, pois é preciso equipe treinada, radiologista para o laudo, controle de qualidade e um caminho garantido até a biópsia quando o resultado é alterado.
Do exame alterado ao tratamento: o tempo conta
A legislação brasileira prevê prazos. Pela Lei 13.896/2019, quando há suspeita de câncer, os exames para esclarecer o diagnóstico devem ser feitos em até 30 dias no SUS, mediante solicitação fundamentada do médico. Pela Lei 12.732/2012, o primeiro tratamento deve começar em até 60 dias após o laudo que confirma a doença.
Na prática, o Radar do Câncer, plataforma do Instituto Oncoguia, estimou que cerca de 60% das pacientes receberam o diagnóstico depois do prazo legal em levantamento com dados de 2023 e 2024. Um estudo de revisão publicado em 2026 aponta ainda que barreiras geográficas e organizacionais, como o deslocamento até centros de referência, contribuem para o atraso.
O que disparidade de acesso pode significar para o desfecho
Um estudo publicado na Clinical Breast Cancer, que analisou 65.543 mulheres diagnosticadas com câncer de mama invasivo no estado de São Paulo entre janeiro de 2000 e junho de 2020, comparou detalhadamente o perfil e a sobrevida das pacientes atendidas pelo SUS e pela rede privada.
Os dados revelam disparidades marcantes: enquanto na rede privada 77,8% dos casos foram diagnosticados nos estágios iniciais (I e II), o sistema público apresentou uma alta proporção de diagnósticos em estágios avançados, incluindo 67,8% nos estágios II e III, além de uma taxa de doença metastática de 11,1%, comparada a apenas 5,3% no setor privado.
Essa diferença no momento do diagnóstico reflete diretamente nas taxas de sobrevida global em dez anos, que foram consistentemente superiores na rede privada em todos os estágios analisados.
No estágio I, a sobrevida foi de 81,6% no setor privado contra 77,5% no público; no estágio II, de 74,0% contra 63,3%; e no estágio III, a disparidade se acentuou para 55,6% contra 39,6%. Já no estágio IV, os números foram de 7,6% e 6,4%, respectivamente.
Além disso, evidenciou que ser tratado na rede privada, ter menor idade no diagnóstico, maior escolaridade, realizar terapia trimodal e descobrir a doença mais cedo são fatores independentes para uma melhor sobrevida.
Com base nesses achados, os autores concluem que o diagnóstico frequente em fases avançadas na rede pública está diretamente associado a piores desfechos e menor sobrevida para as pacientes.
Outro estudo, uma revisão de 2026, reforça que mulheres negras e pardas, com menor escolaridade e que dependem exclusivamente do SUS, tendem a enfrentar maior risco de diagnóstico tardio.
O que pode ajudar
Há motivos para otimismo. Um estudo de 2026 na Health Education & Behavior, com dados de 2015 a 2024, observou que o Outubro Rosa aumenta a realização de mamografias em mulheres de 50 a 69 anos e que o aumento foi maior nas regiões com maior cobertura da Estratégia Saúde da Família.
Isso sugere que a informação funciona melhor quando há uma porta de entrada no sistema de saúde, e que a conscientização rende mais quando acompanhada do fortalecimento da atenção primária.
Para que as mulheres possam exercer plenamente os seus direitos de acesso ao rastreamento do câncer da mama, existem estratégias práticas que facilitam a navegação pelo sistema de saúde.
Em primeiro lugar, recomenda-se procurar a unidade básica de saúde (UBS) da área de residência para conversar com os profissionais sobre o rastreamento adequado e partilhar o histórico familiar de saúde. É igualmente fundamental guardar cuidadosamente todos os pedidos médicos e os respetivos resultados de exames.
Anotar as datas (o dia em que o médico pediu o exame, quando saiu o resultado e quando foi feito o encaminhamento) ajuda muito a controlar os prazos que a lei determina para o atendimento.
Se você perceber que a fila está demorando demais, vale a pena procurar o serviço social da UBS, a central de regulação da sua cidade, a ouvidoria do SUS ou ligar para o Disque Saúde pelo número 136 para reclamar e buscar ajuda.
Essas dicas servem para orientar e mostrar o caminho das pedras, mas lembre-se de que elas não substituem uma consulta médica ou uma orientação jurídica profissional.
Sinais que não devem esperar
A mamografia de rastreamento é para quem não tem sintomas. Nódulo na mama ou na axila, mudança de forma, retração ou alterações na pele, secreção espontânea pelo mamilo ou dor persistente e localizada merecem avaliação médica sem aguardar a data do exame de rotina.
Informação como primeiro passo
Reduzir a distância entre a mulher e o diagnóstico é um desafio de todo o sistema de saúde, e há trabalho a fazer em cada etapa. Enquanto isso, conhecer o caminho, os prazos e os sinais de alerta é uma forma de cuidado. O lugar onde se mora não deveria ser um destino, e cada mulher que chega ao exame a tempo ajuda a mostrar que é possível encurtar essa distância.
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