‘Dia D’ convida o público a refletir sobre a humanidade, mas abduz o tema a favor dos alienígenas
Spielberg volta a falar de extraterrestres em filme com estreia no Brasil nesta quinta-feira (11)
Cine R7|Julia Pujar

Entre ETs de Varginha e supostas aparições alienígenas no Paraná, é seguro dizer que a humanidade nutre uma obsessão pela vida extraterrestre, e mais ainda afirmar que Steven Spielberg é um grande porta-voz desse fascínio.
O diretor já explorou as mudanças que o contato com o inexplicável causa em Contatos Imediatos do Terceiro Grau, a amizade improvável que pode surgir do encontro em E.T. — O Extraterrestre e, agora, busca retratar as nuances da humanidade com o assunto em Dia D, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (11).
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O tema, porém, parece ter sido abduzido pelas ousadas e nem sempre funcionais invencionices alienígenas.
Na trama, a humanidade precisa lidar com uma revelação surpreendente: alienígenas existem e estão em contato com a Terra há mais de 100 anos.
De um lado, estão aqueles que acobertam esse segredo; do outro, aqueles que acreditam que o mundo merece saber a verdade, uma disputa que se intensifica quando a meteorologista Margaret Fairchild (Emily Blunt) aparece reproduzindo sons estranhos em uma transmissão ao vivo.
Dia D é um filme ousado de diferentes maneiras. A melhor delas, e onde encontra o seu maior triunfo, é na temática central da história e nas discussões que provoca em torno dela. Spielberg convida o público a refletir junto aos personagens com uma simples pergunta: qual seria a sua reação ao ter a existência de ETs comprovada?
Não existe uma resposta certa, mas existe um grande material para a reflexão. O filme investe nas nuances da humanidade com aquilo que ela não é capaz de entender, indo de discussões sociais até as filosóficas e, principalmente, religiosas.
Apesar de ter “mocinhos e bandidos” claramente estabelecidos, a aposta na reflexão não tem medo de fazer o público titubear entre os lados pelos pontos apresentados.
Porém, uma discussão tão rica e interessante perde espaço para a maior ousadia do filme, e, justamente, aquela que não rende tantos frutos: os absurdos alienígenas. Em um projeto que retrata a vida extraterrestre, é esperado que existam tecnologias inexplicáveis e poderes inimagináveis, mas em Dia D os dois elementos parecem ser meros artifícios superficiais do roteiro.
O filme não se preocupa em se explicar muito. O público é jogado em meio a uma guerra silenciosa e precisa entender os lados e objetivos já no meio da ação, algo ótimo e que não prejudica a compreensão, porém também serve de desculpa para que tecnologias mudem suas funções de última hora, personagens ganhem poderes de uma cena para outra - e que nunca mais voltam a usar -, certas características só sejam importantes quando convém… Ou seja, saídas fáceis e superficiais para momentos de encruzilhada narrativa.
Narrativa essa que, além de ser fragilizada por esses aspectos, ainda se autossabota ao tornar personagens que desenvolveu tão bem em grandes idiotas quando convém em prol de cenas de perseguição que, embora muito bem coreografadas e que prendam o público, chegam a se tornar repetitivas e sem uma grande razão.
Assim, personagens como os de Colman Domingo e Colin Firth sofrem com a unidimensionalidade que recebem para desenvolver - com exceção de uma excelente cena de debate que ganha brilho justamente por focar no ponto central da trama.
Josh O’Connor, apesar de dividir o protagonismo, também começa a ser gradativamente apagado, porém, ao menos, a favor da excelente atuação repleta de nuances e emoções do grande papel de Emily Blunt, que rouba merecidamente toda a atenção.
Com uma sequência final impressionante e repleta de símbolos e significados (mesmo que com alguns elementos que exigem uma grande suspensão da descrença), Dia D pode até fazer o público sair agradado do cinema por ver mais um espetáculo visual de Spielberg, porém a mensagem tão potente proposta aqui pelo diretor não é capaz de ficar tanto tempo na mente de quem assiste, graças à viagem alienígena ousada demais.
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