O que podemos aprender com os juros do ‘depois eu começo’?
Dona Cleusa e a lição sobre envelhecimento e autocuidado

Acordo neste domingo com o barulho de uma obra no prédio ao lado. O pedreiro, pelo que consigo ver da janela, deve estar na casa dos quarenta anos. Ainda jovem, passa a manhã de domingo martelando as paredes do topo daquele edifício. Está construindo um terraço.
Sem reclamar, caminho até a cozinha, abro a janela, o que aumenta ainda mais o ruído da obra, e começo a limpar a pia enquanto preparo meu café da manhã. Ao mesmo tempo, abro o Instagram e deixo alguns vídeos passarem na tela. Foi aí que surgiu a inspiração para esta crônica.
Os vídeos de dona Cleusa apareceram para mim como uma luva. Aos mais de sessenta anos, ela se tornou influenciadora digital e faz sucesso justamente por desafiar os estereótipos da velhice. Seu conteúdo gira em torno da desmistificação do envelhecimento e de como podemos construir uma relação melhor com o próprio corpo.
Em um dos vídeos, ela diz algo simples, mas poderoso: o sedentarismo não chega de uma vez. Ele se instala aos poucos. Hoje é apenas um cansaço. Amanhã vira dor. Depois, limitação. A gente acredita que ainda dá tempo de mudar, e quase sempre dá mesmo, mas cada “depois eu começo” torna a conta mais alta.
Em outro conteúdo, que fiz questão de enviar para minha mãe, ela fala sobre a relação entre pais e filhos. Segundo dona Cleusa, não devemos viver para os filhos, mas ao lado deles. Quantas pessoas dedicam décadas inteiras aos cuidados da família e chegam aos sessenta anos com a saúde fragilizada, sem nunca terem reservado um tempo para si?
Ela defende algo que parece óbvio, mas que raramente praticamos: cuidar do corpo enquanto isso ainda é uma escolha, antes que se transforme em necessidade.
Para mim, aos 30 anos, isso já virou escolha. Cheguei até aqui de maneira dura e poderia ter começado antes. Talvez tivesse evitado alguns erros. Mas cuidar da saúde nunca foi algo que me ensinaram. Como muita gente, precisei aprender sozinho.
O pedreiro do início desta crônica se tornou uma metáfora. É claro que existe muito mais por trás de um homem trabalhando em pleno domingo de manhã. Cada pessoa tem sua própria história, suas necessidades e seus motivos. Ainda assim, a imagem me fez pensar: quanto estamos entregando de nós hoje para que a vida nos cobre amanhã? Cabe a reflexão.
E, mudando completamente de assunto para encerrar esta conversa, deixo uma sugestão para quem estiver de passagem por Paris.
O restaurante Piatti, ao lado da Champs-Élysées, foi uma das minhas boas surpresas na cidade. Lá provei um escalope à milanesa que merece ser lembrado: frango crocante, bem executado, acompanhado por uma massa ao molho vermelho. Tudo isso por cerca de 20 euros.
Uma refeição simples, sem pretensão, mas daquelas que fazem a gente sair do restaurante já pensando em quando poderá voltar.
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