Logo R7.com
RecordPlus

Édith Piaf e a comida: a fome, o boeuf ficelle e o luxo que quase a matou

A vida à mesa de uma das maiores vozes da França

Sabores da História|Esther RochaOpens in new window

  • Google News

Adicione como fonte preferencial no Google

Opens in new window

Esta semana, por conta da estreia do musical “Piaf – Eu Não Me Arrependo”, em São Paulo, Édith Piaf não saiu mais da minha cabeça. Meu Spotify rodou e segue rodando a deliciosa voz da cantora. As plataformas de streaming e meu Youtube aceitaram, com generosidade, me entregar curtas, longas, cortes... Piaf no atacado.

Porém a minha insistente curiosidade gastronômica ficou me instigando. E ai, o que Piaf gostava de comer. Qual seu estilo à mesa? E lá foi eu, revirar livros, um ou potro recorte ou flyer garimpado em viagem, pesquisa, pesquisa, pesquisa. E aqui está ela, Piaf à mesa!


Muito distante das mesas fartas de Paris

Há quem defina Édith Piaf apenas pela voz. Aquele timbre rachado, dramático, capaz de encher uma sala sem microfone. Mas antes de ser “a voz de Paris”, Édith Piaf foi uma criança que passou fome. E é justamente esse contraste entre a menina que cantava nas ruas de Belleville para sobreviver e a estrela que décadas depois seria vista jantando nos restaurantes mais badalados da Champs-Élysées, que torna a relação dela com a comida uma história e tanto.


Uma infância com sabor amargo


Édith Piaf cantava na rua quando criança ILustr

Édith Giovanna Gassion nasceu em 1915, em Belleville, bairro pobre e imigrante na periferia de Paris. Filha de uma cantora de cabaré e de um acrobata de rua, foi abandonada pelos pais ainda criança e criada, aos trancos e barrancos, pela avó materna, que mal cuidava dela, e depois pela avó paterna, que administrava um bordel na Normandia. Comer bem, regularmente, à mesa, não fazia parte do repertório da infância de Piaf. Cantar nas ruas era, literalmente, uma forma de conseguir o próximo prato de comida.


Esse pano de fundo importa porque explica muito do que veio depois: o gosto por pratos simples e populares mesmo no auge da fama, e uma relação quase instintiva, de sobrevivência, com a comida.

O prato favorito, na voz da própria Piaf

Numa entrevista, quando perguntaram a Piaf qual era o seu prato preferido, ela não hesitou: “boeuf ficelle”. Nada de alta gastronomia , trata-se de um prato clássico e humilde da culinária parisiense, carne cozida lentamente em caldo, amarrada com um barbante (daí o nome “ficelle”, literalmente “barbante” em francês) para manter a forma durante o cozimento. É simbólico que a maior cantora da França tivesse como prato do coração algo tão popular, tão de bistrô de bairro — um fio direto com as origens em Belleville.

Um ritual estranho antes de subir ao palco

Um dos hábitos mais curiosos, e um tanto perturbadores, atribuídos a Piaf: ela comia carne crua antes das apresentações, como forma de ganhar energia rápida e força para a voz. Num tempo sem os conhecimentos de nutrição esportiva de hoje, era o jeito de Piaf de se preparar para dar tudo de si em cena, uma espécie de superstição alimentar somada a outras manias suas, como evitar a cor azul no palco, por acreditar que dava azar.

Édith Piaf e a comida: a fome, o boeuf ficelle e o luxo que quase a matou Édith Piaf à mesa

A comida como parte do processo criativo

A biógrafa Carolyn Burke, autora de “No Regrets: The Life of Edith Piaf”(2011), descreve um retrato interessante do processo criativo de Piaf: ela passava horas sentada ao piano trabalhando nas músicas ao lado da compositora Marguerite Monnot, parando apenas para comer bife coberto de alho e beber xarope de menta. Não era uma pausa de lazer, era combustível para sustentar sessões de trabalho exaustivas, em que Piaf revisava cada palavra e cada nota até a canção “soar como ela”.

Café, chá, champanhe e uma contradição interessante

Aqui a história fica mais complicada, o que é ótimo material para quem gosta de mergulhar fundo: a versão mais difundida é a de que Piaf desenvolveu forte dependência de álcool e morfina, principalmente depois de acidentes de carro e das dores causadas por reumatismo, ela chegou a precisar de várias cirurgias no fígado por causa disso. Também é dito que era fascinada por champanhe e gostava bastante de frutas vermelhas.

