‘Natal Amargo’: Almodóvar reflete sobre criação artística em filme pouco memorável
Longa que estreia nesta quinta (28) aposta na metalinguagem e acompanha personagens em crise criativa que espelham o universo do diretor
Cine R7|Maria Cunha

Pedro Almodóvar retorna aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (28) com Natal Amargo, longa que passou pelo Festival de Cannes e foi recebido com aplausos de nove minutos após sua exibição.
Na trama, Elsa (Bárbara Lennie) tenta lidar com o luto pela morte da mãe enquanto enfrenta crises de ansiedade e ataques de pânico. Já Raúl (Leonardo Sbaraglia), um cineasta em crise criativa, busca inspiração para um novo roteiro a partir das histórias e das pessoas ao seu redor.
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É justamente a partir dessa relação entre arte e vida que Natal Amargo encontra seus momentos mais interessantes. Almodóvar transforma o cinema em um espelho de si mesmo ao construir uma narrativa em camadas, em que realidade e ficção se confundem o tempo todo.
O resultado é um filme dentro do filme, constantemente atravessado por personagens, memórias e experiências que parecem refletir o próprio diretor.
E há algo de muito característico do cineasta em cena: personagens atravessados por crises emocionais, cores vibrantes e uma narrativa que tenta equilibrar drama e pequenas pitadas de humor. A estética, aliás, continua sendo um dos grandes trunfos do diretor: tudo é visualmente bonito e cuidadosamente pensado.
O filme também mergulha em temas como saúde mental e luto ao acompanhar Elsa em uma rotina de instabilidade emocional. E isso chega no espectador. Em alguns momentos, a agonia dela é quase nossa também.
Já Mónica, vivida por Aitana Sánchez-Gijón, é outro ponto alto. A atriz consegue dar camadas a uma personagem que poderia cair no óbvio e que acaba sendo fundamental para uma das reflexões mais provocativas do longa: até que ponto um artista pode transformar a vida alheia em matéria-prima para sua obra?
É um debate potente, que atravessa o longa inteiro e reforça essa sensação de que Almodóvar está, de novo, virando a câmera para dentro.
Por outro lado, apesar de todos esses elementos, Natal Amargo nem sempre sustenta o próprio peso. Em alguns momentos, certas escolhas de ritmo cansam e até cenas pensadas para serem catárticas — como a presença da canção de Chavela Vargas — acabam perdendo força pela maneira como são inseridas na história.
Ainda assim, o longa é sensível e emocionalmente intenso. Falta, porém, um impacto final, um algo a mais que transforme toda essa complexidade em algo realmente marcante dentro da filmografia do diretor.
No fim das contas, Natal Amargo não é tão amargo assim — mas também não é doce o suficiente para deixar uma marca mais duradoura depois que termina. É mais um exercício interessante de Almodóvar sobre si mesmo, suas obsessões e as fronteiras entre vida e ficção.
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