Arqueóloga baleada no Leblon ajudou a revelar um passado sombrio do Rio
Um crime chocante nos fez refletir sobre o Valongo
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O caso da arqueóloga baleada durante um assalto no Leblon chocou o Rio de Janeiro e mobilizou a polícia para prender os bandidos. Curiosamente, um deles se chama James Dean. O antigo astro de Hollywood deve se revirar no túmulo.
A violência empregada contra uma idosa chocou os cariocas. Ela levou três tiros à queima-roupa; por sorte, escapou sem maior gravidade e já se recupera em casa. A vítima é Tania Andrade Lima, de 81 anos. Ela é arqueóloga e professora aposentada do Museu Nacional, que é ligado à UFRJ.
A professora tem uma importante participação na história da cidade. Ela foi uma das descobridoras do Cais do Valongo em 2011, durante as obras de revitalização da Zona Portuária.
Atualmente, o sítio arqueológico é um espaço de visitação a céu aberto, localizado na Avenida Barão de Teffé, no bairro da Saúde. É como se fosse uma cápsula do tempo, um local de reflexão sobre o nosso passado nada glorioso.
O Valongo
O Cais do Valongo é um dos sítios arqueológicos mais importantes do Brasil. Foi o porto de entrada, entre 1775 e 1831, de entre 500 mil a 1 milhão de africanos escravizados no Brasil. O Rio de Janeiro foi a cidade do Ocidente que mais recebeu cativos na história.
Ali existia também o mercado de escravos; seres humanos eram vendidos como objetos. Essas pessoas — homens, mulheres e crianças — eram a base da economia no tempo do Império. Aqueles que não sobreviviam à viagem eram enterrados em covas rasas; anos depois, as ossadas foram descobertas em um local que hoje abriga o Centro Cultural dos Pretos Novos.

Originalmente, os escravizados chegavam e eram vendidos na Rua Direita, atual Rua Primeiro de Março, porém, por volta de 1774, o vice-rei Marquês de Lavradio decidiu que era melhor esconder esse triste comércio, após a reclamação dos aristocratas.
Todo o complexo escravista foi transferido para o Valongo. O cais, como o conhecemos, só foi construído em 1811, em um local escolhido por ser mais afastado do centro da cidade. Ele funcionou até 1831, quando foi promulgada a Lei Feijó (conhecida como a primeira lei antitráfico negreiro).
Em 1843, o espaço foi transformado e embelezado para receber a princesa Teresa Cristina, a futura esposa do Imperador D. Pedro II. A partir disso, a região ficou conhecida como o Cais da Imperatriz. Nas décadas seguintes, sucessivos aterros apagaram o velho cais de escravos e nobres, afastando-o do mar para sempre.
A partir de 1911, o espaço passou a se chamar Praça Jornal do Commércio. A ideia da República de 1889 era apagar os rastros da antiga monarquia. Note que, no Brasil, o passado é frequentemente soterrado em nome de uma falsa modernidade.
África em miniatura
O grande cantor, compositor e artista plástico Heitor dos Prazeres chamava a região portuária até a antiga Praça Onze de Junho de “Pequena África” ou “África em miniatura” devido à grande quantidade de negros descendentes de escravizados que ali viviam.
Nessas regiões, a cultura afro-brasileira floresceu por meio das palavras, ritmos musicais, religiões, culinária, vestuário, entre outras características.

Hoje, o Cais do Valongo passou a integrar o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, que estabelece marcos da cultura afro-brasileira na Região Portuária, ao lado do Jardim Suspenso do Valongo no Morro da Conceição, Largo do Depósito, Pedra do Sal, Centro Cultural José Bonifácio ou Museu da História e Cultura Afro-brasileira e Cemitério dos Pretos Novos.
Legado e futuro
Em julho de 2017, o Cais do Valongo foi reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
O BNDES e a Prefeitura do Rio de Janeiro anunciaram, nesses últimos dias de outubro, um grande investimento (público e privado) de até R$ 23 milhões para a consolidação do Distrito Cultural Pequena África, na região da Gamboa.
A iniciativa inclui a reforma da Praça dos Estivadores, e parcerias para a implementação do Conservatório da Música Preta Brasileira, da Biblioteca Machado de Assis e de uma fábrica para produtores e empreendedores locais.
Em maio desse ano, a Câmara dos Vereadores do Rio aprovou o projeto Praça Onze Maravilha, que prevê uma ampla transformação urbanística na região, incluindo a derrubada do Elevado 31 de Março e a revitalização do entorno do Sambódromo.
Agora, vamos ver se esses projetos vão ou não sair do papel. Mesmo assim, eu recomendo uma visita ao Cais do Valongo e aos museus do entorno. Ajuda a refletir sobre a nossa sociedade e o que queremos futuramente.
Acesse o site do Museu da História e Cultura Afro-brasileira
Instituto dos Pretos Novos - IPN – Museu Memorial
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