João do Rio: 145 anos de nascimento do grande cronista carioca
Sua criatividade parecia não ter fim, assim como sua perspicácia e o impressionante olhar observador
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João do Rio foi o seu principal pseudônimo e a forma como ficou eternizado na literatura brasileira. Nascido Paulo Barreto, na Rua Buenos Aires, no Centro do Rio de Janeiro, em 5 de agosto de 1881, ele era filho de um professor do Colégio Pedro II e de uma dona de casa.
João do Rio foi um jornalista por excelência. Viveu intensamente das letras: escreveu crônicas (principalmente), reportagens, contos, romances e peças de teatro, além de traduzir obras estrangeiras.
Sua criatividade parecia não ter fim, assim como sua perspicácia e o impressionante olhar observador, sempre antenado com tudo o que acontecia no Brasil e na Europa.
Chegou a ser correspondente internacional do jornal O País e cobriu a Conferência de Paz de Paris em 1919 — o encontro que reuniu chefes de Estado e diplomatas para selar o fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). No fim da vida, comandou seu próprio jornal: A Pátria.
O cronista descreveu o Rio de Janeiro dos primeiros anos do século 20 sob a perspectiva de um flâneur — termo que ele traduzia como o ato de “perambular com inteligência”.
Foi um dos primeiros jornalistas brasileiros a descer das redações para percorrer a pé as ruas da cidade, encontrando no cotidiano popular a matéria-prima do seu trabalho — uma semente que germinou em jornais e livros.

“Oh! sim, as ruas têm alma! Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, spleenéticas, snobs, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pinga de sangue...”
João do Rio deu voz aos invisíveis: carvoeiros, prostitutas, cocheiros, pivetes, presos e malandros. Caminhou por logradouros que nem existem mais, entrou em casas de ópio e visitou presídios, cortiços e favelas. Ao tentar subir o Morro da Providência, recebeu um alerta memorável:
— Vossa Excelência dá licença, mas não é bom ir lá sem gente.
— Por quê?
— Porque recebem a tiro.
Mas Paulo Barreto também transitava com naturalidade por palácios e palacetes. Conversava com senadores, ministros, presidentes da República, empresários, escritores e personalidades internacionais — era o seu lado dandy, elegante e refinado.
Se você quiser viajar pelo Rio de Janeiro do início do século 20, recomendo a leitura do clássico A Alma Encantadora das Ruas. Para se enveredar pela religiosidade carioca, leia As Religiões do Rio. Se preferir crônicas mais ágeis, vá de Vida Vertiginosa; para contos marcantes, escolha Dentro da Noite.
Embora tenha escrito poucos romances, deixou um livro fascinante chamado Memórias de um Rato de Hotel, que narra a história de um famoso ladrão que frequentava os hotéis de luxo do Rio para roubar apenas os mais abastados. A obra acabou adaptada para o cinema no filme Muitos Homens Num Só (2014), dirigido por Mini Kerti.
O mais jovem escritor a ingressar na Academia Brasileira de Letras, Paulo Barreto sofreu na pele o preconceito de racistas e homofóbicos por ser negro e homossexual. Ele batalhou muito e fez amigos como Olavo Bilac e inimigos como Lima Barreto.
Infelizmente, morreu precocemente aos 39 anos, vítima de um infarto, em 1921. Estava dentro de um táxi, voltando para casa, quando passou mal na Rua Bento Lisboa, no Catete. Seu velório parou a cidade e reuniu multidões: jornais da época estimaram que cerca de 100 mil pessoas acompanharam o cortejo fúnebre até o cemitério.
O legado de João do Rio permanece vivo. Seus livros continuam sendo relançados. Ele foi o grande homenageado da Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP) em 2024, e sua obra segue estudada nas universidades e celebrada no teatro, no cinema e no samba — tendo sido, inclusive, enredo do Império Serrano em 2010. Hoje, o Real Gabinete Português de Leitura guarda sua biblioteca pessoal e objetos de acervo do mais carioca dos cronistas.
Apresento a vocês um texto praticamente inédito de João do Rio, publicado no jornal O País em 5 de julho de 1919. Nele, o cronista escreve sobre Mata Hari, a famosa dançarina holandesa executada por autoridades francesas em 1917, sob a acusação de espionagem durante a Primeira Guerra Mundial.
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SENSAÇÕES DE GUERRA
O EXECUTOR DE MATA HARI
Naquela cidade da França, onde parara dois dias, o meu amigo, ao entrar num café, teve o ar alegre de quem, enfim, encontrava a emoção imprevista.
