Benedito Ruy Barbosa escreveu um Brasil que a televisão insistia em não mostrar
Autor morreu na manhã desta terça-feira (6), aos 95 anos

Recebi a notícia e fiquei uns minutos parada. Não porque foi surpresa — ele já vinha de internações, o quadro renal já preocupava há tempos — mas porque tem morte que fecha uma época inteira. E essa é uma delas.
Benedito Ruy Barbosa morreu nesta terça-feira, 7 de julho, aos 95 anos, em São Paulo, onde estava internado por complicações de uma insuficiência renal crônica que o acompanhava havia três anos. Fim de uma trajetória que começou no interior paulista, em 1931, e que atravessou praticamente toda a história da telenovela brasileira.
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E aqui vai a parte que eu acho que pouca gente para pra pensar direito: Benedito não escreveu novela. Ele escreveu um Brasil que a televisão insistia em não mostrar. O Brasil que não cabia nos estúdios do Rio
Pensa comigo. A novela brasileira, desde sempre, teve uma queda enorme pelo eixo Rio-São Paulo. Apartamento, escritório, a sociedade falida, o novo rico, praia, festa chique.
É o cenário mais fácil de produzir e, convenhamos, o que o telespectador urbano reconhece de cara. Difícil aparecer fazenda, roça, sertão, sotaque de interior — e ainda mais difícil fazer isso virar sucesso de audiência.
Benedito fez isso o tempo inteiro. Ele pegou lenda de caboclo, disputa de terra, gente que trabalha na roça pra sobreviver, mulher que enfrenta seca e coronel, e transformou isso em folhetim nacional.
Cabocla, O Rei do Gado, Terra Nostra, Renascer, Velho Chico, Pantanal. Repara que nenhuma dessas histórias é sobre gente rica que mora perto da praia. É gente que planta, que cria gado, que briga por herança de terra, que carrega superstição de geração em geração.
Isso não é detalhe de currículo. Isso é ousadia de carreira inteira.
E olha que golpe de mestre. Em 1990, quem apostou em Pantanal não foi a Globo. Foi a finada TV Manchete, emissora que vivia na sombra da concorrente e que topou o risco justamente porque Benedito só aceitou voltar pra dramaturgia se pudesse fazer aquela história.
Deu no que deu: a novela chegou a bater 41 pontos no capítulo final, contra 21 da Globo no mesmo horário. Praticamente o dobro. Isso numa época em que a Globo quase nunca perdia audiência pra ninguém.
Juma Marruá, a lenda da mulher que vira onça, o dilema de José Leôncio, o Pantanal como paisagem e como personagem — virou o maior fenômeno da história da Manchete.
E o mais engraçado é que décadas depois foi a própria Globo que teve que correr atrás do prejuízo e fazer o remake, em 2022, assinado pelo neto dele, Bruno Luperi. Ou seja: a emissora que perdeu pra Pantanal na época acabou tendo que trazer Pantanal de volta pra casa décadas depois, porque a história continuava forte demais pra ficar de fora.
Isso é legado. É a prova de que ele não fez sucesso por sorte, fez sucesso porque entendia o que emocionava o brasileiro, esteja ele em qualquer canal.
Lendas
Outra coisa que era muito dele: trabalhar com o imaginário popular sem medo de parecer “regional demais” pra televisão nacional. A lenda da mulher-onça em Pantanal não é invenção de roteiro pra dar clima místico — é folclore pantaneiro de verdade, que ele resgatou e trouxe pra dentro da trama principal, sem transformar em coadjuvante de luxo.
Ele fazia isso com naturalidade. Colocava a crença popular lado a lado com o drama de família, com a disputa de terra, com o romance impossível, e o público comprava tudo junto.
Não tinha separação entre “isso é regionalismo, isso é novela de verdade”. Pra ele era tudo a mesma coisa, porque era isso que o Brasil rural vivia.
Uma carreira que não teve pausa
Assinou contrato com a Globo em 1976 pra escrever O Feijão e o Sonho, ainda no horário das seis.
Foi casado 56 anos com a atriz Marilene Leonor Barbosa, que morreu em 2014. Deixa quatro filhos — Edmara e Edilene, também autoras de sucesso, Ruy e Marcelo — e dez netos, entre eles Bruno Luperi, que segue o ofício do avô na TV.
Fica difícil resumir 95 anos de vida e mais de cinco décadas de teledramaturgia num texto só. Mas fica uma certeza: enquanto a maioria da televisão olhava pra cidade grande, ele foi na contramão e insistiu no homem do campo, na lenda de boca a boca, no sotaque de interior.
E ganhou. Ganhou audiência, ganhou prêmio, ganhou décadas de reprise na memória de quem assistiu.
Descanse em paz, Benedito. Fica a saudade e ficam as histórias de um Brasil que não se via na TV até você chegar.
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