Análise: Vaidade em alta, autoestima em baixa
Celebridades, como Kim Kardashian, vendem uma imagem “perfeita”, mas críticas as fazem recorrer a profissionais para voltarem a ser veneradas
Patricia Lages|Patricia Lages

Não se sabe ao certo quando a vaidade passou a fazer parte da vida dos seres humanos ou como foi introduzida em praticamente todas as culturas. Mas há registros de que ela está entre nós desde as mais antigas civilizações, até as tribos mais distantes, que já usavam pinturas e adornos demonstrando certa vaidade.
Os faraós do Egito, por exemplo, foram considerados deuses por centenas de anos e, analisando a história, vemos que o culto à vaidade lhes garantiu o trono por diversas gerações. Eles mantinham uma estética impecável, pois sua imagem tinha que estar acima dos demais seres humanos que, obviamente, os veneravam com devoção. Usavam os tecidos mais finos, os adornos mais ricos e viviam cobertos de ouro e pedras preciosas. Mas por serem copiados pelos nobres, se viam obrigados a se colocarem mais acima deles, fazendo de sua vaidade algo sem limites.
A estratégia dos faraós incluía até algumas enganações, como os perfumes que usavam. Conta-se que eles se banhavam em essências especiais, desenvolvidas secretamente, pois os perfumes ainda não eram conhecidos, mas afirmavam ser aquele o seu cheiro natural, por isso, a população os consideravam seres sobrenaturais.
Trazendo para os dias de hoje, os perfumes dos faraós podem ser comparados ao Photoshop, aos tratamentos estéticos e às intervenções cirúrgicas, que fazem com que as celebridades pareçam não ter defeitos e serem naturalmente “perfeitas”, ainda que nós saibamos que não é o caso.
A imagem é algo tão forte que muitos se esquecem do que é real e passam a se basear apenas nas aparências. Com isso, cuidar do exterior tem sido considerado um investimento “completo”, pois contempla a carreira profissional (já que parecer competente pode ajudar, e muito) e os relacionamentos amorosos (onde se levam em conta os atributos físicos acima de qualquer qualidade).
A vaidade pode colocar as pessoas em posição de destaque, nossa história confirma isso, mas ela não consegue esse feito por muito tempo. Sempre vai aparecer alguém mais bonito, mais jovem e mais atraente e aí começa uma batalha que não tem fim e que, muitas vezes, se torna uma obsessão.
Celebridades como Kim Kardashian, são donas de verdadeiras fortunas, estampam os sites e as televisões com sua imagem “perfeita”, mas basta uma pequena crítica em meio a milhões de elogios para fazê-las correrem para os consultórios dos melhores profissionais e mudarem o que for preciso para voltarem a ser veneradas.
Além disso, é preciso desenvolver estratégias que as mantenham sempre em alta, exibindo sua “perfeição” em mais uma demonstração retumbante de vaidade. Um exemplo é o novo perfume de Kim Kardashian, cuja embalagem é uma escultura de seu corpo nu. A exposição é tanta, que surge a necessidade de que todos possam tocar nela, de uma forma ou de outra. Ter sua imagem mais perto significa lembrar-se dela, afinal, o maior medo de uma celebridade é cair no esquecimento.

Assim como os súditos dos faraós acreditavam que seriam como eles se parecessem com eles, a sociedade hoje em dia, mesmo com toda modernidade, repete o mesmo comportamento. Copiam as celebridades em tudo e dão início a um ciclo sem fim: mais consumo, mais procedimentos estéticos, mais cirurgias, mais busca pela perfeição.
A questão é que, nesse ciclo, ninguém parece estar satisfeito. O consumo e o acesso a tecnologias estéticas nunca estiveram tão em alta, mas, na mesma proporção, a autoestima das mulheres nunca esteve tão em baixa. Será que entrar nesse ciclo de vaidade vale a pena? É para se pensar!