Só que existe um relato de alguém muito próximo dela nos últimos anos de vida, que conviveu diariamente com Piaf, afirmando nunca tê-la visto de fato bebendo álcool, mas sim consumindo muito café e chá. Essa divergência entre fontes mostra como, com celebridades tão mitificadas quanto Piaf, é preciso sempre cruzar biografias diferentes, porque cada uma reflete o ponto de vista de quem escreveu, algo que o pesquisador David Looseley discute a fundo em seu estudo sobre a construção do mito de Piaf.

Comer bem em tempos de guerra

Durante a ocupação nazista de Paris (1940-1944), o racionamento de comida, tabaco, carvão e roupas foi imposto à população desde setembro de 1940, e a cada ano os suprimentos ficavam mais escassos e os preços mais altos para o parisiense comum. Ainda assim, bares e restaurantes seguiam cheios para quem tinha acesso a eles. A vida noturna e cultural de Paris praticamente não parou durante a ocupação, sustentada em parte pelo mercado negro.

Piaf, que já era uma estrela em ascensão nesse período, circulava justamente nesse universo paralelo de fartura relativa, enquanto a maioria dos parisienses enfrentava fome real. Um contraste e tanto: fama e sobrevivência andando lado a lado mesmo nos piores momentos da história francesa.

10 curiosidades sobre Sigmund Freud e a comida em sua vida

O paradoxo do fim da vida: o prazer que virou ameaça

Nos últimos meses de vida, já fragilizada por anos de excessos, acidentes e vícios, Piaf desenvolveu um gosto crescente por comida gourmet, o que era perigoso, já que o seu fígado estava seriamente comprometido. Piaf queria morrer cantando em um palco. Acabou morrendo em outubro de 1963, de um aneurisma, durante um período de descanso na Riviera Francesa, aos 47 anos. Há algo de trágico nesse detalhe: a comida boa, que na infância tinha sido escassez e desejo, virou no fim da vida um prazer que ela não podia mais se dar ao luxo de ter.

Pratos que carregam sua memória

Alguns restaurantes parisienses são incansáveis em recriar pratos ligados à época e ao seu gosto de Piaf: ovo mimosa, boeuf ficelle bem macio e arroz doce (riz au lait) aparecem como os “pratos preferidos da Môme Piaf” em cardápios temáticos. Uma boa forma de fechar este texto é sugerir que você mesmo experimente reproduzir o boeuf ficelle em casa, é literalmente possível provar um pedacinho de um sabor que encantava Piaf.

Vou preparar no final de semana e depois conto pra vocês como ficou.

Para conferir ao vivo

Se essa história te deixou com vontade de sentir um pouco da intensidade de Piaf pessoalmente, a coincidência não podia ser melhor: estreia hoje em São Paulo o musical “Piaf – Eu Não Me Arrependo”, com Laila Garin no papel da cantora francesa. O espetáculo percorre a trajetória de Piaf desde a infância pobre em Belleville até a consagração mundial, passando pelos grandes amores, pela atuação na resistência francesa durante a Segunda Guerra e pelos problemas de saúde que marcaram seus últimos anos — boa parte do que contamos aqui, agora em forma de música e teatro.

Serviço:

Espetáculo: Piaf – Eu Não Me Arrependo

Elenco: Laila Garin

Direção: Sergio Módena | Texto: Newton Moreno e Alessandro Toller

Temporada: de 7 a 30 de agosto de 2026

Local: Teatro Bradesco, São Paulo

Horários: quintas e sextas às 20h; sábados às 16h e 20h; domingos às 15h

Ingressos: de R$ 25 (meia-entrada) a R$ 300 (inteira)

Michael Jackson à mesa: os pratos favoritos do Rei do Pop

Para saber mais

- Simone Berteaut, Piaf (1969) — biografia escrita pela meia-irmã de Piaf, a fonte mais íntima sobre o cotidiano da cantora.

- Carolyn Burke, No Regrets: The Life of Edith Piaf (2011) — biografia bem pesquisada, fonte do relato sobre o bife com alho durante as composições.

- Édith Piaf, Au bal de la chance (1958) — autobiografia da própria cantora, com prefácio de Jean Cocteau (em inglês, The Wheel of Fortune).

- David Looseley, Édith Piaf: A Cultural History (2015) — mais acadêmico, discute como o mito de Piaf foi construído ao longo do tempo, ótimo para contextualizar as contradições entre relatos.

Leonardo da Vinci e a comida: entre mitos e a verdadeira mesa do gênio do Renascimento

✅Para saber tudo do mundo dos famosos, siga o canal de entretenimento do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.