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Da mesa humilde ao mundo: os sabores que Céline Dion nunca esqueceu

História da diva pop mostra como a comida guardou, o tempo todo, a memória de onde ela veio

Sabores da História|Esther RochaOpens in new window

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Celine Dion superou perdas pessoais e uma doença rara para retornar aos palcos, mostrando resiliência e disciplina através de terapia física e vocal.
  • A comida sempre fez parte da vida de Celine, desde sua infância humilde em Charlemagne, onde o pai era açougueiro, até a alta gastronomia que conheceu mais tarde.
  • O casamento com René Angélil expandiu seu paladar, introduzindo-a à culinária libanesa, que se tornou parte de suas tradições culinárias pessoais.
  • Apesar do sucesso, Celine mantém uma relação simples com a comida, expressa em suas preferências por pratos como mortadela frita e manteiga de amendoim, e enfrenta desafios alimentares devido a uma condição neurológica rara.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Do sanduíche de pasta de amendoim, a mortadela frita da infância, os sabores de Celine DIon Reprodução Youtube / Fotomontagem

Passei a semana emocionada com Céline Dion e sua volta aos palcos. Ela ilustra com perfeição o significado de resiliência. Depois de perder o marido e um irmão no mesmo ano, e de ver sua voz, seu tesouro mais precioso, ameaçada por uma doença rara que a fez sentir como se estivesse sendo estrangulada.

Porém, ela conseguiu transformar a dor em disciplina. Cinco dias por semana de terapia física, atlética e vocal, dos dedos dos pés às cordas vocais, e ela conseguiu e voltou ao palco em Paris, seis anos depois. Céline chorou e nos emocionou.


Uma coisa leva a outra e pesquisando em artigos antigos, reencontrei um detalhe que costuma passar despercebido em meio aos recordes de vendas e aos incontáveis sucessos que a consagraram: o pai de Céline Dion era açougueiro.

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Adhémar Dion cortava carne para sustentar catorze filhos em Charlemagne, uma cidadezinha modesta do Quebec. A comida, na casa dos Dion, não era luxo nem lazer. Era o ofício do pai, a origem do sustento, a medida exata da pobreza que a família enfrentava com orgulho declarado de sempre terem sido felizes apesar dela.


Caçula da família, Céline nasceu em 1968. A menina dormia numa gaveta de cômoda quando bebê, já que não havia berço na casa. Com cinco anos, ela cantou publicamente pela primeira vez dentro do piano-bar de propriedade de seus pais, o Vieux Baril (O velho barril). O estabelecimento incendiou-se anos depois, levando junto o sustento da família e o primeiro palco de Céline.

Antes de qualquer contrato com René Angélil, que mais tarde seria seu marido pra toda vida, o primeiro capítulo da vida da maior voz do Quebec misturava, de forma inseparável, comida, música e sobrevivência.


celine dion

Celine Dion à mesa Celine Dion à mesa

O prato que ela nunca esqueceu

Décadas mais tarde, já multimilionária, Céline Dion revelou, numa conversa informal dentro de um jato particular, qual era o prato que mais a marcara na infância: mortadela frita na manteiga, servida com batata, nabo e cenoura fatiados. Ela falou do prato com orgulho declarado, e justificou explicando que era barato, saboroso e nutritivo, exatamente o que uma casa de catorze filhos precisava.


A mãe, Thérèse Tanguay Dion, também deixou sua marca na cozinha pública. Depois que a filha se tornou estrela internacional, ela lançou uma linha de conservas próprias e apresentou, entre 1999 e 2001, um programa de culinária na TV quebequense chamado justamente “Maman Dion”.

Esfihas, hummus e pequenas tortas de carne

Se a infância deu a Céline o gosto pela comida simples e farta, foi o casamento com René Angélil que ampliou seu paladar. René era filho de pai sírio e mãe de origem libanesa, criado numa família da Igreja Melquita, onde árabe, francês e inglês se misturavam à mesa. Em 2000, o casal renovou os votos numa cerimônia bizantina melquita, celebrando essa herança.

Na bagagem da união com René veio a paixão por hummus, babaganoush e comida libanesa em geral. O casamento redesenhou o mapa gastronômico da cantora. Ela também aprendeu a preparar esfihas, pequenas tortas de carne de tradição sírio-libanesa, que hoje é o prato que mais costuma servir quando recebe amigos em casa.

Não é uma cozinheira do dia a dia, mas guarda essa receita como símbolo de identidade e de memória do marido.

De Pigalle a Las Vegas

Um dos retratos mais reveladores de como Céline se relaciona com a comida está justamente no contraste entre dois endereços, separados por décadas e por um oceano.

