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Patricia Lages

Análise: A manipulação da mídia sobre o empoderamento feminino

Grande parte dos meios de comunicação exaltam a independência da mulher moderna e o quanto nos tornamos mais poderosas. Mas, será mesmo?

Patricia Lages|Patricia Lages

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Patrícia: 'Eu não me sentiria empoderada por não poder contar com meu marido'
Patrícia: 'Eu não me sentiria empoderada por não poder contar com meu marido'

Imagine a cena: uma mulher com nove meses de gestação começa a sentir as contrações do parto e avisa o marido que precisam ir imediatamente para o hospital. Ele, sem a menor cerimônia, entra no carro e senta no banco do passageiro, enquanto ela assume o volante e — já em trabalho de parto — dirige até a maternidade.

Imaginou? Ótimo! Agora tenho algumas perguntas para você:


Você descreveria esse homem como um marido em “sintonia” com a esposa?

Você qualificaria essa situação como “bem-humorada”?


Você diria que essa mulher é um exemplo de empoderamento feminino?

Você gostaria de estar no lugar dela e ter um “maridão” como esse?


O fato é real e aconteceu com o casal Blake Lively e Ryan Reynolds, ambos atores de Hollywood. Um site de notícias com foco no chamado “girl power”, contou essa mesma história, mas de um jeito diferente. Apesar de ter ocorrido em 2016, a nota veio à tona há alguns dias por conta da divulgação do novo filme de Blake, o suspense A Simple Favor.

Segundo esse site, a atitude do marido demonstrou a boa “sintonia” entre o casal e, em uma postagem no Instagram, a chamada diz “Alerta girl power” e a legenda da foto traz o texto: “ela mesma foi dirigindo até o hospital, enquanto o maridão tentava se acalmar”. Para finalizar a notícia “empoderadora”, vem a frase: “Isso é que é girl power!”.


Particularmente, me considero uma mulher independente. Construí uma carreira sólida tenho um trabalho reconhecido, viajo sozinha e não tenho problema em tomar decisões difíceis. Mas, honestamente, eu não me sentiria empoderada por não poder contar com o meu marido nas horas em que as coisas apertam para o meu lado.

Toda mulher tem que enfrentar seus próprios desertos, isso é certo. Há coisas que só nós podemos resolver e não vai adiantar querer que um príncipe apareça num cavalo branco. Isso é fantasia. Mas não vamos confundir empoderamento feminino com “desempoderamento” masculino.

É triste ver a mídia enaltecendo mulheres que têm de se virar por conta própria por simplesmente não poderem contar com a ajuda de ninguém.

Será que devemos mesmo romancear a vida de uma mulher que não pode contar com o marido ou a situação de uma mãe que tem de criar os filhos sozinha, sem pensão e sem a presença do pai? Será que devemos encorajar outras mulheres a fazerem o mesmo dizendo que isso é “girl power”, que mulheres não precisam de homens e que filhos não precisam de pais? Pegar um caso isolado que tenha sido bem-sucedido acaba maquiando os milhares e milhões de outros cujo final não foi tão promissor. Será que devemos continuar dizendo que as mulheres são tão autossuficientes que não precisam de nada nem de ninguém, enquanto elas se unem a homens que passam a depender delas para tudo?

Sim, nós mulheres podemos muito, mas há algo que simplesmente não podemos: nos deixar enganar por essa “onda de poder” que, mais uma vez, quer colocar um fardo ainda maior e mais pesado sobre as nossas costas.

Se vivemos em família, não temos que fazer tudo sozinhas. Se estamos em uma equipe de trabalho, não temos que nos sobrecarregar para provar que somos melhores. Se os filhos têm problemas, não cabe somente à mãe tentar resolver. Isso é viver em uma sociedade mais justa. Esse é o verdadeiro empoderamento.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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