Análise: Ilusão, fantasia e perda de dinheiro
Passamos boa parte do ano à mercê de datas comerciais que nos fazem gastar um dinheiro que não podemos para comprar coisas sem o menor sentido. Por quê?
Patricia Lages|Do R7
Fico imaginando o que aconteceria se um extraterrestre chegasse aqui na Terra nos dias de hoje. O que ele pensaria sobre a nossa sociedade, que se julga tão inteligente e moderna, mas vive fazendo coisas sem pé nem cabeça?
Ele veria que a maioria das pessoas deixa suas casas, seus filhos e suas vidas, para passar oito horas diárias trabalhando, muitas vezes em lugares que detestam fazendo coisas nas quais não veem propósito algum. As pessoas se submetem a isso porque, ao final de 30 dias, recebem um valor em dinheiro para comprar o que quiserem. Ao receber a remuneração, muitos gastam além do que lhes foi dado e acham que, para cobrir o prejuízo, basta voltar ao trabalho e receber novamente depois de trinta dias.

Porém, passado o período, elas recebem o mesmo valor do mês anterior e, então, percebem que não dá para cobrir as contas que trouxeram do mês passado, muito menos as atuais. Então, elas veem uma saída: pedir dinheiro emprestado!
Para isso, elas vão aos bancos, que emprestam 1, mas cobram 2, justificando que o nome disso é juro. Logo, essa pessoa teria que receber o dobro só para pagar o que emprestou do banco. Mas, novamente, ela recebe o mesmo de sempre e agora tem as contas anteriores, as atuais e o banco, que leva boa parte do que já não era muito.
O ciclo continua por meses, anos e, às vezes, por toda a vida. Talvez o extraterrestre chegasse à mesma conclusão que Robert Kiyosaki cita em seu livro “Pai rico, pai pobre” para descrever onde a maioria das pessoas vive: na roda dos ratos. Vivem correndo e se fatigando, mas não saem do lugar. Ao contrário, todo o esforço serve apenas para manter essa roda viciada girando.
Apesar dessa dinâmica já ser, no mínimo, curiosa para uma sociedade que se julga avançada, creio que o que mais chamaria a atenção do extraterrestre seria o que as pessoas fazem com o dinheiro pelo qual tanto se sacrificam. O que ele diria se soubesse que tudo se resume à frase: “as pessoas gastam o dinheiro que não têm, para comprar coisas que não precisam, para impressionar pessoas que não conhecem”.
Com a Páscoa se aproximando, como explicaríamos para o nosso ET porque as pessoas compram chocolate em forma de ovo pagando cinco ou seis vezes mais do que o produto custa em outro formato? Como justificaríamos que são coelhos, mamíferos que não botam ovos, que trazem esses ovos de Páscoa? E mais: como faríamos o ET entender que Páscoa é, na verdade, uma celebração religiosa que nada tem a ver com coelhos, chocolates ou ovos?
Para terminar, como explicaríamos ao nosso amigo que, na segunda-feira após o domingo de Páscoa, esses tais ovos caríssimos estarão sendo vendidos nos mesmos locais por uma fração do preço que custavam até então?
Certamente, o ET não entenderia essa dinâmica, afinal de contas, ela não tem o menor sentido. Pior que isso é saber que a Páscoa é apenas uma das datas que fazem as pessoas gastarem dinheiro em coisas que não lhes trazem benefício algum. Mas assim têm agido muitos seres humanos que, enquanto se julgam inteligentes, descolados e originais, na verdade estão apenas correndo para movimentar a roda dos ratos.
Patricia Lages
É jornalista internacional, tendo atuado na Argentina, Inglaterra e Israel. É autora de cinco best-sellers de finanças e empreendedorismo, palestrante e conferencista do evento “Success, the only choice” na Universidade Harvard. Apresenta quadros de economia na TV Gazeta e Record TV e é facilitadora da RME para o programa mundial WomenWill – Cresça com o Google.














