Dor crônica na meia-idade: o que a menopausa tem a ver com isso
Tema do Dia Mundial da Menopausa em 2026, a dor persistente afeta cerca de metade das mulheres na meia-idade.
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Uma dor no ombro que surgiu sem nenhuma pancada. Os dedos rígidos logo ao acordar. Dores de cabeça que mudaram de padrão, ou um incômodo na pelve que vai e volta há meses. Para muitas mulheres entre os 40 e os 60 anos, queixas como essas acabam explicadas com uma frase conhecida: “é a idade”. A ciência, porém, tem mostrado que essa resposta é incompleta e pode atrasar um cuidado que faz diferença.
Não por acaso, a Sociedade Internacional de Menopausa (IMS, na sigla em inglês) escolheu “dor crônica na meia-idade” como tema do Dia Mundial da Menopausa, lembrado neste domingo (18).
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Para marcar a data, a entidade publicou em setembro um documento técnico na revista científica Climacteric. O texto reúne o que se sabe sobre o assunto e parte de uma constatação: aproximadamente metade das mulheres na meia-idade convive com algum tipo de dor crônica, muitas vezes com mais de uma ao mesmo tempo.
Quando a dor deixa de ser um alarme
Em condições normais, a dor funciona como um sistema de alerta: sinaliza que algo não vai bem para que o corpo se proteja. Quando ela persiste ou se repete por mais de três meses, passa a ser considerada crônica, segundo a classificação elaborada pela Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP). Nesse ponto, a dor deixa de ser apenas um sintoma e pode se tornar uma condição de saúde por si só, com impacto no sono, no humor, no trabalho e nos relacionamentos.
No Brasil, o problema é frequente. Uma revisão sistemática publicada no BrJP, periódico da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor, reuniu 35 estudos nacionais e encontrou prevalência média de dor crônica em torno de 45%, com as mulheres entre as mais afetadas.
O que muda no corpo na meia-idade
O documento da IMS descreve a dor nessa fase como o resultado de vários fatores que se somam. O estrogênio atua em diversos tecidos, como músculos, tendões, cartilagens e ossos, e também participa da forma como o sistema nervoso processa os estímulos dolorosos.
Durante a transição menopausal, as oscilações e a queda desse hormônio interagem com o envelhecimento natural das articulações, com processos inflamatórios e com mudanças na sensibilidade do sistema nervoso. O resultado pode ser um corpo que “amplifica” a dor com mais facilidade.
A isso se somam sintomas típicos do período: noites mal dormidas por causa dos fogachos, cansaço, oscilações de humor e, muitas vezes, uma sobrecarga de responsabilidades em casa e no trabalho. Segundo os especialistas, todos esses fatores podem influenciar tanto o surgimento quanto a intensidade da dor.
Em 2024, pesquisadores norte-americanos propuseram, também na Climacteric, o termo “síndrome musculoesquelética da menopausa” para dar nome a esse conjunto de queixas.
De acordo com a revisão, mais de 70% das mulheres apresentam sintomas musculoesqueléticos durante a transição, como dores articulares e musculares, rigidez e perda de força, e cerca de uma em cada quatro chega a ter limitações importantes por causa deles.
As dores que mais aparecem nessa fase
Nem toda dor na meia-idade tem a mesma origem. Entre as condições destacadas pela IMS estão:
- Dores musculares e articulares, que podem afetar ombros, mãos, quadris, joelhos e coluna, muitas vezes acompanhadas de rigidez pela manhã.
- Fibromialgia, caracterizada por dor espalhada pelo corpo, fadiga e alterações do sono, bem mais frequente em mulheres.
- Enxaqueca, que pode mudar de padrão durante a perimenopausa por causa das oscilações hormonais.
- Dor pélvica crônica, que inclui desconfortos na região da pelve, durante a relação sexual ou ao urinar e evacuar.
Essas condições frequentemente aparecem juntas, e os pesquisadores acreditam que compartilham mecanismos em comum. Por isso, a recomendação é olhar para a mulher de forma integral, e não para cada dor isoladamente.
