Dor de cabeça não é tudo igual: você sabe qual é a sua?
Enxaqueca, tensão e outros tipos de dor têm características diferentes. Aprenda a reconhecer os sinais e saiba quando buscar tratamento
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Dor de cabeça é democrática. Chega para quem dormiu mal, para quem trabalhou demais, para quem esqueceu de beber água, para quem ficou horas sem comer e, claro, para quem está estressado. Em outras palavras: com a vida que a gente leva, o cérebro praticamente tem motivos para abrir um SAC.
Mas existe uma diferença importante entre aquela dorzinha depois de um dia puxado e uma dor que precisa ser investigada.
Segundo a neurologista Dra. Célia Roesler, existem mais de 200 tipos de dor de cabeça. E aqui já começa a derrubar um mito: embora seja a mais famosa, a enxaqueca não é a dor de cabeça mais comum.
A campeã é a cefaleia tensional episódica. É aquela dor em peso, geralmente moderada, que pode aparecer depois de uma noite maldormida, de muito trabalho, cansaço ou até depois de beber um pouco além da conta. É tão democrática que praticamente todo mundo já teve pelo menos uma vez na vida.
Em muitos casos, ela melhora com um analgésico comum. Mas atenção ao “comum”: comum não significa que pode ser tomado de qualquer jeito e toda hora.
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Enxaqueca não é simplesmente ‘uma dor de cabeça forte’
A enxaqueca, também chamada de migrânea, é uma doença neurológica caracterizada por crises recorrentes de dor moderada a intensa. A crise pode durar de 4 a 72 horas e geralmente apresenta dor pulsátil, podendo vir acompanhada de náuseas, vômitos, sensibilidade à luz e ao som.
Ela afeta cerca de 15% da população mundial e é mais frequente em mulheres em idade fértil e em adultos jovens.
E não é aquela história de “toma um cafezinho que passa”.
A enxaqueca pode ser incapacitante. A pessoa pode até estar fisicamente no trabalho, mas sem conseguir produzir direito — o famoso presenteísmo. Ou simplesmente precisar faltar porque a dor realmente não deixa funcionar.
E quem é o grande vilão?
Se a dor de cabeça tivesse uma lista de inimigos, o estresse provavelmente estaria no topo.
Segundo a Dra. Célia Roesler, o principal gatilho da enxaqueca é o estresse, seguido por alterações no ritmo do sono, jejum prolongado, desidratação e alterações hormonais.
Nas mulheres, as crises também podem aparecer relacionadas ao ciclo menstrual, inclusive nos períodos pré-menstrual, menstrual e pós-menstrual, além da ovulação.
Ou seja: às vezes o calendário do mês já vem com boleto, reunião e enxaqueca no pacote.
Quando a dor de cabeça merece investigação?
Aqui a brincadeira acaba.
Existem sinais de alerta que não devem ser ignorados. Uma dor que surge de forma súbita e extremamente intensa, por exemplo, precisa de avaliação médica porque pode estar relacionada a condições graves.
Também merece investigação uma dor que começa pela primeira vez depois dos 50 ou 60 anos, especialmente quando não havia histórico anterior.
Dor acompanhada de rigidez na nuca e vômitos intensos também exige atenção, assim como uma mudança importante no padrão de uma dor que a pessoa já conhece.
Sabe quando alguém diz: “Essa foi a pior dor de cabeça da minha vida”? Pois é. Não é frase para ser respondida com “toma um remédio e deita um pouquinho”.
É sinal para procurar atendimento.
Posso tomar remédio por conta própria?
Aqui mora uma das maiores armadilhas.
Quem tem dor de cabeça frequente pode entrar facilmente em um ciclo complicado: sente dor, toma analgésico, melhora, a dor volta, toma outro comprimido... e, quando percebe, o remédio virou praticamente membro da família.
A Dra. Célia Roesler alerta que a automedicação e o uso excessivo de medicamentos podem cronificar a dor e dificultar o tratamento.
