‘100 Dias’ navega longe do piegas e brilha com efeitos visuais e Filipe Bragança como Amyr Klink
Com fotografia impressionante, o diretor Carlos Saldanha prova que o Brasil pode alcançar o padrão de Hollywood
Cine R7|Larissa Lopes, do R7
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

O filme 100 Dias, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (29), poderia muito bem ter caído na breguice, mas não foi isso que aconteceu. Ambientado, na maior parte do tempo, no mar, o longa mostra a travessia histórica feita pelo navegador brasileiro Amyr Klink, em 1984.
O diretor indicado ao Oscar Carlos Saldanha (A Era do Gelo e Rio) tinha o desafio enorme de contar o que aconteceu sem fazer discurso de superação, mas representando os momentos emocionantes e usando um CGI que aproxima, sem enganar o espectador. Ele não só conseguiu, como mostrou que o Brasil é capaz de fazer esse tipo de cinema nos padrões de Hollywood.
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O filme é belíssimo nos visuais, nos enquadramentos e, claro, nos efeitos especiais de tubarões, baleias e peixes dourados no oceano — crédito para Saldanha e o diretor de fotografia Rodrigo Monte (Minha Melhor Amiga).
Uma das melhores cenas é a que mostra o barco de Amyr Klink capotando no meio do oceano e fazendo tudo girar e cair dentro da cabine. Curiosidade: uma réplica do barco IAT, apelidado de “lâmpada”, foi construída só para o longa.
Acompanhando a “odisseia” de Amyr no mar, é inevitável se lembrar do filme As Aventuras de Pi (2012), mas o que separa as duas produções de cara é que 100 Dias conta uma história real — e brasileira. Parte do longa, inclusive, foi filmada em Paraty (RJ) e em Bertioga (SP).

Amyr Klink cruzou o oceano Atlântico Sul, da África até o Brasil, sozinho em um barco de quase seis metros. Viveu uma centena de dias remando, cozinhando refeições preparadas por uma equipe de nutricionistas, calculando a localização com base no sol e torcendo para que tempestades não chegassem, mas elas vieram.
E foi nessas cenas de maior dificuldade e drama que Filipe Bragança, que interpreta o navegador no filme, dá um show. Ele se sustenta sozinho na tela em grande parte do filme e dá para ver que a atuação do artista, de 25 anos, recebeu muita atenção da produção.

Prova disso é um trecho muito específico: após uma tempestade, o personagem rema sem parar e precisa lidar com o desespero e o atraso no cronograma da viagem. E é aí que Filipe parece congelar no tempo e encarnar o próprio Amyr Klink por segundos impressionantes.
Para viver o navegador nas telonas, o ator fez aulas de remo, precisou perder entre 10 e 12 kg e aprendeu a mexer em itens de um clássico navegador (como o sextante e as cartas náuticas).

Entre os atores coadjuvantes, é Philippine Leroy-Beaulieu (Emily in Paris) quem rouba completamente a cena, com seu português perfeito e semelhança impressionante com a mãe sueca de Amyr, Asa Frieberg Klink, como ele mesmo reconheceu em entrevista ao R7. A artista já explicou que aprendeu a nossa língua quando morou no Brasil nos anos 1990.
Felipe Camargo faz o pai libanês de Amyr, Jamil Klink, e João Vitor Silva interpreta o irmão do navegador, Tymur.
O roteiro de Elena Soarez e Thaís Tavares é bem fiel ao livro e manteve as cenas que mais importam para a narrativa.

Quem é fã do livro Cem Dias entre Céu e Mar vai se deliciar vendo pequenos detalhes que as roteiristas fizeram questão de manter na tela: o casaco vermelho usado pelo navegador quando partiu, a correntinha de ouro no pescoço e a bandeira do Brasil se desbotando ao longo dos 100 dias em alto-mar. Crédito também para a produtora Paula Cosenza.
Outra escolha do roteiro foi mostrar um Amyr mais obstinado, que tem acessos de raiva e se recusa a ouvir um “não”, visão que o livro narrado em primeira pessoa não consegue traduzir. Porém, é na versão “mimada” do personagem que a interpretação de Filipe Bragança fica um pouco caricata.

O veredito
Grandioso, 100 Dias deve ser assistido nos cinemas. Ver uma “creche de baleias” e peixes dourados dando um “oi” e trazendo esperança para um navegador que só queria chegar “em casa” são experiências inesquecíveis e feitas para as telonas.
Amyr Klink fez a travessia histórica há 42 anos e lançou o livro no ano seguinte, em 1985. Ao chegar ao Brasil, foi chamado de herói nacional, como Ayrton Senna, e inspira muita gente desde então. Mesmo assim, talvez as gerações Z e Alpha não o conheçam, e é por isso que o filme se faz tão importante agora.
Prestigiar as boas histórias que existem ao redor do Brasil e o nosso cinema é um dever e uma necessidade.
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