‘Eu e Você na Toscana’ aposta em receita pronta, mas erra o ponto do prato principal
Filme estrelado por Halle Bailey e Regé-Jean Page está em cartaz nos cinemas brasileiros
Cine R7|Ana Be*

Os ingredientes certos para o prato perfeito, que foi servido frio. Eu e Você na Toscana, que está em cartaz nos cinemas brasileiros, seguiu algumas das receitas consagradas das comédias românticas dos anos 2000, mas errou o ponto.
Uma protagonista de baixa renda em busca de um emprego, um relacionamento falso, a interação de enemies to lovers do casal principal e muitas outras fórmulas. Todos os elementos estavam dispostos sobre a mesa e prontos para serem aproveitados em uma receita digna de sucesso. O problema foi a execução.
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O aroma de potencial pairava pelo ar quando, de cara, o filme já se mostrou promissor ao apresentar Anna (Halle Bailey), uma órfã que largou os estudos de gastronomia para cuidar da mãe. Após a morte da genitora, ela precisou viver às custas de empregos temporários nos Estados Unidos.
Era um prato cinco estrelas que estava prestes a sair do forno, só que a trajetória da mocinha de correr atrás dos seus sonhos, esbarrar em Michael (Regé-Jean Page), o amor da sua vida, e construir uma narrativa digna do famoso “frio na barriga”, foi atropelada e deixou claro que, quanto mais alto, pior é a queda.
Eu e Você na Toscana parece mais preocupado em construir uma estética idealizada por muitos do que em desenvolver a profundidade de seus personagens principais.
Apesar de, curiosamente, acertar em quase tudo ao redor deles, como nos coadjuvantes e nos cenários que respiram o charme europeu, quando chega o momento de servir o romance e seus componentes, a experiência perde força.
Seria injusto afirmar que faltou ambição no filme dirigido por Kat Coiro; pelo contrário, a produção compreendeu os fatores primordiais que compuseram a maioria das comédias românticas mais amadas pelo mundo, mas, apesar de conhecer a receita, Eu e Você na Toscana não encontrou o tempero.
Quem assistiu ao live-action de A Pequena Sereia e à série Bridgerton pôde perceber os ecos das personalidades, posturas e comportamentos de Ariel (Halle Bailey) e do duque de Hastings (Regé-Jean Page), resultando em um casal principal sem sal.
Além disso, o uso de inteligência artificial em paisagens, transições e até menções de outros personagens se mostrou excessivo, gerando uma sensação de superficialidade difícil de ignorar.
Ainda assim, reduzir Eu e Você na Toscana aos seus problemas técnicos e estéticos seria ignorar os sabores interessantes e dinâmicos que o longa traz, como igualar alguns de seus contextos com a narrativa de outras comédias românticas.
O filme tem ecos de A Proposta, estrelado por Ryan Reynolds e Sandra Bullock, já que Ana fingiu ser companheira de Matteo (Lorenzo de Moor) por motivos próprios.
Tem também um sabor de Encontro de Amor, em que Jennifer Lopez, que interpretava uma doméstica, acabou fingindo ser sua patroa durante uma brincadeira com as colegas de trabalho, semelhante à vida que a personagem de Halle Bailey aparentava ser, mas que, na verdade, era apenas uma descontração entre ela e os pertences de sua chefe.
Mas é na gastronomia que o filme encontra sua verdadeira identidade, e o primeiro encontro entre Ana e Michael é a maior prova disso. Antes mesmo de existir qualquer tensão romântica, é a culinária italiana que os coloca frente a frente e, em meio à disputa por um simples sanduíche local, considerado por Ana como uma das obras-primas da cozinha, nasce uma troca de provocações que estabelece toda a dinâmica do casal.
A utilização desse elemento vai além disso, já que, ao longo da narrativa, massas artesanais, vinhos, receitas de família e refeições compartilhadas se tornam pontes entre todos os personagens.
Como um vinho em processo de maturação, Eu e Você na Toscana coloca à prova o dinamismo entre o amor de Ana em cozinhar e a história de vida de Michael nos vinhedos da Itália.
Ao final, as expectativas de que grandes atores desenvolveriam um sucesso semelhante às Rom-Com’s dos anos 2000 não foram atendidas, mas com certeza o filme traz a leveza que uma tarde com vinho e um bom sanduíche italiano merece.
*Sob supervisão de Lello Lopes
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