Roberta Sá transforma a música brasileira em resistência feminina durante turnê europeia
‘Minha música quer empoderar e proteger mulheres’, comenta durante sua passagem por Barcelona, na Espanha

Há 20 anos, quando começou a trilhar o seu caminho profissional nos palcos, Roberta Sá não imaginava que a sua voz se tornaria também um instrumento de resistência. Hoje, ao regressar à Europa com a turnê Tudo Que Cantei Sou, a cantora brasileira reafirma não apenas a força da música brasileira no mundo, mas também o papel da arte como espaço de proteção, consciência e empoderamento para as mulheres.
Portugal marcou o início desta nova etapa europeia, mantendo uma tradição que acompanha o artista desde o começo da carreira. Em seguida, a turnê desembarcou na Espanha, com shows em Barcelona e Madri, sob a produção do produtor cultural Nano Ribeiro. A iniciativa reforçou o intercâmbio cultural entre Brasil e Espanha, ampliando o alcance da música brasileira junto ao público europeu.
Em palco, Roberta apresentou um espetáculo intimista ao lado de Alaan Monteiro, no bandolim, e Gabriel de Aquino, no violão, numa formação que valoriza a riqueza instrumental e a delicadeza das canções que marcaram a sua trajetória.
No repertório, canções que atravessam diferentes gerações da música brasileira, como Eu Sambo Mesmo (Janet de Almeida), Cocada (Roque Ferreira), Pavilhão de Espelhos (Lula Queiroga), Casa Pré-Fabricada (Marcelo Camelo), Fogo de Palha (Roberta Sá e Gilberto Gil) e O Lenço e o Lençol (Gilberto Gil).
Mais do que revisitar canções, a artista celebra uma tradição musical que continua viva e relevante.
Roberta Sá apresentou um espetáculo que celebra a tradição e a contemporaneidade da canção brasileira, reafirmando a música como espaço de resistência, encontro e transformação social.
Para Roberta, a recepção calorosa do público na Espanha revela uma afinidade cultural que ultrapassa a língua.
“Eu acho que a Espanha é muy caliente. Há uma coisa entre nós, povos latinos, que é a mesma língua emocional. O flamenco que inspira o trabalho do Gabriel de Aquino cria uma ponte muito bonita. Existe uma cultura em torno da comida, da dança, da música, tudo acompanhado por uma excelência instrumental impressionante. E é lindo ver como as pessoas batem palmas no ritmo, naturalmente”, conta.
‘Manter a chama viva’
Ao longo da conversa, a cantora associa a sua própria trajetória à ideia de resistência. Não apenas pela longevidade da carreira, mas pela escolha consciente de defender uma música brasileira contemporânea profundamente ligada às suas raízes.
Num mercado cada vez mais dominado pela velocidade, pelos algoritmos e pela lógica do consumo imediato capitalista, Roberta acredita que a preservação da cultura passa também pela valorização do encontro humano.
“A música brasileira é uma sedução. Eu mesma sou seduzida por ela. Muitas vezes parece que o mercado, a indústria e o capital querem que certas coisas desapareçam. A resistência é justamente continuar acreditando no feito à mão, no encontro, no calor humano, na vida orgânica.”
A artista vê neste momento um reconhecimento crescente da música brasileira além-fronteiras, mas defende que esse sucesso internacional só faz sentido se vier acompanhado da preservação da sua identidade cultural.
A maternidade é uma nova consciência feminina
Se a música sempre esteve ligada às mulheres no universo artístico de Roberta Sá, a maternidade aprofundou essa relação. Mãe de uma menina de três anos, a cantora admite que passou a olhar para o mundo e para o seu público de forma diferente.
“Eu sempre tive um público feminino muito grande e muito fiel, mas acho que só depois percebi verdadeiramente esse público. Quando me tornei mãe de uma menina, num Brasil que continua a bater recordes de feminicídio, tudo ganhou outra dimensão.”
A artista explica que a sua ligação às mulheres deixou de ser apenas uma identificação para se transformar também num sentimento de proteção e responsabilidade.
“Antes eu tinha uma ideia de estar junto das mulheres. Hoje existe também uma vontade de proteger. As mulheres que estão perto de mim, a minha filha, o meu público. Quero que a minha música seja uma canção que empodere e que alerte. Que possamos falar de assuntos difíceis, mas fundamentais, para que as mulheres morram menos, sejam mais felizes, saibam dizer não na hora certa e consigam proteger-se.”
É neste ponto que a música de Roberta Sá ultrapassa o entretenimento e assume um papel social. A artista utiliza a delicadeza da canção para abordar temas urgentes, transformando a música brasileira num espaço de escuta, acolhimento e resistência feminina.
O tempo como escolha
Ao terminar a turnê europeia, Roberta Sá regressa ao Brasil para iniciar a gravação do seu próximo álbum de inéditas. O disco já está a ser preparado, mas só deverá chegar ao público em 2027, uma decisão consciente numa época marcada pela pressa permanente.
“Tenho procurado fazer tudo num tempo mais alargado. O mundo já está rápido demais e eu não quero sucumbir a essa velocidade que nos é imposta”, diz.
Talvez seja essa a essência da resistência de que fala Roberta Sá: preservar a delicadeza num mundo acelerado, manter viva a tradição num mercado cada vez mais descartável e transformar a música brasileira numa voz que acolhe, alerta e fortalece as mulheres de hoje.
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