A fama mudou e ficou pior: quem assume o lugar após o fim da era das divas?
Após as mortes de Laura Cardoso e Glória Menezes, fiquei pensando: quando essa geração for embora de vez, quem é que fica no lugar?
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Laura Cardoso morreu numa segunda. No dia seguinte, terça, foi a vez de Glória Menezes. Duas mulheres que atravessaram mais de sessenta anos de televisão, cinema e teatro, que começaram quando novela era ao vivo e câmera travava no meio da cena. E eu não consegui só lamentar e seguir o feed, sabe?
Fiquei pensando: quando essa geração for embora de vez, quem é que fica no lugar?
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Porque tem um incômodo aí que ninguém fala. A gente sabe de cor quem são as divas. Fernanda Montenegro, Nathalia Timberg; até pouco tempo, Glória e Laura também. Agora tenta fazer essa mesma lista pensando em alguém de 30 anos hoje. Trava.
Não é falta de talento, gente.
E olha, não é isso. Tem ator novo excelente trabalhando por aí, muito bom mesmo. O problema não é talento, é que o caminho que existia para construir esse tipo de carreira praticamente sumiu.
Glória começou no rádio, foi para a TV Tupi em 1959, virou rosto fixo da Globo décadas depois e trabalhou quase até os 90 anos sem parar. Laura estreou em 1952 e emendou 63 novelas na carreira.
Isso não é currículo bonito, é um formato de carreira que não existe mais para quem está começando agora. A grade de novela encolheu, horário nobre não é mais o centro de tudo, e ninguém tem mais 40 anos de televisão diária pela frente para virar mito desse jeito.
A gente tinha uma Hollywood brasileira, e ela era a Globo.
Teve uma época em que a Globo funcionava quase como estúdio de Hollywood, com contrato de exclusividade, imprensa cobrindo cada bastidor, revista inteira só de fofoca dedicada a saber o que a diva da novela das oito ia fazer no próximo capítulo. Era assim que notícia de celebridade funcionava: Glória Menezes gravando cena nova, Glória reencontrando Tarcísio nos bastidores, Glória estreando figurino.
Hoje a gente quer saber é se a Virginia pegou o jato dela pra ir malhar. E não, isso não é crítica, longe disso. É só reparar que mudou o eixo inteiro.
A fama não sumiu, ela foi pro Instagram, pro TikTok, pro reality. O que sumiu foi aquele tipo de fama que se constrói ao longo de décadas, atuando, repetindo o ofício até virar história.
O que ficou no lugar foi fama de ciclo curto. Hoje é assunto, daqui a três meses ninguém lembra mais.
Reality virou a nova fábrica de rosto famoso.
Repara no que domina capa de revista e trending topic agora: ex-participante de reality, influenciador, criador de conteúdo. Gente que às vezes nunca pisou num set de novela, mas que tem mais alcance que qualquer ator de elenco de apoio da Globo hoje.
Não tem nada de errado nisso, cada época inventa o jeito dela de fabricar celebridade. O ponto é que são lógicas bem diferentes de carreira.
Uma atriz como a Laura constrói acervo, personagem atrás de personagem, década atrás de década. Um influenciador constrói audiência, views, story, algoritmo, agora. São coisas diferentes. Uma não substitui a outra, mesmo que a gente insista em comparar.
Fica a pergunta: vai ter diva de novo? Talvez. Mas provavelmente não vai parecer nada com Glória Menezes nem com Laura Cardoso, porque o caminho que formou as duas simplesmente não existe mais desse jeito.
Quem sabe a diva do futuro já esteja em outro formato, streaming, plataforma, alguma coisa que ainda nem tem nome direito.
O que dá pra dizer com segurança: a gente perdeu duas mulheres que carregaram sozinhas décadas de história da televisão brasileira, em menos de 48 horas.
E o buraco que ficou não é só saudade. É a pergunta se a gente ainda sabe construir esse tipo de carreira, como indústria e como público. Porque, sem isso, a próxima diva pode nem chegar a existir.
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