— Entremos. Vou servir-te qualquer coisa de sensacional.
— Não há nada mais de sensacional senão a nossa própria dor de não compreender os outros.
— É quase um conto cruel, e nada mais verdadeiro.
— Assunto?
— A guerra.
— Ainda a guerra! Não há mais nada! Os casos de guerra! Sempre a guerra!
Eu estava muito fatigado de viajar, de ouvir, de falar, de viver na hipertensão nervosa do “após a guerra”, com tantas criaturas, políticos, jornalistas, monarcas, presidentes. Julgava-me infelicíssimo, com o desejo de acabar de dormir, de não sonhar. Mas o meu amigo, que, aliás, é tão meu amigo quanto os outros e não passa, por consequência, de um cidadão tagarela, à espera de me aproveitar, continuou, sem cuidar do meu estado nervoso:
— Estás a ver aquele oficial, ao fundo, mesa à esquerda?
— Parece um velho.
— Não tem 25 anos.
— Ah!
— Era um rapaz brilhante.
— Conhecê-lo?
— A ele e à sua história.
Reparei mais no oficial. Apoiava o queixo nas duas mãos e o seu olhar inquieto parecia querer fugir e não poder fugir a um quadro doloroso, que não era senão a banqueta surrada do café.
— Que tomas tu?
— O que me quiseres.
— Bebamos café. Pois aquele oficial é o tenente X.
— Viu de certo, coisas atrozes na guerra?
— Ao lado da guerra. No front, batera-se sempre com alta coragem. Mas, depois, deu-se o caso e o governo não soube como resolvê-lo.
— Ao caso ou ao tenente?
— Ao tenente.
— Mas, decididamente, queres contar-me a história do tenente X!
— E tu não desejas senão que eu a conte.
— Palavra...
— Como toda a gente o sabe, o meu papel de cicerone seria triste, se me não adiantasse.
O criado viera com o café e a sacarina horrível. O voluntário cicerone afastou a sacarina.
— Conheceste a Mata Hari?
— Sim, fiz eu.
— Quando?
— Em Paris, quando amante do Malvy.
— Bela?
— Eu amo as bailarinas e achava-a bela, talvez por isso.
— A Mata Hari era bela. Holandesa de Java, bailadeira da Índia, ou muçulmana disfarçada, fosse o que fosse, ela era deliciosa. Deliciosa na rua, deliciosa no palco. Oh! Lembro-me bem dela a dançar, da sua força de sedução, nua, sob a Ourama (dinheiro) de ouro, com aquele movimento sensual das ancas, aquele torso, que era como um torno lento de luxúrias; aquele sorriso ao mesmo tempo febril e fixo, em que se abria o seu lábio de flor. Certos versos de Baudelaire...
— Sinceramente, não me meteste neste café para recitar uma composição literária sobre a falecida Mata-Hari, e composição cuja falta de originalidade é agravada pela fatal citação de Baudentire...
— Estás neurastênico?
— Estou fatigado.
— Mas a Mata Hari é um assunto. Achas que ela merecesse a execução?
Olhei o camarada, espantado.
A severidade inglesa tem um defeito: é estúpida. Quanto mais severidade, mais estupidez. Executar uma bailadeira, vendedora de beijos, é uma concepção só de cérebro inglês. Aliás, foi sempre assim.
— Aliás, a execução da Mata Hari foi na França.
— Por vontade inglesa.
— Sabes então do caso?
— Não. Deduzo, apenas.
— Pois, de fato, foi. A Mata Hari não fez mais do que mandar dizer aos alemães uma certa ofensiva francesa, anunciada em Paris, havia tempo, e sempre adiada, porque toda gente, antes dela realizada, era sabedora. Mata Hari, amante do Malvy, soube e disse.
— Fez o que as mulheres pagãs fazem.
— E saberia na sua ignorância ávida o crime que cometia?
— Por que insistes na Mata Hari?
— Porque, na morte, ela se revelou extraordinária quanto à noção da sua beleza.
— Só?
— E por causa também do tenente X.
— Que tem um com o outro?
O cavalheiro bebeu mais um gole de café.
— Como deves saber, foi negada a Mata Hari a comutação da pena capital. Ela soube do irrevogável e pediu um favor, o único que lhe foi concedido. Na madrugada, que era a sua última manhã, nevava. O pátio, onde estava o pelotão justiceiro, um grupo de homens, obedecendo, sem compreender, à ordem superior, desaparecia na brancura da neve. À luz do dia, lenta, parecia pedir a neve um pouco do seu palor (palidez) para anunciar matinas. E, por isso, a claridade vaga era soturnamente sombria. Mas sobre a neve passeava o tenente X, encarregado de presidir a execução.
