Saúde mental na menopausa: saiba qual é o momento certo para buscar ajuda profissional
Entre 45% e 68% das mulheres relatam sintomas depressivos significativos durante a perimenopausa
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Para muitas mulheres, a chegada da menopausa costuma ser associada, à primeira vista, aos fogachos, às noites de sono interrompidas e às mudanças no ciclo menstrual. Mas um documento internacional divulgado neste ano traz um lembrete importante: o impacto emocional dessa transição merece a mesma atenção clínica dedicada aos sintomas físicos.
Publicado em 2026 no International Journal of Gynecology & Obstetrics, periódico oficial da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO), o documento reúne recomendações de boas práticas voltadas especificamente à saúde mental de mulheres na idade do climatério — período que engloba a perimenopausa (fase de transição, com ciclos ainda presentes, porém irregulares) e a pós-menopausa.
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O que os números mostram
De acordo com a revisão da FIGO, entre 45% e 68% das mulheres relatam sintomas depressivos significativos durante a perimenopausa, período em que a probabilidade de apresentar esses sintomas chega a ser maior do que na pré-menopausa.
A ansiedade também aparece com frequência elevada: estudos citados no documento apontam sintomas ansiosos em cerca de metade das mulheres nessa fase, ao lado de fadiga física e oscilações de humor relatadas por parcela expressiva das participantes.
Sentir instabilidade emocional durante a transição menopausal não significa, necessariamente, que exista um transtorno psiquiátrico instalado. Boa parte dessas manifestações está associada às próprias oscilações hormonais do período e tende a ser transitória.
Ainda assim, as evidências sugerem que, para uma parcela relevante das mulheres, os sintomas podem ser intensos o suficiente para comprometer o bem-estar e a qualidade de vida, o que justifica atenção e, quando necessário, avaliação profissional.
Por que a menopausa pode afetar o humor
A relação entre menopausa e saúde emocional é multifatorial. As oscilações e a posterior queda nos níveis de estrogênio parecem influenciar neurotransmissores ligados à regulação do humor, como a serotonina.
Somam-se a isso fatores como distúrbios do sono (muitas vezes causados pelos próprios fogachos noturnos), fadiga, mudanças na autoimagem e a sobrecarga de papéis sociais, já que muitas mulheres nessa faixa etária conciliam trabalho, cuidado com os filhos e, simultaneamente, cuidado com pais idosos.

O documento da FIGO chama a atenção ainda para um grupo de maior vulnerabilidade: mulheres com histórico prévio de depressão apresentam risco consideravelmente mais elevado de desenvolver sintomas depressivos significativos durante a perimenopausa, quando comparadas a mulheres sem esse histórico.
Sintomas vasomotores intensos (fogachos e suores noturnos frequentes), distúrbios do sono, estressores psicossociais e uma percepção mais negativa sobre a própria menopausa também aparecem associados a maior risco.
O papel do rastreamento e do diálogo com o profissional de saúde
Um dos pontos centrais das recomendações é a defesa de que o rastreamento de sintomas de humor e ansiedade passe a fazer parte da rotina de acompanhamento de saúde na meia-idade, e não apenas surja quando a mulher já chega ao consultório relatando sofrimento intenso.
Instrumentos padronizados, aplicados por profissionais de saúde, podem ajudar a diferenciar sintomas emocionais esperados nessa fase de quadros que já configuram um transtorno depressivo ou ansioso e que se beneficiariam de tratamento específico.
Na prática, isso significa que conversar abertamente com o ginecologista, ou com médicos de família e clínicos gerais, sobre mudanças de humor, tristeza persistente, irritabilidade ou ansiedade durante o climatério é tão válido quanto relatar fogachos ou irregularidades menstruais.
Para casos de moderados a graves, diretrizes internacionais preconizam o uso de antidepressivos e terapias psicossociais, sendo essencial buscar ajuda especializada (psiquiatra e/ou psicólogo) nesses casos. É importante conversar com seu profissional de saúde sempre que esses sintomas estiverem interferindo no dia a dia, no trabalho ou nos relacionamentos.
Movimento, hábitos e cuidado integral
Entre as estratégias discutidas no documento, os hábitos de vida ocupam papel de destaque — um ponto que dialoga diretamente com a ideia de que movimento é saúde.
A prática regular de atividade física aeróbica, além de exercícios como caminhada, yoga e pilates, aparece associada à melhora do humor e à redução da ansiedade nessa fase.
Terapias baseadas em atenção plena (mindfulness) e a terapia cognitivo-comportamental (TCC) também são citadas como recursos com respaldo científico, especialmente úteis diante de quadros de insônia associados à menopausa.
Cuidados com a alimentação e atenção à qualidade do sono completam um conjunto de medidas que, embora não substituam avaliação médica e nutricional quando necessárias, podem contribuir para o equilíbrio emocional nessa fase.
Quando os sintomas são mais intensos, o documento aponta que a terapia hormonal da menopausa pode ser considerada, sob avaliação médica individualizada, já que a reposição de estrogênio pode favorecer a estabilização do humor em algumas mulheres.
Para situações em que a terapia hormonal não é indicada ou não é a escolha da paciente, antidepressivos de classes específicas também são mencionados como opção eficaz, sempre com prescrição e acompanhamento médico.
Um chamado à mudança de olhar
Além das recomendações clínicas, o documento da FIGO defende uma mudança cultural: que os sistemas de saúde reconheçam a saúde mental na menopausa como parte legítima e importante do cuidado com a mulher nessa fase, e não como um efeito colateral menor a ser tolerado em silêncio.
O apoio de parceiros, familiares e da rede de convívio também é citado como fator que contribui para a adesão ao tratamento e para a redução do estigma em torno do tema.
Se você está na perimenopausa ou na pós-menopausa e tem notado mudanças persistentes de humor, ansiedade ou tristeza que vão além do que considera habitual para você, pode valer a pena conversar com seu ginecologista ou outro profissional de saúde de confiança, como, por exemplo, um psiquiatra ou psicólogo.
Buscar apoio não é sinal de fraqueza, mas parte do cuidado integral com a própria saúde, física e emocional, nesta e em todas as fases da vida.
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