‘A Odisseia’ impressiona pela grandiosidade visual, mas esquece de emocionar
Adaptação de poema épico é a nova aposta do premiado diretor Christopher Nolan
Cine R7|Giovane Felix

“Musa, reconta-me os feitos do herói astucioso que muito peregrinou, dês que esfez as muralhas sagradas de Troia; muitas cidades dos homens viajou, conheceu seus costumes, como no mar padeceu sofrimento inúmeros na alma, para que a vida salvasse e de seus companheiros a volta.”
O trecho é parte da abertura do épico poema grego A Odisseia, atribuído a Homero. Escrito durante a segunda metade do século 8 a.C., o texto narra a jornada do herói Odisseu, que, após lutar na Guerra de Troia, passa vinte anos tentando voltar para casa.
Considerada uma das obras mais influentes e atemporais da literatura ocidental, A Odisseia ganha nesta quinta (16) uma nova adaptação para os cinemas. Nas mãos de Christopher Nolan, que venceu o Oscar por Oppenheimer (2023), a história clássica recebe uma nova interpretação naquele que parece ser o projeto mais ambicioso da carreira do diretor.
Veja Também

Protagonizado por Matt Damon, o filme acompanha o rei de Ítaca, Odisseu, que, após a queda de Troia, embarca em uma longa viagem repleta de perigos e provações para conseguir retornar para casa e reencontrar o filho, Telêmaco, e a esposa, Penélope.
Para representar o personagem, Matt Damon revelou que passou por uma intensa transformação física, resultado de uma rotina regrada de exercícios físicos e uma dieta restritiva, o que o levou a perder cerca de 15 quilos. A caracterização foi feita a pedido de Christopher Nolan, que tinha uma visão própria da aparência do herói.
Além de Matt Damon, o longa reúne um elenco de peso: Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson, Zendaya, Lupita Nyong’o, Charlize Theron, Jon Bernthal e Mia Goth.
Com uma escalação desse porte, é natural que alguns nomes tenham menos espaço em cena. Lupita Nyong’o, que interpreta as irmãs Helena de Troia e Clitemnestra, é um dos exemplos: a atriz aparece por apenas alguns minutos em duas ou três sequências. Ainda assim, tanto ela quanto o restante do elenco sabem a hora de brilhar e aproveitam ao máximo cada momento que têm em tela, entregando ótimas performances.

O grande destaque, por sua vez, fica com Anne Hathaway, que entrega a interpretação mais consistente e interessante em cena. Com nuances de vulnerabilidade e força, a atriz transmite a esperança de Penélope, que espera um marido que nunca volta, ao mesmo tempo em que expressa a revolta e a angústia de ser pressionada a se casar novamente.
Com isso, é fácil dizer que a atuação de Hathaway tem potencial para lhe render algumas indicações na temporada de prêmios do ano que vem.
Já o trabalho técnico do filme parece ter lugar garantido nas categorias de premiação. O cuidado e a atenção dedicados à fotografia, à direção de arte, à trilha sonora e aos efeitos visuais são marcas registradas das obras de Nolan e voltam a aparecer com força em A Odisseia. O resultado é um espetáculo à parte.
Pela primeira vez na história, um longa-metragem foi rodado inteiramente com câmeras IMAX de película 70mm, um formato conhecido pela altíssima resolução. Para garantir essa superprodução, o diretor contou com um orçamento estimado em US$ 250 milhões, cerca de R$ 1,2 bilhão, tornando-se o filme mais caro de sua carreira.

E a produção impressiona. A fotografia é belíssima e transforma cada quadro em uma obra de arte, valorizando o jogo de luz e sombra que se tornou assinatura de Nolan. Os detalhes do design de produção também chamam atenção e contribuem para que o espectador entre de cabeça na história, sem duvidar da grandiosidade daquele universo.
A trilha sonora também é um ponto alto. Ela conduz a narrativa de forma primorosa e faz com que o público se sinta dentro da tela. Mesmo com quase três horas de duração, o longa não se desgasta e mantém o ritmo e interesse de quem está assistindo. É uma experiência que, sem dúvida, merece ser vivida no cinema.
Diante do desafio de adaptar uma história com elementos fantásticos, a produção escolhe uma abordagem mais realista, que valoriza o verossímil e que é parte do estilo do diretor. A escolha funciona bem, contudo, poderia abrir mais espaço para o extraordinário.

A maior dificuldade de A Odisseia, no entanto, está na construção emocional da história. Não entendam mal: a carga dramática está presente em cada momento, e a produção entrega tudo o que se espera de um grande épico. Ainda assim, falta uma conexão mais profunda com os personagens. Existe uma barreira que impede o espectador de se envolver com suas dores e escolhas. Falta coração.
Mesmo assim, A Odisseia faz jus ao texto homérico e não decepciona. É grandioso, imponente e visualmente belo. Mesmo aqueles que não conhecem a história clássica podem se encantar com o longa. Talvez não seja a obra-prima de Christopher Nolan, mas com certeza é um grande acréscimo à filmografia do cineasta.

















