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Músicos de Fresno, Dead Fish e CPM 22 se unem a Di Ferrero no “Megazord” contra bolsonarismo

Em “Quem Você Vê?”, hardcore, emo e metal se encontram em uma canção-manifesto marcada por coros, guitarras pesadas e imagens de protestos.

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O apelido “Megazord” faz referência ao robô dos Power Rangers, formado pela união das máquinas de cada integrante da equipe, em uma metáfora para a colaboração entre os artistas. Reprodução/Instagram/@rodrigolimafish

O que acontece quando músicos de Fresno, Dead Fish, Black Pantera, CPM 22, The Mönic e NX Zero se juntam para gravar uma música? Em “Quem Você Vê?”, o resultado é uma mistura muito interessante de punk rock, hardcore, emo e metal, em que as características sonoras de cada artista aparecem ao longo da composição.

Lançada no sábado, 17 de outubro, às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, a música apresenta um manifesto contra o bolsonarismo, em meio à mobilização de apoio à candidatura de Lula na disputa contra Flávio Bolsonaro.

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O projeto recebeu o apelido de Megazord, referência ao robô gigante dos Power Rangers, formado quando os diferentes integrantes da equipe unem suas máquinas para enfrentar um inimigo maior.

A reunião inclui músicos de Fresno, Dead Fish, Black Pantera, Supercombo, Hateen, Gloria, BRAZA, The Mönic, Far From Alaska, Zander, Badluv e Ego Kill Talent, além de Di Ferrero, do NX Zero, Badauí e Phil, do CPM 22, e Danilo Cutrim, do Forfun e BRAZA.

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A quantidade de artistas chama a atenção, mas o aspecto mais interessante aparece quando começamos a identificar suas influências na própria música.

“Quem Você Vê?” começa com riffs de guitarra agressivos, bateria acelerada e uma pegada de punk rock-hardcore bastante próxima do Dead Fish. As estrofes têm uma construção melódica mais reta, com frases cantadas de maneira incisiva e backing vocals em coro, recurso bastante característico do gênero.

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Conforme a música avança, as melodias vão ganhando contornos mais acessíveis, até chegar ao refrão. Nesse momento, a bateria assume uma condução em meio-tempo, trazendo uma sensação de maior peso, enquanto as vozes se unem em um canto coletivo bastante melódico, com aquele quê de emo dos anos 2000.

Essa combinação funciona muito bem. A agressividade do hardcore encontra a dramaticidade melódica do emo, enquanto os coros dão à composição uma característica de canto de manifestação.

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As diferentes interpretações vocais também merecem atenção. É possível reconhecer características vocais de Black Pantera, de Dani Buarque (The Mönic), e de outros participantes, especialmente nas passagens em que as vozes se sobrepõem.

Um dos momentos mais interessantes é a participação de Badauí, do CPM 22. Sua interpretação carrega aquela atitude característica do punk rock melódico da banda. A combinação de voz, guitarra e coro funciona muito bem e acrescenta uma nova temperatura emocional à faixa.

Em outra passagem, a música avança para um território próximo do metalcore, com guitarras mais pesadas e vocais distorcidos, trazendo referências do Black Pantera e do Gloria. A agressividade cresce consideravelmente, até dar lugar a uma quebra mais suave, com melodias que lembram a sonoridade do NX Zero.

Esse é o principal acerto musical do Megazord. As mudanças de interpretação e arranjo permitem reconhecer a personalidade dos artistas que participam da gravação. Cada um acrescenta seu próprio molho, enquanto a composição mantém uma identidade coletiva.

A gravação coletiva reuniu músicos de diferentes bandas do rock brasileiro, que contribuíram com suas próprias características musicais para a composição. Reprodução/X/@lucasfresno

Uma letra que funciona como manifesto

A letra acompanha essa proposta de união. A composição começa descrevendo uma situação de desesperança, em que o indivíduo não encontra perspectivas nem caminhos para seguir.

A partir daí, desenvolve uma mensagem de resistência à apatia, reconhecimento das semelhanças e fortalecimento pela coletividade.

