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Patricia Lages

Mais da metade das ligações ao Samu já foi trote, problema que persiste até hoje

Chamada falsa é crime, pode colocar vidas em risco e ainda escancara falta de cidadania do brasileiro

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Trote é crime previsto no Código Penal e menores de idade também respondem, conforme ECA Qconcursos Folha Dirigida

Em uma noite comum de trabalho, Carla Mantovan, médica reguladora do Samu de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, atende um dos cerca de 700 chamados diários. Na linha, um adulto pede socorro para uma criança engasgada que já está sem respiração.

A ocorrência precisa da Unidade de Suporte Avançado (USA) que estava a caminho de transferir um paciente do pronto-atendimento para um hospital. Devido à gravidade, a médica decide priorizar a criança e também aciona a Unidade de Suporte Básico (USB) mais próxima do endereço indicado.


Ao chegar ao local, a equipe básica percebe que tudo não passou de um trote e pede ao setor que cancele o envio da unidade avançada. Carla Mantovan relata que, naquela mesma noite, outros três chamados falsos foram atendidos, todos relatando casos dramáticos e com indícios de terem sido feitos pela mesma pessoa.

Maísa Nunes trabalha no mesmo setor há mais de dez anos e relata ter atendido trotes de crianças e adultos: “Criança, às vezes, no meio do caminho começa a dar uma risadinha, faz uma brincadeira e a gente consegue interromper esse chamado falso. Mas, quando é adulto, passa informação correta, endereço, aí é mais difícil de identificar”.


Trote é crime previsto no Código Penal

O artigo 266 pune quem interrompe ou perturba serviço telefônico ou de informação de utilidade pública. Desde abril de 2026, a pena é de reclusão de dois a quatro anos, além de multa. Já o artigo 340 criminaliza quem provoca a ação de uma autoridade comunicando ocorrência falsa, com pena de um a seis meses de detenção ou multa. Menores de idade também respondem por ato infracional correspondente a crime, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Mas, para além da questão jurídica, cada chamada falsa pode mobilizar equipes que deixam de socorrer quem precisa. Em Fortaleza (CE), por exemplo, dados de 2006 apontavam incidência diária de trotes entre 38% e 47% das chamadas. No mesmo ano, 55% das ligações recebidas pelo Samu em todo o Brasil foram trotes, segundo dados divulgados pela Agência Saúde.


Números mais recentes mostram que a prática continua. Somados os trotes registrados em 2025 em Minas Gerais, aos apontados entre março de 2024 e fevereiro de 2025, no Rio de Janeiro, foram quase 120 mil chamadas falsas ou indevidas.

Falta de cidadania e de respeito ao próximo

Os trotes representam apenas um dos vários comportamentos inaceitáveis que se tornaram comuns, como saquear carga de caminhão tombado, apresentar atestado médico falso no trabalho ou entrar com ação trabalhista pedindo indenização sabidamente indevida.


Uma população que reclama da corrupção dos outros enquanto normaliza a própria não pode ser levada a sério. Enquanto não praticarmos cidadania e respeito ao próximo, seguiremos sendo, indefinidamente, um país de terceiro mundo.

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