Crise no vinho dos EUA: por que produtores da Califórnia estão transformando uvas caras em adubo?
Queda no consumo nos EUA, busca por hábitos mais saudáveis e retração de gastos atingem em cheio a tradicional indústria vitivinícola
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7
É temporada de colheita na ensolarada região da Califórnia, nos Estados Unidos. Mas, em meio a parreiras carregadas, uma cena chama a atenção: nem toda uva colhida tem como destino final os tonéis de fermentação.
O motivo? O consumo de bebidas alcoólicas no país despencou, deixando produtores tradicionais com toneladas de frutas sem compradores e acumulando prejuízos. E, antes que você pergunte, uvas para vinho e as chamadas uvas de mesa (para comer) são coisas bem diferentes.
De acordo com um estudo publicado na revista científica Annals of Internal Medicine, o uso de álcool entre adultos americanos caiu quase 2%, enquanto o consumo excessivo despencou mais de 8% entre 2022 e 2024. Especialistas apontam que essa tendência não apenas continuou, como se aprofundou nos últimos anos.
O drama no campo: uvas virando adubo de luxo
Na Serres Ranch, localizada em Sonoma, a agricultora de quinta geração, Taylor Serres, vive essa realidade de perto. Os 130 acres de videiras da família costumam produzir anualmente entre 500 e 600 toneladas de uvas — com forte presença de Cabernet Sauvignon, Merlot e Zinfandel. Cerca de 80% da safra é normalmente vendida para outras vinícolas.
Porém, este ano, cerca de 30 toneladas de frutas, avaliadas no equivalente a R$ 600 mil, não encontraram comprador. No final de outubro, a equipe de Serres precisará cortar o excesso de uvas diretamente para o chão, transformando-as em adubo.
“É bastante deprimente. Não é um dia feliz”, disse a Taylor em entrevista à agência Reuters. “Mas a agricultura não é para os fracos. Você tem que diversificar, continuar. Algumas pessoas estão arrancando os vinhedos — compreensivelmente, pois não têm como se sustentar —, mas conheço pessoas com centenas de toneladas de frutas sem vender.”
Para driblar a crise, a família Serres aposta na diversificação nos investimentos: pecuária, cultivo de mirtilos (blueberries) e até construção civil. “Esta é uma fase de baixa, mas a diversificação tem ajudado. Vai voltar a subir. Temos de aguentar firmes”, afirma a produtora.
O fator saúde e o comportamento dos consumidores
Mas o que está levando os americanos a beberem menos? Para Christian Miller, diretor de pesquisa do Wine Market Council, a mudança passa por uma transformação na percepção pessoal e na busca por bem-estar. O que acontece lá com o adulto médio (30-40 anos) é muito parecido com o que vemos no Brasil com essa geração que acaba de chegar à maioridade.
Quarentões como eu, na época universitária, mal conseguiam esperar para apresentar um RG e comprar sua cervejinha com um sorriso no rosto de “agora eu posso”. Hoje, esse não é o foco da molecada.
“É quase mais uma questão de percepção e autoconsciência: ‘O que estou colocando no meu corpo? Não me sinto bem... Esta é uma maneira fácil de cortar calorias’”, explica Miller. Mas não é só. O bolso está pesando: “Para os consumidores que não têm muito dinheiro, é também uma maneira fácil de enxugar o orçamento doméstico. Os dados mostram que são os bebedores de vinho de classe média que mais cortaram compras”.
Surpreendentemente, a pesquisa do conselho aponta que a retração no consumo de vinho é ainda mais intensa entre a geração Baby Boomer do que entre os Millennials ou a Geração Z.
Nas ruas de Oakland, o comportamento reflete essa mudança. O morador Eric Zheng, de 26 anos, conta que prefere optar por alternativas mais práticas. “Prefiro comprar uma cerveja ou preparar um coquetel para mim do que abrir uma garrafa de vinho, o que é um compromisso bastante grande, especialmente se esses vinhos custarem mais de US$ 60”, relata.
Já Taryn Kearns, de 34 anos, reconhece que seu consumo diminuiu nos últimos anos. “Eu consumo álcool, mas é bem infrequente hoje em dia. O meu habitual é algum tipo de vinho tinto quando decido beber socialmente”, diz.
O impacto nos estabelecimentos
O reflexo dessa mudança de hábito chega também aos balcões. Tony Gamboa, proprietário de uma loja de vinhos, aponta que até mesmo os clientes mais fiéis do clube de vinhos da vinícola reduziram as compras.
“Muitas das pessoas que entraram para o clube nos últimos 10 ou 15 anos são os Baby Boomers, que foram compradores extremamente confiáveis nas últimas duas décadas”, aponta Gamboa. “Estamos começando a ver alguns deles envelhecerem e saírem do mercado por motivos de saúde ou porque suas adegas estão cheias demais. Aprendemos que não podemos simplesmente descansar sobre os louros na região vinícola; precisamos encontrar um novo público.”
Com o público cada vez mais focado em saúde e economia, a indústria do vinho americana atravessa uma crise. A entrada em vigor do chamado Imposto do Pecado no Brasil, pode reduzir ainda mais a janela de exportação e fazer o produto sumir das prateleiras por aqui, o que agrava o cenário para produtores premium e super premium.
Hoje, a carga tributária sobre o vinho no Brasil varia, em média, entre 40% e 55% do valor final da garrafa, dependendo da origem do produto. A partir de 1º de janeiro de 2027, as bebidas alcoólicas passarão a ser taxadas pelo Imposto Seletivo, o que tornará os rótulos estrangeiros ainda mais caros. Vai ser difícil defender o vinho californiano, que hoje ocupa um por cento das prateleiras de importados, frente a concorrentes de melhor qualidade.
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