Um dos versos mais representativos é “Não vão me pegar pois não ando mais sozinho”. A frase sintetiza a transformação que a letra procura construir. A segurança do indivíduo passa a depender da presença de outras pessoas dispostas a enfrentar a mesma situação.

Mas considero que o melhor achado poético está no próprio título.

Ao longo da composição, aparecem referências a horizonte, caminho, recuo e avanço. São imagens relacionadas à direção que as pessoas precisam tomar. Entretanto, quando a música chega à pergunta central, o olhar muda de direção.

O ouvinte é convidado a olhar para o lado e reconhecer quem está ao seu redor.

É uma imagem simples, mas bastante interessante, especialmente porque encontra uma correspondência direta na reunião dos artistas. A própria formação do Megazord materializa aquilo que a letra procura comunicar.

Por outro lado, a composição apresenta algumas ressalvas literárias. Expressões sobre correr contra o vento, mostrar ao mundo do que somos feitos e manter um coração batendo no peito pertencem a um repertório de imagens bastante conhecido. Contudo, dado a natureza motivadora da obra, é compreensível ser essa uma solução poética para reduzir a fricção do discurso e ampliar seu leque de alcance, ao torna-lo mais acessível e comum a todos.

Também há versos cuja construção poderia ser mais precisa, além de referências um tanto gastas pelas discussões nas redes referentes a retrocesso e projetos de poder que dependem do contexto político para ganhar significado específico. Algumas bolhas alvo da mensagem podem encontrar aí seus pontos de esquiva.

De modo geral, a composição tem características de uma obra de ocasião, concebida para a mobilização eleitoral. A sua linguagem privilegia a urgência e o canto coletivo. Não é obra para uma escuta contemplativa, mas sim, uma canção manifesto para trazer de forma clara e acessível a mensagem de seus autores.

É justamente na interpretação musical que essas observações literárias perdem importância. A repetição das frases, os coros e as diferentes vozes transformam declarações relativamente convencionais em momentos de forte participação coletiva.

Um videoclipe com linguagem de redes sociais

O videoclipe reforça a proposta política com uma montagem de imagens reais de manifestações e acontecimentos relacionados ao governo de Jair Bolsonaro, incluindo referências à pandemia de Covid-19.

A edição utiliza uma linguagem próxima dos vídeos que circulam nas redes sociais, combinando recortes de acontecimentos públicos, registros dos músicos e a interpretação coletiva da canção.

Essa escolha ajuda a dar referências concretas ao discurso da letra. Termos como retrocesso e projeto de poder, relativamente abertos quando lidos isoladamente, passam a ser associados às imagens políticas selecionadas para o vídeo.

A montagem também cria um contraste interessante entre o peso das imagens e a melodia dos refrões, que ganham um caráter quase de hino, com diversas vozes cantando juntas.

Há uma relação direta entre a mensagem, o arranjo e o vídeo. Os coros representam musicalmente a coletividade, enquanto as imagens situam essa união no contexto eleitoral.

Naturalmente, existe uma diferença entre a diversidade musical do projeto e a diversidade de pensamento político. Os participantes vêm de bandas e linguagens sonoras distintas, mas compartilham o posicionamento eleitoral defendido na divulgação.

Essa distinção ajuda a compreender o alcance do manifesto.

O que mais agrada em “Quem Você Vê?” é perceber como o hardcore do Dead Fish, o punk rock melódico do CPM 22, o metal do Black Pantera e do Gloria e as melodias do emo da Fresno e Di Ferrero convivem harmoniosamente bem dentro da mesma composição.

O Megazord encontrou uma maneira criativa e eficaz de fazer sua mensagem aparecer na própria construção musical.

Quando tantas vozes diferentes se reúnem para cantar a mesma frase, a ideia de coletividade deixa de depender exclusivamente das palavras. Ela passa a fazer parte da experiência de viver esse momento que motiva a canção.

E esse é o maior mérito artístico de “Quem Você Vê?”.

Assista ao videoclipe de “Quem Você Vê?”abaixo:

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