A tragédia de Olga Benário: a mulher presa no RJ e entregue à Alemanha nazista há 80 anos
Embora não tivesse cometido crime, foi arrancada do Brasil e jogada em um navio rumo à Alemanha
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Ela tinha apenas 28 anos e estava grávida de sete meses quando foi presa no Rio de Janeiro. Embora não tivesse cometido nenhum crime em solo brasileiro, foi arrancada do país, jogada em um navio e enviada para a Alemanha.
Judia, comunista e procurada pelo regime nazista. O país que a recebeu era governado pelo ditador Adolf Hitler. Seu nome era Olga Gutmann Benário.
Nascida em 12 de fevereiro de 1908, na cidade de Munique, na Alemanha, Olga foi uma ativa militante desde a juventude. Ela foi enviada ao Brasil pela Internacional Comunista (Komintern) para atuar ao lado de Luís Carlos Prestes na organização de uma revolução proletária no país.
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Prestes havia ficado conhecido nacionalmente como o “Cavaleiro da Esperança” por liderar a Coluna Prestes, marcha que percorreu o interior do Brasil após os levantes tenentistas da década de 1920.
Olga e Prestes se conheceram em Moscou e e chegaram clandestinamente ao Rio de Janeiro em abril de 1935, utilizando nomes falsos, visto que Prestes já era procurado pelo governo de Getúlio Vargas.
No Rio de Janeiro, o casal viveu sob disfarce em diversos endereços: na Rua Marquês de Abrantes, no Flamengo; na Rua Barão da Torre, em Ipanema; na Rua Correia de Oliveira, em Vila Isabel; na Avenida Nossa Senhora de Copacabana; e, finalmente, na Rua Honório, no atual bairro de Todos os Santos. Foi nesse último local que acabaram presos pelos agentes comandados por Filinto Müller, o temido chefe da Polícia Civil do Distrito Federal.
Prestes acreditava que a Vila Militar e outros quartéis estratégicos da então capital federal se uniriam em prol de uma revolução comunista e assim derrubar o governo Vargas, mas o plano fracassou. O levante ficou restrito a focos isolados: o principal deles ocorreu no 3º Regimento de Infantaria, na Praia Vermelha, sendo rapidamente sufocado pelas forças governistas — o prédio foi bombardeado e destruído, deixando cerca de 20 mortos. Houve também uma pequena rebelião na Escola de Aviação Militar, no Campo dos Afonsos.
Após o fracasso do levante, conhecido como Intentona Comunista, o Congresso Nacional aprovou medidas de exceção que concentraram ainda mais poder nas mãos de Getúlio Vargas. O regime endureceu a repressão e desencadeou uma caçada severa a centenas de suspeitos de oposição.
Olga ficou presa na antiga Casa de Correção na Rua Frei Caneca. Mesmo sob intensa mobilização internacional e com a atuação do advogado Sobral Pinto — que alegava que Olga não poderia ser extraditada por estar grávida de um brasileiro —, o Supremo Tribunal Federal negou o pedido de habeas corpus. Em setembro de 1936, a deportação foi autorizada por Vargas. Ela foi de navio do Rio até Hamburgo na Alemanha.
Entregue à Gestapo (polícia secreta de Hitler), Olga foi interrogada várias vezes e covardemente torturada pelos agentes nazistas. Era final da gestação, até que no dia 27 de novembro de 1936, ela deu à luz sua filha, Anita Leocádia Prestes, na prisão de Barnimstrasse, em Berlim. Após uma intensa campanha internacional liderada por sua sogra, Dona Leocádia, a bebê foi resgatada e entregue à família paterna. Olga, no entanto, seguiu para o horror dos campos de concentração. Passou por Lichtenburg e Ravensbrück, até ser transferida para o centro de eutanásia de Bernburg.
Em abril de 1942, aos 34 anos, Olga Benário foi assassinada na câmara de gás. Pouco antes de morrer, em sua última carta endereçada a Prestes e à filha, deixou registrado o sentimento que guiou toda a sua trajetória: “Lutei pelo justo, pelo bom, pelo melhor do mundo.”
Luis Carlos Prestes ficou preso até 1945 e morreu em 1990, aqui no Rio. Anita Leocádia Prestes foi criada pela avó e pela tia e trabalhou por anos ao lado do pai. Atualmente, ela tem 89 anos e é professora de História aposentada pela UFRJ. Anita também é escritora e lançou obras sobre a luta política dos pais. Um dos seus últimos livros foi sobre a mãe nos arquivos da Gestapo.
É importante ressaltar que o partido nazista controlou a Alemanha e parte da Europa entre 1933 e 1945. Segundo o Museu do Holocausto dos Estados Unidos, cerca de 11 milhões de pessoas foram assassinadas pelo regime, principalmente judeus, ciganos, homossexuais, eslavos entre outros grupos étnicos e opositores.
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