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Pais de pet? Estudo investiga se macacos podem ‘adotar’ outros animais

Brincar e realizar cuidados de higiene, como a limpeza do pelo, foram as interações mais frequentes observadas pelos pesquisadores

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Estudo da Universidade de Oxford documenta 427 casos de primatas interagindo amigavelmente com outras espécies, incluindo brincadeiras e cuidados.
  • Comportamentos observados não indicam que primatas têm "animais de estimação" como humanos, mas podem representar comportamentos ancestrais de interação.
  • Interações variam entre brincadeiras, cuidados de higiene e, em casos raros, comportamentos agressivos, com algumas interações resultando na morte de outros animais.
  • Observações sugerem que certas predisposições comportamentais, como brincar e cuidar, são muito antigas, mas não necessariamente levaram ao conceito humano de animais de estimação.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Maior parte das interações com outros animais era iniciada pelos primatas, aponta pesquisadores Reprodução/Alexandre Bonnefoy e Cédric Sueur/Primates

A ideia de que apenas seres humanos desenvolvem vínculos de cuidado com animais pode estar mais próxima de ser revista. Uma pesquisa internacional liderada por cientistas da Universidade de Oxford encontrou centenas de registros de primatas interagindo de maneira amigável com outras espécies, incluindo episódios de brincadeiras, trato, contato físico e até comportamentos semelhantes à adoção.

Publicado na revista científica Primates, o trabalho reuniu 427 casos documentados em diferentes regiões do mundo. As ocorrências envolveram 88 espécies de primatas e 127 espécies de outros animais, entre mamíferos, aves, répteis, anfíbios, insetos e crustáceos.


Os pesquisadores, no entanto, fazem uma ressalva importante: os comportamentos observados não significam necessariamente que os primatas tenham “animais de estimação” da mesma forma que os humanos. A proposta do estudo é que determinadas formas de interação entre espécies podem representar comportamentos ancestrais que, ao longo da evolução, ajudaram a formar algumas das bases da relação de companhia entre humanos e animais.

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Brincadeiras e cuidados aproximam espécies

Entre os 427 registros analisados, brincar e realizar cuidados de higiene, como a limpeza do pelo, foram as interações mais frequentes. Houve 139 casos de brincadeiras e 136 de grooming, comportamento no qual um animal limpa ou manipula o corpo de outro.


Os episódios foram registrados tanto em ambientes naturais quanto em cativeiro. Dos casos com informações disponíveis sobre o local, 311 ocorreram na natureza e 110 em ambientes sob cuidados humanos.

A maior parte das interações era iniciada pelos próprios primatas. Entre os 219 episódios em que foi possível determinar quem começou o contato, os primatas foram responsáveis pela iniciativa em 144 casos, enquanto 72 foram considerados interações de mão dupla. Apenas três foram iniciados por animais de outras espécies.


A idade também parece influenciar o tipo de comportamento. Filhotes e jovens apresentaram maior tendência a brincar com animais de outras espécies, enquanto fêmeas adultas foram mais frequentemente associadas a comportamentos de cuidado e higiene.

Os machos adultos, por outro lado, apresentaram uma probabilidade significativamente menor de participar de interações classificadas como afiliativas, ou seja, de caráter social positivo.


Os registros mostram que os contatos não se limitam a animais evolutivamente próximos. Embora muitas interações tenham ocorrido entre espécies de primatas, também foram encontrados casos envolvendo cães, porcos, gatos, esquilos e outros animais.

Entre os exemplos reunidos pelos pesquisadores estão macacos-de-cauda-curta realizando cuidados em cães domésticos na Tailândia, langures interagindo com esquilos-gigantes no Sri Lanka e jovens macacos-de-nariz-arrebitado brincando sobre porcos na China.

No Japão, macacos-japoneses foram observados interagindo com cervos-sika. Também foram registrados casos de macacos-prego e macacos-aranha formando vínculos sociais em ambientes naturais.

Segundo os cientistas, a proximidade evolutiva pode facilitar essas relações porque espécies mais parecidas tendem a compartilhar sinais de comunicação, comportamentos e necessidades ecológicas. Ainda assim, alguns dos episódios envolveram animais bastante distantes na árvore evolutiva.

Adoção feita por macacos?

Apesar de a maioria dos registros ter caráter positivo, os pesquisadores também encontraram situações de agressividade e comportamentos que tiveram consequências graves.

Foram identificados 26 episódios classificados como abusivos. Em 21 deles, o alvo era uma espécie que não era primata. Ao todo, 13 casos documentados terminaram com a morte do outro animal, incluindo aves, pangolins, um gato doméstico e outros primatas.

Um dos exemplos mencionados no estudo ocorreu na Arábia Saudita, onde um babuíno foi observado carregando durante longos períodos um filhote de cachorro doméstico. O comportamento foi interpretado como um possível caso de “sequestro”, e não necessariamente como uma relação de cuidado.

Os autores ressaltam que comportamentos que parecem afetuosos aos olhos humanos não devem ser automaticamente interpretados como demonstrações de carinho. Uma interação pode começar como curiosidade, brincadeira ou comportamento maternal e acabar causando ferimentos ou até a morte do outro animal.

É justamente nesse ponto que os pesquisadores são mais cautelosos. A pesquisa não afirma que os primatas mantenham animais de estimação como os seres humanos fazem.

Para que uma relação seja comparável ao conceito humano de animal de companhia, normalmente é necessário que exista uma convivência prolongada, com cuidado e manutenção do vínculo ao longo do tempo. Muitos dos episódios reunidos no estudo foram breves ou ocorreram de maneira ocasional.

Ainda assim, alguns casos chamaram atenção por apresentarem características mais próximas da adoção entre espécies.

Um exemplo citado pelos pesquisadores ocorreu em um zoológico de Israel, onde um macaco-de-crista teria adotado comportamentos de cuidado e proteção em relação a uma galinha que entrou em seu recinto.

O estudo também cita o famoso caso de Koko, uma gorila que desenvolveu um vínculo próximo com um filhote de gato chamado All Ball. A gorila apresentava comportamentos como carregar, limpar e proteger o animal.

Para os autores, essas observações podem ajudar a entender como algumas características relacionadas à convivência entre humanos e animais se desenvolveram.

Brincar, cuidar, tolerar indivíduos de outras espécies e buscar contato social são comportamentos que aparecem em diferentes primatas. Isso não significa que eles tenham levado diretamente ao surgimento dos animais de estimação, mas pode indicar que certas predisposições comportamentais são muito mais antigas do que a própria espécie humana.

Os cientistas reconhecem que o levantamento não permite determinar com que frequência esses comportamentos realmente acontecem na natureza. Isso porque parte dos registros veio de relatos na imprensa, fotografias, vídeos e respostas de pesquisadores, além de artigos científicos.

Interações incomuns e visualmente chamativas também têm maior probabilidade de serem registradas e divulgadas. Por isso, os 427 episódios não podem ser considerados uma representação da frequência real desse tipo de comportamento entre primatas.

Ainda assim, os autores defendem que os casos devem ser documentados de maneira mais sistemática. Observar como os primatas interagem com outras espécies pode contribuir não apenas para o estudo da evolução do comportamento social, mas também para decisões relacionadas ao bem-estar animal em zoológicos e reservas.

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