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‘Backrooms: Um Não-Lugar’ abraça o desconforto e transforma o vazio em terror psicológico

Novo filme da A24 aposta em youtuber de 20 anos na direção

Cine R7|Giovane Felix

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Renate Reinsve e Chiwetel Ejiofor protagonizam filme de horror claustrofóbico Divulgação/Imagem Filmes

Desde criança, eu nunca consegui dormir com as portas entreabertas ou completamente escancaradas. Havia algo na ideia de passagem, de entrada, que me causava um incômodo difícil de explicar. Mesmo sabendo que não existia ameaça alguma, bastava a luz atravessando uma fresta, o vislumbre de um cômodo ao lado ou o som escapando pelo corredor para que a paz do quarto desaparecesse.

Agora imagine esse mesmo sentimento potencializado cem vezes: sem portas, sem limites claros, apenas corredores infinitos, cômodos que sempre levam a outros e saídas que simplesmente não existem. Foi exatamente isso que Backrooms: Um Não-Lugar (2026) fez. O longa transformou um medo irracional em uma possibilidade assustadoramente palpável.


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O filme, que estreou nesta quinta (28) nos cinemas, tem direção de Kane Parsons e com as estrelas Chiwetel Ejiofor (12 Anos de Escravidão) e Renate Reinsve (Valor Sentimental) como protagonistas do terror.

A origem das backrooms

Para aqueles que nunca ouviram falar em ‘backrooms’, a mitologia por trás desse universo surgiu em 2019, quando uma foto de um escritório vazio foi publicada em um fórum de discussão on-line.


As paredes em tons claros de amarelo, combinando com a luz fluorescente e o carpete no chão da sala, que parecia ser dividida em vários cômodos, transmitiam um certo estranhamento e até mesmo uma sensação de claustrofobia.

A imagem viralizou em comunidades da internet, acumulando milhares de acessos em poucos dias. Assim, não demorou muito para que usuários começassem a criar teorias e elaborar histórias sobre esse cenário curioso e perturbador, imaginando o que existiria além daqueles corredores.


Imagem divulgada em fórum on-line deu origem a universo de terror Reprodução

Com o tempo, o universo das backrooms se expandiu coletivamente. A sala vazia se transformou em um verdadeiro labirinto, com diferentes níveis, regras e atmosferas totalmente distintas. Logo, também surgiram relatos de criaturas que habitariam esse “não-lugar”. E pronto: nascia uma nova lenda urbana digital.

Do YouTube para os cinemas

Mas não parou por aí. Em 2022, Kane Parsons, um jovem de apenas 16 anos, publicou um vídeo no seu canal do YouTube intitulado The Backrooms (Found Footage). Se tratava de um conteúdo que simulava uma gravação found footage, inspirada em filmagens amadoras dos anos 1990, estilo câmera na mão, com estética granulada e um visual à la Bruxa de Blair.


O vídeo, com um pouco mais de nove minutos de duração, mostra um jovem que cai em um espaço desconhecido, com corredores intermináveis e salas vazias. Enquanto vasculha o local em busca de uma saída, ele percebe que não está sozinho.

Rapidamente, o curta repercutiu na plataforma. Até o momento, a publicação registra mais de 78 milhões de visualizações.

Com o sucesso, Kane Parsons investiu em uma série de vídeos com a mesma estética e seu nome foi parar no estúdio A24, conhecido por seus filmes cult e “diferentões”. A produtora decidiu apostar em uma adaptação da lenda das backrooms para as telonas, com direção do próprio Kane, que se tornou o diretor mais jovem do estúdio, aos 20 anos.

Novo filme de terror da A24 é inspirado em lenda urbana digital Divulgação/Imagem Filmes

Backrooms: Um Não-Lugar

Backrooms: Um Não-Lugar atravessa a rotina de Clark (Chiwetel Ejiofor), um vendedor de móveis de meia-idade que se vê frustrado após um divórcio recente e cada vez mais descontente com a própria trajetória profissional. Para lidar com essas dores, ele conta com a ajuda da sua terapeuta, a Dra. Mary Kline (Renate Reinsve).

A vida de Clark, no entanto, muda quando ele descobre uma espécie de labirinto no porão de sua loja, com salas e mais salas que parecem dar em lugar algum.

Os principais trunfos do filme são a originalidade e a construção da atmosfera de tensão e estranhamento. O diretor explora muito bem a imprevisibilidade da narrativa.

A cada sala, corredor, porta ou passagem que o personagem atravessa, cresce uma sensação constante de curiosidade e agonia. Há tempos que eu não sentia um desconforto tão genuíno na sala de cinema.

Tudo isso em um contexto diferente do terror convencional. Aqui, o incômodo surge em planos abertos, cenários visualmente claros e que deixam a visão periférica do espectador em alerta.

As backrooms por si só já são suficientemente perturbadoras. Parsons, porém, eleva o nível (literalmente). A pouca idade do diretor não o impede de pensar fora da caixa. Pelo contrário, ele é criativo na direção ao explorar ângulos e enquadramentos incomuns, sempre com a intenção de aumentar a bizarrice daquele lugar.

Kane Parsons transforma corredores vazios em alguns dos cenários mais angustiantes do terror recente Divulgação/Imagem Filmes

Ele também resgata a estética found footage do seu curta original, que funciona muito bem aqui. A imagem borrada, combinada com os movimentos bruscos da câmera, deixa o espectador vulnerável, sem poder prever o que vem a seguir e entregue à própria narrativa.

Ou seja, em um primeiro momento, Parsons permite que o espectador “veja demais” para, logo depois, distorcer essa percepção e provocar desorientação. Esse contraste funciona como uma síntese perfeita dessa realidade: espaços amplos e aparentemente visíveis, mas, ao mesmo tempo, confusos e impossíveis de compreender.

A dupla de protagonistas entrega boas performances, como esperado. Ainda assim, é interessante ver dois atores consolidados em grandes produções dramáticas entregues a um gênero frequentemente subestimado. Ambos compreendem a proposta do longa e abraçam essa dinâmica de atuação com comprometimento e total sintonia com a atmosfera da obra.

Como plano de fundo, o filme aborda traumas e a sensação de “vazio” emocional, traçando um paralelo interessante com as backrooms. Novamente, Parsons se mostra criativo e autêntico. No entanto, é no momento em que essas questões se tornam o centro da narrativa que o longa perde força.

O diretor perde a mão quando tenta racionalizar a experiência. Como consequência, o último ato acaba se tornando o mais fraco.

Mesmo assim, Backrooms: Um Não Lugar é um filme com personalidade. Incômodo, intimidador, mas também divertido. Com fotografia e trilha no ponto certo, além de um pouco do surrealismo de David Lynch. Vale a pipoca do cinema.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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