Follador: 250 anos de história ajudam a explicar a evolução do Prosecco
Família que produz vinhos desde 1769 mostra como tradição, território e pesquisa contribuíram para elevar a qualidade
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Em Col San Martino, no coração das colinas de Valdobbiadene, na Itália, a história da família Follador se confunde com a própria evolução do Prosecco. Tudo começou em 1769, quando Giovanni Follador teve a qualidade de seus vinhos reconhecida pelo doge de Veneza Alvise IV Mocenigo.
Mais de 250 anos e nove gerações depois, a vinícola continua familiar e permanece ligada ao território onde o Prosecco alcança algumas de suas expressões mais valorizadas.

A longevidade impressiona, mas não é o aspecto mais interessante dessa trajetória. A Follador atravessou a transformação de um vinho regional em fenômeno mundial e, ao mesmo tempo, acompanhou a busca por maior precisão técnica e identidade. Hoje, produz desde Prosecco DOC até diferentes expressões de Valdobbiadene Prosecco Superiore DOCG.
Essa amplitude permite observar, dentro de uma mesma casa, como origem, seleção de uvas e método de elaboração alteram profundamente o resultado na taça.
O espumante prosecco é um fenômeno no mundo. Segundo o Consórcio de Tutela do Prosecco DOC, 2025 terminou com 667 milhões de garrafas engarrafadas, alta de 1,1% sobre o ano anterior.
Foram cerca de 607 milhões de garrafas de Prosecco DOC branco e pouco mais de 60 milhões de Prosecco DOC Rosé, o equivalente a aproximadamente 1,8 milhão de garrafas por dia. Os Estados Unidos permaneceram como principal destino internacional, com 23,8% das exportações entre janeiro e setembro de 2025.
Esse sucesso, porém, criou um desafio: mostrar que Prosecco não é uma categoria genérica de espumante nem um vinho de estilo único. A extensa Prosecco DOC abrange nove províncias do Vêneto e do Friuli-Venezia Giulia.
Já o Conegliano Valdobbiadene Prosecco Superiore DOCG nasce em uma área histórica muito menor, formada por 15 municípios da província de Treviso. Reconhecida como denominação em 1969, a região foi elevada a DOCG em 2009, o nível mais alto da classificação italiana.
É nessa área de colinas, situada entre Veneza e as Dolomitas, que a Follador está instalada. A altitude varia aproximadamente de 100 a 500 metros, e a combinação de exposição solar, ventilação e diferentes solos forma uma coleção de microzonas.
Nas parcelas mais inclinadas, a mecanização é limitada e grande parte do trabalho precisa ser feita manualmente. De acordo com o consórcio local, um hectare pode exigir pelo menos 600 horas de trabalho por ano, quatro vezes mais do que em uma viticultura moderna mecanizada.

A Glera, principal uva do Prosecco, costuma apresentar aromas de maçã, pera, flores brancas e frutas cítricas. A segunda fermentação ocorre em grandes tanques pressurizados, pelo método Martinotti, conhecido internacionalmente como Charmat.
O processo ajuda a preservar o frescor e os aromas primários da variedade. Isso não significa, entretanto, que todos os Proseccos sejam iguais. Qualidade das uvas, rendimento do vinhedo, tempo de contato com as leveduras e condução da segunda fermentação podem resultar em vinhos de profundidade e persistência muito diferentes.

Na Follador, essa busca ganhou um protocolo próprio, batizado de Método Gianfranco Follador. Segundo a vinícola, ele reúne técnicas de trabalho em ambiente redutivo, criomaceração e períodos mais longos de segunda fermentação.
O objetivo é reduzir a oxidação, preservar a integridade da fruta e obter maior nitidez aromática. A tecnologia, nesse caso, não pretende apagar a identidade da Glera, mas oferecer instrumentos mais precisos para expressá-la.

O trabalho também mostra como o Prosecco deixou de ser visto apenas como uma bebida simples para o aperitivo. A gama da Follador inclui estilos com diferentes níveis de açúcar, como Extra Brut, Brut e Extra Dry, além de vinhos provenientes da DOC e da DOCG.
Para o consumidor brasileiro, essa distinção é importante. Apesar do nome, Extra Dry contém mais açúcar residual do que Brut, enquanto Extra Brut tende a apresentar um perfil ainda mais seco.

Dentro da DOCG, as menções no rótulo ajudam a compreender a procedência. Rive identifica vinhos ligados a comunas ou frações específicas, geralmente provenientes de encostas; Cartizze designa uma pequena área histórica de Valdobbiadene.
A própria Follador possui entre suas referências um vinho ligado a Torri di Credazzo, microzona próxima a Col San Martino. Mais do que decorar nomes, vale procurar no rótulo a denominação completa e a faixa estatal dourada numerada, que identifica e permite rastrear as garrafas de DOCG.
Em 2025, o Conegliano Valdobbiadene Prosecco Superiore DOCG encerrou o ano com uma estimativa de 98 milhões de garrafas vendidas, 8% acima de 2024. O crescimento indica que há espaço, dentro do enorme universo do Prosecco, para vinhos que comuniquem origem e maior valor agregado.
Casas históricas como a Follador participam desse movimento ao combinar memória familiar com pesquisa enológica, sem depender apenas da popularidade mundial da palavra Prosecco.
No Brasil, o nome já está presente nas cartas de restaurantes, nas prateleiras e no hábito de pedir uma taça como aperitivo. Ainda assim, o mercado é menor do que essa familiaridade sugere. Em 2024, somente cerca de 1 milhão das 660 milhões de garrafas de Prosecco DOC foi destinado ao país, segundo o consórcio da denominação.
A forte concorrência dos excelentes espumantes brasileiros é uma das explicações. Ao mesmo tempo, o dado revela potencial para produtores italianos que consigam mostrar diferenças de território, estilo e qualidade.
À mesa, os estilos Brut e Extra Brut combinam com frituras, peixes, frutos do mar, sushi, queijos frescos e entradas. Versões com um pouco mais de açúcar residual podem acompanhar pratos levemente picantes.
O ideal é servir entre 6 °C e 8 °C, sem congelar a garrafa, de preferência em taça de vinho branco ou tulipa, que permite perceber melhor os aromas do que uma flûte muito estreita.
A história da Follador ajuda a colocar o sucesso do Prosecco em perspectiva. As 667 milhões de garrafas da DOC explicam sua força comercial; as colinas de Valdobbiadene, o trabalho manual e a pesquisa em cantina mostram por que algumas garrafas buscam ir além da leveza e da facilidade.
Depois de mais de 250 anos, a família permanece como testemunha e participante dessa transformação: de vinho local a ícone mundial, e de ícone mundial a bebida cada vez mais consciente de sua origem.
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