‘Digger’: Tom Cruise convence como magnata em sátira sobre poder, narrativa e crise climática
O longa, que está em cartaz nos cinemas brasileiros, se destaca pelas atuações e pela direção de Alejandro González Iñárritu
Cine R7|Lays Emily
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O que é mais importante: o fato ou a narrativa? Em tempos das tecnologias de inteligência artificial e de transformações significativas na maneira como o ser humano vive em sociedade, pensar o lugar que grandes figuras de poder político e econômico ocupam na construção do mundo contemporâneo talvez seja uma das inquietações mais urgentes do presente.
Por meio da sátira e da metalinguagem, o diretor Alejandro González Iñárritu constrói Digger, estrelado por Tom Cruise e em cartaz nos cinemas brasileiros. No filme, Cruise interpreta um magnata do petróleo norte-americano que se vê envolvido em uma crise ambiental provocada pela exploração da região antártica.
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A caracterização e os discursos do personagem chegam a assumir contornos quase cômicos. Ainda assim, o exagero não o distancia da realidade. Pelo contrário, o magnata funciona como uma lente de aumento sobre características que já reconhecemos em determinadas figuras de poder.
O que poderia parecer uma distopia, na verdade, está muito próximo do presente. A crise climática, a ganância, o consumo desenfreado, o ego e as relações de poder não aparecem apenas como elementos de uma narrativa ficcional, mas como questões concretas do mundo contemporâneo.
O filme sugere que, em uma sociedade cada vez mais atravessada pela imagem e pela comunicação instantânea, a forma como um acontecimento é apresentado pode ser tão determinante quanto o próprio acontecimento.
Apesar da recepção pouco expressiva do filme nas bilheterias, Cruise, ao lado de John Goodman, entrega uma interpretação convincente, sustentada por monólogos que ajudam a revelar justamente essa dimensão do poder.
Já o diretor retoma, em Digger, a metalinguagem explorada em Birdman (2014) e compartilha com o público a própria inquietação sobre a sátira. Ao transformar homens poderosos em figuras quase caricatas, o filme também nos faz questionar se estamos rindo deles ou apenas tornando mais palatáveis comportamentos que deveriam inquietar.
É justamente nessa fronteira entre sátira e realidade que Digger encontra uma de suas questões mais interessantes.
No fim, o longa entrega um roteiro consistente e uma proposta ambiciosa, que talvez não seja capaz de conquistar o público mais amplo, mas pode encontrar reconhecimento pela construção dos personagens, pela força das atuações de Tom Cruise e John Goodman e pela direção de Iñárritu.
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