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Patricia Lages

Análise: Quando o feminismo perde a mão

A luta feminista parece estar se perdendo em meio a ideias que não acrescentam nada às mulheres 

Patricia Lages|Patricia Lages

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Dias atrás a atriz Cléo Pires causou certa polêmica e ganhou espaço na mídia ao postar um texto contendo a frase “meus seios não são órgãos sexuais. Antes, são órgãos feitos para alimentar um bebê”. Ela classificou como MACHISMO (assim mesmo, em letras maiúsculas) o fato de não poder expor seus seios da forma que quiser em uma plataforma digital, enquanto um homem pode posar sem camisa.

Cléo chama a erotização do corpo da mulher de “construção cultural machista que oprime e cerceia a mulher das mesmas pequenas e sutis liberdades que o homem tem”. Ela termina o texto com a hashtag #direitosiguais.


Será mesmo que nossas antepassadas lutaram tanto para chegarmos ao ponto de acharmos que empoderar uma mulher é lhe dar o “direito” de exibir seus seios como e onde quiser? Será que nos esforçamos tanto em crescer intelectualmente — uma vez que estudamos mais que os homens — para, agora, darmos uma de bobinhas e querer que as pessoas passem a acreditar que os seios de uma mulher foram feitos única e exclusivamente para alimentar um bebê?

Se assim fosse, para que servem as roupas sensuais cheias de decotes e transparências nessa região? E mais, para que tantas próteses de silicone em diversos tamanhos, formas e tipos, cada vez mais tecnológicas e desejadas? Para lembrar que, um dia, um bebê se alimentou ou se alimentará por meio daqueles órgãos? Não sejamos hipócritas! E outra: há lugares onde as pessoas podem ficar nuas, como praias nudistas e afins. Então, quem quer tanto ter a liberdade de andar sem roupa, por que não escolher um local apropriado para isso? Será que é porque não vai gerar polêmica?


Homens e mulheres devem ter sim, direitos iguais. Porém, entendamos de uma vez por todas que homens e mulheres não são iguais. Homens não dão à luz, não amamentam e jamais o farão. Isso cabe a nós, mulheres, se quisermos e quando quisermos.

Particularmente, luto, por exemplo, pelo direito de uma mulher não engravidar, caso não queira, e jamais ser constrangida ou diminuída por sua decisão ou, ainda, ser tratada como uma mulher incompleta por não ser mãe. Mas daí a colocar na mesma balança uma luta legítima e uma bobagem como o direito de exibir o corpo, sob o argumento de não fazê-lo por questões sensuais ou sexuais é perder a mão da coisa.


Infelizmente, há quem use a causa feminista — que, repito, é legítima — para levantar bandeiras que não nos levam a lugar algum (a não ser para que alguns ganhem um pouco mais de espaço na mídia).

Devemos focar nossos esforços em requerer mudanças que façam sentido para a mulher e para a sociedade da qual ela faz parte e em lutar por uma igualdade de direitos e não de gênero. Nós não queremos ser homens ou agir como homens para nos sentirmos valorizadas. Nós queremos continuar sendo mulheres e jamais sermos diminuídas por isso.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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