Ligúria: onde cultivar uvas é um ato de resistência
Entre montanhas, terraços e o Mediterrâneo, a viticultura heroica preserva a paisagem e variedades quase desaparecidas. Em Bonassola, a Ca’ du Ferrà recupera vinhedos abandonados e devolve à vida a rara uva Ruzzese

Na Ligúria, a terra parece terminar diante do mar. Espremida entre os Apeninos e o Mediterrâneo, essa estreita faixa do noroeste da Itália tem pouquíssimos terrenos planos. As montanhas avançam em direção à costa, os povoados se equilibram nas encostas e os vinhedos ocupam pequenos terraços sustentados por antigos muros de pedra seca.
A beleza da paisagem esconde uma das condições mais difíceis da Itália para o cultivo da videira. Não por acaso, a Ligúria é um dos símbolos da chamada viticultura heroica, expressão usada para definir vinhedos instalados em terrenos com inclinação superior a 30%, altitudes acima de 500 metros, terraços ou pequenas ilhas.
Na prática, são parcelas estreitas, muitas vezes acessíveis apenas a pé, onde tratores e equipamentos convencionais não conseguem chegar. A poda, o manejo da vegetação e a colheita dependem principalmente do trabalho manual. Caixas, ferramentas e uvas precisam ser transportadas por escadas, trilhas ou pequenos equipamentos adaptados às encostas.
Os terraços foram construídos ao longo de séculos para tornar possível a agricultura nesse relevo. Além de sustentar os vinhedos, os muros de pedra ajudam a conter o solo, controlar a água e reduzir a erosão. Recuperar uma área abandonada significa, portanto, preservar a paisagem e contribuir para a proteção do território.
Entre o mar e a montanha, as videiras recebem luminosidade intensa, ventilação constante e a influência das brisas marítimas, mas enfrentam solos rasos, pouca disponibilidade de água e uma topografia exigente. Dessa combinação nasce uma viticultura de pequenas propriedades e produções limitadas, marcada por variedades locais como Vermentino, Pigato, Bosco, Albarola e Bianchetta Genovese, entre as brancas, e Rossese, Ormeasco e Ciliegiolo, entre as tintas.
A recuperação dos terraços de Bonassola

É nesse cenário que se desenvolve o trabalho da Ca’ du Ferrà, em Bonassola, na Riviera Ligure di Levante, próximo às Cinque Terre. A propriedade pertence a Davide Zoppi e Giuseppe Luciano Aieta, que decidiram recuperar antigos vinhedos e devolver a função agrícola a terrenos progressivamente abandonados.
O nome Ca’ du Ferrà, no dialeto local, significa “casa do ferreiro”. A atividade começou no início dos anos 2000 e cresceu a partir da recuperação de pequenas parcelas espalhadas pelas encostas. Hoje, são aproximadamente cinco hectares de vinhedos terraçados e uma produção anual em torno de 30 mil garrafas.
Pode parecer pouco diante das grandes regiões vinícolas italianas, mas, na realidade ligure, cinco hectares significam cuidar de diferentes parcelas, com exposições, altitudes e condições de acesso distintas. O trabalho é essencialmente manual e busca preservar a identidade de cada lugar, levando para os vinhos a influência do solo, do vento, da luminosidade e da proximidade com o Mediterrâneo.

A consultoria enológica está a cargo de Graziana Grassini, uma das profissionais mais reconhecidas da Itália, que iniciou sua trajetória ao lado de Giacomo Tachis, nome fundamental da enologia italiana moderna. A parte agronômica é acompanhada por Gabriele Cesolini.
A propriedade também mantém um agriturismo e recebe visitantes interessados em conhecer a produção. A experiência permite compreender melhor uma realidade que não se revela apenas dentro da adega: antes da garrafa, existem terraços, escadas, muros e muitas horas de trabalho manual.
Na Ca’ du Ferrà, costuma-se dizer que “aqui, o vinho é escutado”. A frase traduz uma filosofia baseada na observação e em intervenções cuidadosas, respeitando o ritmo da vinha e as características de um ambiente tão particular.
O retorno da Ruzzese
Entre os projetos mais importantes da propriedade está a recuperação da Ruzzese, antiga variedade branca do Levante ligure. Ela não deve ser confundida com a Rossese, uva tinta associada principalmente à parte ocidental da região e à denominação Rossese di Dolceacqua.
Durante séculos, a Ruzzese foi cultivada na faixa entre Bonassola, as Cinque Terre e os Colli di Luni. Documentos antigos mencionam um vinho chamado Razzese, especialmente ligado a Monterosso, que alcançou prestígio durante o Renascimento.
No século XVI, Sante Lancerio, responsável pela seleção dos vinhos consumidos pelo papa Paulo III Farnese, descreveu o Razzese da Riviera de Gênova como um vinho muito valorizado em Roma. Os registros fazem referência a um produto dourado e aromático, elaborado também a partir de uvas parcialmente desidratadas.
A variedade, porém, praticamente desapareceu. A filoxera, que devastou os vinhedos europeus entre o final do século XIX e o início do XX, contribuiu para sua decadência. A dificuldade de cultivar as encostas e o abandono das áreas rurais completaram o processo, enquanto uvas mais difundidas e economicamente viáveis ocuparam seu espaço.
A recuperação começou nos anos 2000, em estudos realizados com a participação da Região da Ligúria e de pesquisadores especializados em variedades históricas. Uma antiga planta encontrada no município de Arcola foi submetida a análises genéticas e identificada como a Ruzzese que se acreditava perdida.
Depois de conhecer essa história em um encontro sobre variedades recuperadas, Davide e Giuseppe decidiram participar de sua preservação. O projeto de reintrodução contou com o apoio da Região da Ligúria, da Coldiretti de La Spezia e de pesquisadores do CNR de Turim.
A Ruzzese apresenta cachos soltos, bagas pequenas e películas espessas. Também demonstra resistência à seca e boa capacidade de preservar a acidez durante a maturação, características especialmente interessantes diante do aumento das temperaturas e da irregularidade das chuvas.
Na Ca’ du Ferrà, a variedade não foi recuperada apenas como curiosidade histórica, mas como uva capaz de voltar a produzir um vinho com identidade própria. Sua aptidão para a elaboração de passitos também retoma uma tradição registrada há séculos na costa ligure.
O trabalho recebeu reconhecimento na Vinitaly de 2022, quando Davide Zoppi foi premiado como “Viticoltore Etico” por sua atuação na recuperação de uvas raras e antigas. A propriedade também se dedica a outras variedades pouco conhecidas, como Rossese Bianco, Picabon e Albarola Kihlgren.
A história da Ruzzese mostra que uma uva pode desaparecer não por falta de qualidade, mas porque o sistema agrícola que a sustentava deixou de ser viável. Por trás da beleza dos terraços ligures há custos elevados, pouca mecanização e risco constante de abandono.
Ao recuperar vinhedos e variedades antigas, a Ca’ du Ferrà ajuda a preservar não apenas a memória do vinho ligure, mas a própria paisagem. Em Bonassola, cada terraço cultivado mantém viva uma parte da montanha, e uma história que esteve muito perto de desaparecer.
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