Análise: Vamos respeitar a escolha das pessoas
Parece que o importante é discordar e, de alguma forma, ser do contra. Mas contra o que mesmo?
Patricia Lages|Patrícia Lages, Do R7

Nesses dias de Copa do Mundo li uma postagem em uma rede social que dizia assim: “Agora sei que sou uma boa mãe, pois minha filha pediu um álbum de figurinhas da Copa, adeus bonecas!” E os comentários complementavam mais um episódio da série de “sou do contra, sou legal”.
“É isso aí, menina não tem que brincar de boneca, vamos mudar isso!” “Eu gosto assim: menina rebelde!” “Que brincar de casinha o que? Vai pra rua trocar figurinha! Girl power!”
É interessante como as pessoas fazem uma leitura equivocada do que é rebeldia, liberdade e essa tal “guerra de gênero” ou de “não gênero” que está se instalando por todos os lados.
Eu sempre tive álbum de figurinhas da Copa. Sempre, em todas as Copas, até os meus 14 anos, quando me desinteressei do assunto. Mas isso nunca teve nada a ver com rebeldia e também não me impediu de ter bonecas, panelinhas e vassourinhas. Eu pude ter todas essas coisas e jamais tive de escolher entre uma e outra (ou ser a favor de umas e contra outras).
Sempre brinquei na rua com meninos e meninas porque isso é o normal e não porque é “do contra”. Minhas vontades de criança foram respeitadas e minha mãe nunca me impôs que eu deveria ter coisas de menina e não de menino. Eu tive o que quis porque isso é o normal e não porque é “do contra”.
Nunca gostei de vestir cor-de-rosa, nem de lacinhos e rendinhas, mas amava saias estampadas, vestidos de bolinha e tudo que fosse xadrez e foi assim que eu me vesti na infância. Mas isso porque é o normal e não porque é “do contra”. Já minha irmã amava roupas românticas, com estampas mais infantis e foi assim que ela se vestiu na infância.
Quando foi que começou essa discussão boba de que menina de rosa é coisa de mãe reacionária, enquanto menina que troca figurinha na rua é coisa de mãe moderna? Ou que meninos que fazem balé são filhos de pais incríveis e os que fazem judo ou futebol são crias de pais “conservadores machistas”?
Onde fica o discurso de respeito e tolerância quando tudo e qualquer coisa passa a fazer parte dessa guerrinha de contra e a favor? Vamos respeitar as escolhas das pessoas e parar de constrangê-las a serem do contra quando, na verdade, a liberdade de escolha deve ser encarada como algo normal e não como um discurso “moderninho”.
Eu tive a sorte de ter uma mãe que, apesar de ter sido julgada e taxada como conservadora e reacionária (por ter nos ensinado princípios e valores), me deu total liberdade de escolher meus brinquedos, minhas roupas e minhas amizades. E olha que eu sou de 1972!
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