No fim dos anos 1980, ainda no início de sua carreira internacional, ela era cliente assídua do Chez Roger, um bistrô de Pigalle, em Paris, famoso por seu couscous. Sempre pedia o mesmo prato. A proprietária do restaurante guarda até hoje a lembrança da jovem cantora quebequense, ainda desconhecida, sentada à mesa de um bistrô de bairro.

Décadas depois, já consagrada em sua residência nos palcos de Las Vegas, Céline se tornaria uma das clientes favoritas de ninguém menos que Joël Robuchon, eleito “chef do século” pelo guia francês Gault Millau. O restaurante dele no MGM Grand, tem três estrelas Michelin, é ambientado como um apartamento parisiense art déco escondido dentro de um cassino.

Do couscous despretensioso de Pigalle à alta gastronomia francesa em Vegas, a mesa de Céline Dion retrata a trajetória de sua carreira: raízes simples que amadureceram sem nunca abandonar o afeto original.

A diva que ama manteiga de amendoim

E é justamente por isso que talvez a resposta mais sincera que Céline já deu sobre comida tenha sido, também, a mais inesperada. Perguntada pela apresentadora Gayle King, da CBS, qual era sua comida favorita, ela hesitou por um instante e depois confessou, cantando o antigo jingle “Peanut Butter Jelly Time”: ela ama manteiga de amendoim.

Não citou tourtière, nem tarte au sucre, nem poutine, os clássicos que se esperariam de uma quebequense. Citou o pote de pasta de amendoim que qualquer pessoa comum também guarda no armário da cozinha.

Essa simplicidade aparece em outros hábitos: seu café da manhã fixo, revelado à revista The Hollywood Reporter, é apenas um espresso e um croissant. Ela já foi flagrada comprando cachorro-quente de vendedor de rua em Nova York, ainda vestida de gala, durante o Met Gala. E seu contrato de turnê pedia, entre outras coisas, batatinhas fritas no camarim, com a ressalva expressa de que não fossem da marca Ruffles.

Sócia de um ícone judaico em Montreal

A relação de Céline com a comida também se materializou em negócios reais. Em 1990, ela fundou, ao lado de quatro sócios, a rede Nickels, uma cadeia de lanchonetes de estilo retrô que se tornou a maior rede de sanduíche de carne defumada do Quebec.

Duas décadas depois, em 2012, ela e René entraram como sócios de um consórcio que comprou o Schwartz’s, a mais tradicional delicatessen judaica de Montreal, fundada em 1928 e imortalizada na literatura de Mordecai Richler.

Há algo genuinamente comovente nessa história: uma cantora católica quebequense se tornando guardiã de uma instituição centenária da cultura judaica de sua cidade natal, tratada com carinho pelos frequentadores mais antigos do lugar. A comida, mais uma vez, funcionando como ponte entre mundos que, à primeira vista, pareceriam distantes.

Quando comer deixou de ser simples

celine dion

Celine Dion retornou aos palcos em setembro de 2026, em Paris. Fire

Nem tudo, porém, foi prazer à mesa. Ao longo de décadas, rumores sobre um possível transtorno alimentar perseguiram Céline, alimentados por sua magreza extrema. Ela sempre negou com firmeza, atribuindo o corpo magro à genética da família inteira e ao próprio temperamento inquieto. “Incomoda as pessoas que eu seja magra sem fazer esforço”, chegou a declarar ao jornal The Guardian, cansada de repetir a mesma explicação.

O desafio

Mas em 2022 a relação de Céline com a comida ganhou um capítulo bem mais sério e humano. Ela revelou publicamente sofrer da síndrome da pessoa rígida, uma doença neurológica autoimune raríssima que afeta cerca de uma em cada um milhão de pessoas.

Especialistas explicam que a condição pode causar distúrbios reais na capacidade de engolir, com risco inclusive de complicações respiratórias. O documentário I Am: Celine Dion, lançado em 2024, mostra sem filtros o quanto seu corpo passou a lutar contra si mesmo, inclusive em funções tão básicas quanto se alimentar.

É um contraste que talvez resuma, melhor do que qualquer outro detalhe desta história, o significado da comida na vida de Céline Dion. Da fartura simbólica de uma casa com catorze filhos, ao ato de comer se tornando, décadas depois, um desafio físico real.

A mesma boca que um dia cantou para o mundo inteiro e que hoje, silenciosamente, também luta para simplesmente engolir. Entre o prato de mortadela frita da infância e essa batalha atual, está a história inteira de uma mulher que sempre entendeu, mesmo sem dizer em tantas palavras, que comer nunca foi apenas sobreviver.

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