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Qual foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?

É estranho como mudar a perspectiva muda também o tamanho das preocupações

Rafael Ferraz|Rafa FerrazOpens in new window

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Burrata e creme de alho-negro; mousse de chocolate com terra de cacau e sorvete de pipoca Arquivo pessoal

Antes de responder a uma pergunta, a gente costuma pensar. Antes de atravessar uma rua, também. Antes de mudar de emprego, de terminar um relacionamento, de comprar um apartamento. A vida adulta nos ensina a calcular riscos.

Mas há experiências que só fazem sentido quando a gente para de fazer contas. “Qual foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?”


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Passei o último fim de semana respondendo a essa pergunta sem perceber. Sentado em uma cadeira, preso por três cintos de segurança, diante de uma mesa suspensa a cinquenta metros de altura, no meio do céu de São Paulo.

Confesso: nos primeiros segundos, o medo falou mais alto. Não era exatamente da altura. Era do desconhecido. A sensação de olhar para baixo e pensar: “O que eu estou fazendo aqui?”. Então a plataforma subiu.


E, curiosamente, o medo ficou lá embaixo. Lá de cima, São Paulo parece menos apressada. Os prédios deixam de ser gigantes. Os carros viram brinquedos. Os problemas, por alguns minutos, parecem menores.

É estranho como mudar a perspectiva muda também o tamanho das preocupações. Enquanto isso, o jantar acontecia. Batata-doce com parmesão, burrata e creme de alho-negro abriram a experiência.


Depois veio um espeto de picanha suína, alcachofra grelhada e defumada, ramas de beterraba, azeite de ervas e zaatar. No fim, mousse de chocolate com terra de cacau e um inesperado sorvete de pipoca.

Mas a verdade é que eu mal vou lembrar a ordem dos pratos daqui a alguns anos. O que vai permanecer é a sensação.


A lembrança de ter vencido um receio bobo. De ter rido quando a cadeira girava. De ter percebido que, muitas vezes, o medo existe só até o momento em que a gente resolve enfrentá-lo.

Como repórter, passo boa parte dos dias contando histórias dos outros. Tragédias, conquistas, recomeços, perdas. A gente acaba esquecendo de escrever algumas páginas da própria vida.

E talvez seja justamente isso que experiências como essa nos devolvam: uma página em branco.

Não importa se é jantar a cinquenta metros de altura, aprender um instrumento, viajar sozinho, correr uma prova ou simplesmente dizer “sim” para algo que sempre pareceu impossível.

Porque, no fim das contas, a vida não é feita apenas dos dias que passaram. Ela é feita das primeiras vezes que escolhemos viver. E aí eu volto a te perguntar: qual foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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