— Ah!
— À hora marcada, com o aparato normal, isto é, com a secura banal dessas tragédias da justiça, desceu o grupo que trazia Mata Hari ao pátio. Apenas, ela vinha pelo seu próprio pé e, quando ela chegou, a tarda luz pareceu aumentar. Com uma ciência de dama de Carracio, Mata Hari envolvia-se num imenso manto de arminho branco. Toda ela, naquela fastuosa peliça, era um ardor nevoso de margaridas, de angélicas, de tuberosas, de brancuras acariciantes. E parecia esperar o automóvel, à saída de um dos estabelecimentos de prazer, após a noite em claro.
O tenente X, que vira a morte tanta vez, que matara e se defendera da morte, olhou-a transtornado. A bailadeira realizara o seu desejo. Estava pintada, maquiagem como para entrar em cena, esmaltada como um ídolo de beleza — os lábios rubros, os dentes brilhantes, os olhos alongados.
Então o tenente X tomou de um lenço e quis vendar Mata Hari. Ela fez um gesto, em que lhe baixou o braço, num misto de negativa, de desprezo, de pouco caso e de sedução.
— Não é preciso. Onde devo ficar?
E caminhou para o canto do muro como se caminhasse para o canto da alcova. O seu olhar reluzia, olhando o tenente X; o seu lábio sorria, sorrindo ao tenente X.
— Ordene! exclamou, abrindo o manto de arminho branco.
E do manto branco surgiu a flama (chama) do seu corpo, na trama de ouro do seu vestido de dançar. Disputando ao entrançado áureo a carícia daquela pele, daquelas linhas de carne palpitante, escorriam os cordões das pérolas, cintilavam as esmeraldas, as safiras, os rubis e gritavam como punhais os coriscos álgidos dos grossos diamantes nos dedos, nos pulsos, nos braços, nos tornozelos, no colo, nos seios, entre os seios, no ventre... Mata Hari, para morrer, pusera todas as suas joias. E ela própria, bárbara joia de luxúrias ignotas, chispava como a gema prima entre as gemas raras.
— Um...
Mata Hari olhava. Os seus olhos ardiam. Os soldados tinham as armas em pontaria.
— Dois...
Mata-Hari olhava. O seu sorriso como que a desabrochava para o gozo. Os soldados olhavam-na.
— Três...
Mata Hari olhava, impassível, imperial, para o tenente X.
— Fogo!
A detonação foi como uma queda, desigual. Mata Hari continuava de pé, sorrindo. Os soldados tinham de tal forma sentido a sugestão da beleza, que erraram o alvo, alucinados. Então, o tenente X, doido, não podendo mais entre aquele olhar, que se infiltrava, e o seu dever, que fugia, o tenente X tomou do revólver e detonou. O corpo coruscante tombou entre os arminhos do manto, enchendo-o de sangue. O tenente aproximou-se. E viu Mata Hari morta, que o olhava, com o mesmo sorriso e o mesmo olhar.
— Curioso...
— O tenente esteve dois meses numa casa de saúde. Quis pedir demissão do exército. Deram-lhe um posto, onde só tem que se distrair. Mas o tenente perdeu a ilusão da glória e o prazer de viver. Diante dele perpetuamente olha a Mata Hari. E nessa tortura ele caminha para a insônia total...
Olhei de novo o tenente X. Ele continuava com os olhos inquietos, presos à banqueta do café, e a sua fisionomia era o mais dilacerante quadro de dor que se possa conceber...
Alguns dos livros de João do Rio:
- A Alma Encantadora das Ruas
- Religiões do Rio
- Vida Vertiginosa
- A Mulher e os Espelhos
- Memórias de um Rato de Hotel
- A Bela Madame Vargas
- No Tempo de Venceslau
- Momento Literário
- A Profissão de Jaques Pedreira
- A Correspondência de uma Estação de Cura
Alguns livros sobre João do Rio:
- João do Rio: Vida, Paixão e Obra; de José Carlos Rodrigues
- João do Rio Plural; de Orna Messer Levin e Gilda Santos (organizadoras)
- João do Rio: Antologia de Contos; de Orna Messer Levin
- João do Rio; de Renato Cordeiro Gomes
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