Filhos superprotegidos e uma geração que não sabe servir
Alunos não estão acostumados a serem contrariados e não sabem como lidar com a frustração quando isso acontece
Patricia Lages|Patricia Lages

Muitos professores já estão acostumados a lidar com crianças e adolescentes que nunca haviam escutado um não até chegarem a uma sala de aula. Esses alunos não respeitam autoridade alguma, são pequenos tiranos que não estão acostumados a serem contrariados e não têm a menor ideia de como encarar uma frustração, pois são atendidos em todos os seus anseios pelos pais e familiares.
São pais que atuam mais como amigos, e que querem fazer seus filhos “felizes” 24 horas por dia, sem saberem que, com isso, os estão privando de se tornarem civilizados através de uma educação básica e da oportunidade de se prepararem para a vida real. Não me refiro à educação acadêmica, pois isso os pais têm comprado a preços exorbitantes, mas sim, àquela que é ensinada em casa, como costumava ser algumas décadas atrás.
Se o filho recebe uma nota baixa, os pais agendam imediatamente uma reunião com a direção da escola para exigirem satisfações e, claro, retratação do “erro”. O pagamento das mensalidades dá aos pais o status de “clientes” que, como tais, têm direito a serem satisfeitos o tempo todo, caso contrário, mudarão o filho de escola.
Em casa, eles fazem o que querem na hora que acham melhor e jamais são proibidos de estar com celular, notebook ou tablet em mãos, ainda que haja visitas em casa ou seja hora de alguma refeição. Eles não precisam conversar educadamente e nem têm que sentar à mesa para comer. Também podem gritar, ofender e atirar coisas, afinal, estão apenas expressando seus sentimentos e não devem ser reprimidos. Sendo assim, por que na escola seria diferente? Será que esses professores não entendem o quanto seu filho é especial?
Essa geração que não sabe servir está crescendo e chegando ao mercado de trabalho. São estagiários que estalam os dedos esperando que alguém lhes traga um cafezinho. São assistente que gritam com seus superiores e não aceitam receber ordens. São jovens que não entendem porque, de repente, a vida ficou chata e ninguém mais quer fazer suas vontades. E por que recebem pouco dinheiro? Será que ninguém vê que essa miséria não dá para nada? Por que não podem ficar o dia todo nas redes sociais? Por que têm que agradar um cliente que nem sequer conhecem? Por que têm de ser produtivos e competir com tantos outros em um mercado de trabalho onde só os fortes permanecem? Aliás, por que eles têm de ser fortes? Eles simplesmente não entendem. Nada disso é natural para quem foi criado como um imperador.
Uma geração que só ouviu sim não entende o que significa o não e, é claro, sofre. Mas para evitar ao máximo esse sofrimento, lá estão os pais, repetindo o mesmo comportamento da época de escola. Os pais estão indo às empresas tirar satisfações com os superiores de seus filhos. Por que não lhe deram a melhor mesa? Por que reclamaram que ele atendeu o celular quando a namoradinha ligou? Por que insistem que seu filho tenha apenas uma hora de almoço se o restaurante que ele gosta é longe? Por que ele tem que trabalhar no dia do aniversário ou quando vai ter prova na faculdade? Será que essa empresa não entende o quanto seu filho é especial?
E a pergunta que fica é: o que será de uma geração enfraquecida, que não sabe encarar o mundo, não tem noção de como conviver com frustrações e que depende de terceiros para resolver todos os seus problemas? É o tipo de coisa que mais produz pena do que raiva.
Crianças precisam de limites, adolescentes precisam de exemplo e todos precisamos do não para sermos pessoas melhores. São os desafios da vida que nos fazem fortes, por isso, não podemos privar as crianças de aprenderem a viver como pessoas de bem. Não temos o direito de fazer isso com elas.