Por isso, quem apresenta dores frequentes deve procurar avaliação médica, em vez de simplesmente aumentar a quantidade de comprimidos.
Para quem já tem diagnóstico de enxaqueca e recebeu orientação médica, algumas medidas podem ajudar durante a crise: ficar em um ambiente silencioso, com pouca luz, hidratar-se e utilizar a medicação prescrita pelo médico.
Não é só remédio
Para quem tem enxaqueca, o tratamento também pode envolver mudanças na rotina.
Atividade física regular, alimentação equilibrada, boa hidratação e horários de sono mais regulares podem ajudar no controle das crises. E, se o estresse estiver dando expediente em período integral, a psicoterapia também pode fazer parte da estratégia.
Porque não adianta tomar remédio para a cabeça enquanto a vida inteira está funcionando no modo “incêndio”.
E a acupuntura? Pode ajudar?
Pode, segundo o médico acupunturista Dr. Eduardo D’Alessandro, membro do Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA).
A técnica pode ser utilizada especialmente em casos de migrânea e cefaleia tensional, inclusive em formas crônicas. De acordo com o especialista, há evidências científicas de benefício, principalmente para pessoas que apresentam crises frequentes ou que não toleram determinados medicamentos preventivos.

A explicação não é simplesmente “a agulha tira a dor”. A estimulação provocada pela acupuntura pode atuar em vias relacionadas à modulação da dor e influenciar mecanismos do sistema nervoso envolvidos na percepção e no controle desse incômodo.
Ela também pode contribuir para fatores que costumam acompanhar as crises, como tensão muscular, sono ruim e estresse.
Acupuntura substitui o remédio?
Não necessariamente.
Segundo D’Alessandro, a acupuntura tem papel mais bem estabelecido como tratamento preventivo, especialmente para a enxaqueca. Também pode ser utilizada como recurso complementar durante uma crise, mas não deve substituir automaticamente o tratamento específico indicado para aquele momento.
A quantidade de sessões varia de pessoa para pessoa. O especialista explica que o efeito tende a ser cumulativo e que, na prática, costuma iniciar o tratamento com duas sessões semanais, ajustando a frequência de acordo com a resposta de cada paciente.
E existe uma regra que vale para qualquer tratamento: não suspenda medicamento por conta própria porque começou a fazer acupuntura. A decisão precisa ser individualizada e compartilhada com os profissionais que acompanham o paciente.
Existe ainda uma dor de cabeça especialmente cruel
Entre os tipos de cefaleia, existe a cefaleia em salvas, considerada uma das dores mais intensas que uma pessoa pode experimentar.
Ela costuma ser unilateral e extremamente intensa, podendo durar de 15 a 180 minutos e ocorrer de uma a oito vezes ao dia.
Durante a crise, podem aparecer sinais no mesmo lado da dor, como queda da pálpebra, olho vermelho e nariz escorrendo ou entupido. As crises também podem despertar a pessoa durante a madrugada, motivo pelo qual a condição já recebeu o apelido de “cefaleia despertador”.
É uma doença que exige diagnóstico e acompanhamento médico justamente pela intensidade e pela frequência das crises.
A moral da história
Dor de cabeça não é tudo farinha do mesmo saco.
Pode ser aquela cefaleia tensional que aparece depois de um dia puxado. Pode ser enxaqueca, que é uma doença neurológica e pode ser incapacitante. Pode ser cefaleia em salvas ou outro dos mais de 200 tipos de cefaleia existentes.
O que não vale é transformar a gaveta de remédios em consultório médico.
Se a dor é frequente, mudou de padrão, está mais intensa ou veio acompanhada de sinais de alerta, procure avaliação profissional.
Porque a cabeça pode até reclamar bastante. Mas, quando ela muda o discurso, é melhor escutar.
Conhece alguém que vive reclamando de dor de cabeça? Manda este texto pra ela.
Beijos de saúde e até o próximo texto.
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