Movimento: um dos aliados mais bem estudados
Pode parecer contraditório, mas, para boa parte das dores crônicas, ficar parada tende a piorar o quadro. A falta de movimento reduz a força muscular, a mobilidade e o condicionamento, o que pode aumentar a sobrecarga nas articulações e alimentar um ciclo de dor, medo de se mexer e mais inatividade.
As evidências a favor do exercício são consistentes. Nas recomendações da Liga Europeia contra o Reumatismo (EULAR) para o manejo da fibromialgia, o exercício físico foi a única terapia a receber recomendação forte.
Uma meta-análise publicada no BMJ em 2025, que reuniu 217 ensaios clínicos com mais de 15 mil pessoas com artrose de joelho, concluiu que o exercício melhora dor, função e qualidade de vida, com destaque para atividades aeróbicas como caminhada, bicicleta e natação.
E uma revisão publicada neste ano mostrou que o treino de força traz ganhos semelhantes de força e composição corporal para mulheres antes e depois da menopausa. Ou seja, nunca é tarde para começar.
Na prática, alguns cuidados podem tornar o início mais seguro e agradável:
- Começar com pouco e progredir aos poucos. Sessões curtas e regulares costumam funcionar melhor do que esforços intensos e esporádicos.
- Combinar diferentes tipos de atividade. Exercícios aeróbicos, de fortalecimento e de mobilidade se complementam.
- Saber que algum desconforto no início pode ser esperado. Uma dor leve que melhora em poucas horas costuma fazer parte da adaptação; dor intensa ou que piora nos dias seguintes indica que o plano precisa de ajustes.
- Contar com orientação profissional. Um fisioterapeuta ou profissional de educação física pode adaptar o programa às necessidades de cada mulher, especialmente quando já existe uma condição dolorosa.
Sono, emoções e o ciclo da dor
Dor e sono têm uma relação de mão dupla: dormir mal aumenta a sensibilidade à dor, e a dor atrapalha o sono. Algo parecido acontece com a ansiedade e os sintomas depressivos, que também podem se tornar mais frequentes na transição menopausal.
Por isso, cuidar da rotina de sono, manejar o estresse e, quando necessário, buscar apoio psicológico fazem parte do tratamento. Abordagens como a terapia cognitivo-comportamental podem contribuir para o manejo da dor crônica e são recomendadas como primeira opção no tratamento da insônia crônica.
E a terapia hormonal?
Essa é uma dúvida comum. Pesquisas recentes investigam se a terapia hormonal da menopausa pode aliviar as dores musculoesqueléticas, mas ainda não existe orientação específica para esse uso. A terapia hormonal tem indicações bem estabelecidas, como o alívio dos fogachos, e sua prescrição é sempre individualizada, considerando benefícios e riscos para cada mulher, em conversa com o médico.
Quando procurar avaliação
Dor persistente merece investigação, e não apenas paciência. Vale conversar com um profissional de saúde quando a dor dura mais de algumas semanas ou interfere nas atividades do dia a dia, no sono ou no humor.
Alguns sinais pedem avaliação mais rápida: articulações inchadas, quentes ou avermelhadas; dor acompanhada de febre ou perda de peso sem explicação; fraqueza ou formigamento que avançam; e dor que piora progressivamente, mesmo em repouso. No caso de dor pélvica, qualquer sangramento após a menopausa também precisa ser avaliado.
O tratamento da dor crônica costuma ser multiprofissional e pode envolver médico, fisioterapeuta, psicólogo e profissional de educação física, entre outros. Cada caso é único, e a combinação de estratégias é construída em conjunto com a paciente.
Dor não é “coisa da idade”
O principal recado do Dia Mundial da Menopausa deste ano é que a dor das mulheres precisa ser ouvida, investigada e tratada, e não normalizada. Sentir dor na meia-idade é comum, mas não precisa ser aceito como parte inevitável do envelhecimento. Informação, acompanhamento adequado e movimento podem ajudar muitas mulheres a atravessar essa fase com mais disposição e qualidade de vida.
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