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Patricia Lages

Jantar de hoje deixa orçamento mais magro por 180 dias

Crédito vira rotina até para comer, mostrando que descontrole nas contas públicas já pesa no bolso de quem tem menos

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • O iFood passou a permitir o parcelamento de pedidos de restaurante, com taxas de juros entre 3,53% e 8,36%, refletindo uma mudança no comportamento do consumidor.
  • Esse hábito de parcelamento para despesas básicas é um sintoma do descontrole dos gastos públicos, com o governo central registrando déficits mesmo com recordes de arrecadação.
  • O desequilíbrio das contas públicas pressiona a inflação e mantém os juros elevados, afetando principalmente as camadas mais pobres da população.
  • O Brasil atingiu um recorde histórico de inadimplência, com 83,7 milhões de negativados, refletindo um padrão de comportamento de endividamento crescente.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

O descontrole dos gastos públicos aparece no carrinho de supermercado: cada vez mais caro e mais vazio ND Mais

Em dezembro de 2025, o iFood passou a permitir que pedidos de restaurante também fossem parcelados, mas com juros. As taxas vão de 3,53% a 8,36% de custo efetivo total, dependendo do número de parcelas escolhido. A adesão surpreendeu até os mais otimistas, já que o volume de pedidos parcelados mais que dobrou, ultrapassando 1,3 milhão apenas entre dezembro e janeiro.

O número revela uma mudança de comportamento do consumidor que, antes, usava o crédito para a compra de bens de maior valor, mas agora passou a financiar despesas cotidianas, como alimentação, transporte e compras de supermercado. Quando até o básico depende de parcelamento, o risco de endividamento das famílias cresce.


Esse hábito não nasce por acaso, mas é um dos sintomas de um problema maior: o descontrole dos gastos públicos. O Brasil segue batendo recordes de arrecadação, mas, ainda assim, vem fechando as contas no vermelho, mostrando que uma coisa está intrinsecamente ligada à outra.

Em maio de 2026, por exemplo, o governo central (que reúne Tesouro, Previdência e Banco Central) registrou déficit primário de R$ 53,3 bilhões, o pior resultado para o mês desde 2024. Isso aconteceu mesmo com a arrecadação atingindo o maior valor já registrado para o período. A consequência é óbvia: quando as despesas crescem mais rápido do que as receitas, não tem como a conta fechar.


A ligação entre as contas públicas e o bolso do consumidor é que o desequilíbrio dos gastos do governo pressiona a inflação e mantém os juros elevados. O impacto normalmente é sentido primeiramente pela classe média, porém, isso é um sinal claro de que as camadas mais pobres da população já estão em situação insustentável.

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Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), no terceiro trimestre do ano passado, 42,7% das compras com cartão de crédito foram parceladas, com incidência maior de compras divididas em até seis vezes. Esse é um dado claro de que o parcelamento deixou de ser recurso para grandes compras e virou rotina para o consumo básico do dia a dia.


Em junho de 2026, o Brasil bateu recorde histórico de inadimplência: 83,7 milhões de negativados, equivalente a 50,9% da população adulta. Essa é a 18.ª alta seguida, ou seja, há um ano e meio o consumidor vem repetindo um padrão que indica o estabelecimento de um comportamento.

O Banco Central confirma a mesma piora nas operações formais de crédito. Os atrasos acima de 90 dias nos pagamentos chegaram a 4,7% em maio, o maior nível desde o início da série histórica, em 2011. Enquanto isso, o juro do rotativo do cartão de crédito subiu para 439,9% ao ano.


Não se trata de uma crise distante ou de um rombo que só aparece nas planilhas de Brasília. O resultado se vê nitidamente no parcelamento do jantar de sexta-feira, no carrinho de supermercado cada vez mais caro e mais vazio e na fatura do cartão que não cabe no orçamento. Enquanto o governo continuar aumentando os gastos para além do que arrecada (ainda que essa arrecadação bata recordes), o preço do desequilíbrio será pago por todos, mas principalmente pelas classes mais baixas.

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