Como cada fase da mulher afeta a saúde do coração
Quatro entidades médicas propõem ampliar a prevenção cardiovascular feminina
LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA
Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Quando se fala em saúde do coração, a imagem que costuma vir à cabeça é a de um homem de meia-idade com colesterol alto. A ciência, porém, vem mostrando que o coração das mulheres tem uma história própria, que começa muito antes e passa por momentos que só elas vivem: a primeira menstruação, os ciclos menstruais, a gravidez e o pós-parto.
Foi essa a proposta de um conjunto de três documentos publicado em 26 de outubro de 2026 na revista Circulation, da Associação Americana do Coração (AHA). Pela primeira vez, quatro entidades de áreas diferentes (a própria AHA, a Academia Americana de Pediatria, o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas, ACOG, e a Sociedade de Medicina Materno-Fetal) assinaram juntas um marco que liga a saúde cardiovascular às fases da vida feminina.
Veja Também
O que o novo marco propõe
O documento organiza a vida da mulher em quatro grandes fases, definidas pelas mudanças hormonais: a perimenarca (por volta dos 8 aos 15 anos, período em torno da primeira menstruação), os anos de ciclos ovulatórios (aproximadamente dos 15 aos 44), a perimenopausa (por volta dos 45 aos 51) e a pós-menopausa. A gravidez, que pode acontecer em diferentes momentos, é tratada como uma espécie de “teste de esforço” para o organismo, capaz de revelar riscos que ainda não tinham aparecido.
A ideia central é que saúde hormonal, saúde emocional e saúde do coração estão interligadas e, por isso, deveriam ser avaliadas em conjunto em cada fase, e não em consultas isoladas e desconectadas. Vale um esclarecimento: segundo a própria AHA, documentos desse tipo orientam a construção de diretrizes, mas não trazem recomendações de tratamento individual.
Por que isso importa
As doenças cardiovasculares estão entre as principais causas de morte de mulheres no mundo e no Brasil. Em seu posicionamento de 2022 sobre o tema, a Sociedade Brasileira de Cardiologia já chamava atenção para fatores próprios do universo feminino, como a pré-eclâmpsia e o diabetes gestacional, e para a importância de incluir a saúde emocional na prevenção. Mesmo assim, muitas mulheres ainda não enxergam o coração como prioridade de cuidado.
O novo marco reforça uma mudança de olhar. Perguntas como “com que idade você menstruou?”, “seus ciclos são regulares?” ou “você teve pressão alta na gravidez?” podem ser tão úteis para avaliar a saúde cardiovascular quanto a dosagem do colesterol.
A menstruação como sinal vital
Desde 2015, o ACOG propõe que o ciclo menstrual seja tratado como um “sinal vital”, assim como a pressão arterial ou a frequência cardíaca. Na adolescência, ciclos que se repetem a cada 21 a 45 dias e duram até sete dias costumam ser considerados dentro do esperado, e alguma irregularidade nos primeiros anos após a primeira menstruação é comum.
O novo documento acrescenta uma camada: sangramentos muito intensos ou ciclos persistentemente irregulares podem ser um sinal precoce de alterações metabólicas, como as que ocorrem na Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP), condição associada a maior risco cardiometabólico. Isso não é motivo para alarme, e sim um bom motivo para conversar com um profissional de saúde quando algo foge do habitual.
A gravidez como “teste de esforço”
Durante a gestação, o coração e os vasos sanguíneos trabalham bem mais. Por isso, algumas complicações desse período funcionam como uma janela para o futuro.
Uma declaração científica da AHA de 2021 reuniu as evidências sobre seis delas: distúrbios hipertensivos da gravidez (como a pré-eclâmpsia), parto prematuro, diabetes gestacional, bebê pequeno para a idade gestacional, descolamento de placenta e perda gestacional. Todas estão associadas a maior risco de hipertensão, diabetes, colesterol alterado e doenças cardiovasculares anos depois.
Segundo essa revisão, o diabetes gestacional, por exemplo, se associa a um risco cerca de 68% maior de doença cardiovascular, e o parto prematuro, a aproximadamente o dobro do risco. São associações estatísticas, que não determinam o destino de ninguém, mas ajudam a identificar quem pode se beneficiar de um acompanhamento mais próximo.
As emoções também entram na conta
Ansiedade, depressão e transtornos alimentares, mais frequentes entre mulheres, também são apontados no documento como fatores que podem prejudicar a saúde cardiovascular. Cuidar da saúde mental, portanto, também é cuidar do coração.
O que pode ajudar em cada fase
- Infância e adolescência: movimento diário (a OMS recomenda, em média, 60 minutos por dia de atividade moderada a vigorosa dos 5 aos 17 anos), sono de qualidade e atenção ao padrão dos ciclos menstruais.
- Anos férteis: medir a pressão arterial e fazer exames de glicemia e colesterol conforme orientação profissional; contar nas consultas como são os ciclos e se há diagnóstico de SOP.
- Gravidez e pós-parto: manter o pré-natal, praticar atividade física e seguir acompanhando pressão e glicemia depois do parto, principalmente se houve alguma complicação. A amamentação também pode contribuir para a saúde cardiometabólica da mãe.
Em todas as fases: cuidar da saúde emocional, não fumar e preferir uma alimentação baseada em alimentos pouco processados.
Movimento é saúde, em todas as idades
Entre as medidas de prevenção, a atividade física é uma das mais estudadas e acessíveis. Para adultas, inclusive gestantes e puérperas sem contraindicação, a OMS sugere de 150 a 300 minutos por semana de atividade moderada, como caminhada em ritmo acelerado, além de exercícios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias da semana. Pequenos blocos ao longo do dia também contam. O ideal é que a prática seja adaptada a cada fase e, sempre que possível, orientada por um profissional.
Quando procurar atendimento
Algumas situações merecem uma conversa com a equipe de saúde, mesmo sem sintomas: ter tido pré-eclâmpsia, diabetes gestacional ou parto prematuro; ter diagnóstico de SOMP; ou perceber sangramentos menstruais muito intensos ou ciclos persistentemente irregulares.
Dor ou aperto no peito, falta de ar repentina, suor frio, náusea, mal-estar intenso ou dor que se espalha para braço, costas ou mandíbula são sinais de emergência. Nas mulheres, os sintomas de infarto podem ser menos típicos. Nesses casos, a orientação é procurar um pronto-atendimento ou ligar para o SAMU (192).
Uma história que pode ser reescrita
Olhar o coração pelas fases da vida não é motivo para medo. É uma oportunidade. Cada etapa traz informações valiosas e, ao mesmo tempo, novas chances de cuidado. Contar a própria história menstrual e gestacional ao profissional de saúde, manter o corpo em movimento e cuidar das emoções são passos simples que, somados ao longo dos anos, podem fazer diferença.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual por profissionais de saúde.
✅Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp


















