Quando a vindima troca o dia pela noite no Piemonte
Em Monferrato, a vinícola Montalbera adota a colheita noturna para proteger as uvas do calor e preservar os aromas do Ruchè
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

No Piemonte, no noroeste da Itália, o aumento das temperaturas vem mudando até mesmo o horário da vindima. Em Castagnole Monferrato, na província de Asti, a vinícola Montalbera dará início, em 6 de setembro, à colheita noturna de 2026. A prática começou de forma experimental em 2023 e passou a fazer parte da rotina da propriedade.
A decisão de colher depois do pôr do sol tem uma razão prática: nas horas mais frescas, as uvas chegam à adega em temperaturas naturalmente mais baixas. Isso ajuda a manter as bagas intactas, reduz o risco de fermentação antes do momento desejado e contribui para a preservação dos aromas.
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Para quem trabalha no campo, a mudança também representa melhores condições durante a colheita, evitando a exposição às temperaturas mais altas do dia. O trabalho é realizado manualmente e exige uma organização específica, com sistemas móveis de iluminação instalados ao longo das fileiras.

Neste ano, a colheita noturna começará pelas uvas Ruchè e Viognier. No caso do Ruchè, a temperatura tem uma importância ainda maior, pois se trata de uma variedade semi-aromática, conhecida principalmente por seus aromas florais e especiados.
Embora o Piemonte seja conhecido no Brasil, sobretudo por Barolo e Barbaresco, produzidos com a uva Nebbiolo na região das Langhe, essa parte da Itália possui outras áreas vitivinícolas importantes. Uma delas é o Monferrato, território de colinas localizado no sul do Piemonte, entre o rio Pó e os Apeninos da Ligúria.
Castagnole Monferrato fica a sudeste de Turim, em uma paisagem formada por vinhedos, bosques e plantações de avelãs, cultivo bastante comum no Piemonte. Desde 2014, as paisagens vitivinícolas de Langhe-Roero e Monferrato fazem parte da lista do Patrimônio Mundial da UNESCO.
É nessa área, entre os municípios de Grana, Castagnole Monferrato e Montemagno, que se encontra a propriedade principal da Montalbera. Administrada há três gerações pela família Morando, a vinícola possui mais de 100 hectares de vinhedos distribuídos entre Monferrato e Langhe.
A maior parte das vinhas está concentrada ao redor da sede, formando um amplo anfiteatro natural nas encostas. A empresa também mantém vinhedos em Castiglione Tinella, nas Langhe, onde cultiva, entre outras variedades, o Moscato destinado à produção de Moscato d’Asti.
Apesar do tamanho da propriedade, o principal diferencial da Montalbera não está em sua extensão, mas no trabalho realizado com o Ruchè. Pouco conhecida fora da Itália, essa uva tinta possui origem ainda incerta e é cultivada em uma área bastante limitada. A denominação Ruchè di Castagnole Monferrato DOCG abrange Castagnole Monferrato e apenas alguns municípios próximos.

Na década de 1970, o Ruchè esteve perto de desaparecer e era encontrado somente em pequenas parcelas. Sua recuperação está ligada ao padre Giacomo Cauda, então pároco de Castagnole Monferrato, que percebeu o potencial da variedade e incentivou seu cultivo.
A família Morando começou a investir de maneira mais significativa no Ruchè a partir dos anos 1980, durante o processo de expansão dos vinhedos da Montalbera. Segundo informações da própria vinícola, atualmente a propriedade responde por cerca de 60% da produção total da denominação Ruchè di Castagnole Monferrato DOCG. Esse dado faz da empresa uma referência importante para compreender a recuperação e a evolução da variedade.
No vinho, o Ruchè apresenta um perfil diferente daquele normalmente associado aos tintos piemonteses. Seus aromas podem lembrar rosas, violetas, ervas e especiarias. Apesar da intensidade aromática, é uma uva capaz de produzir vinhos secos, estruturados e com boa acidez.
O Ruchè também costuma apresentar taninos menos austeros do que o Nebbiolo. Dependendo do vinhedo e da forma de vinificação, pode dar origem tanto a vinhos mais jovens e acessíveis quanto a versões mais complexas, destinadas a um período maior de envelhecimento.
Na Montalbera, o trabalho no campo e na adega segue um conceito que a família define como vino frutto, ou “vinho-fruta”. O objetivo é preservar as características naturais de cada variedade, começando pelo controle da produção no vinhedo e pela escolha do momento adequado para a colheita.

Na adega, a vinificação pode ocorrer em tanques de aço inoxidável, grandes tonéis de madeira, barricas ou ânforas de argila. A escolha depende da uva e do estilo de vinho que se pretende produzir. Além do Ruchè, a propriedade trabalha com variedades tradicionais do Piemonte, como Barbera, Grignolino, Nebbiolo, Moscato e Timorasso, além de Viognier e Chardonnay.
Para o consumidor brasileiro, conhecer a Montalbera é também uma oportunidade de descobrir um Piemonte menos conhecido. Em vez de se concentrar nos grandes tintos de Nebbiolo que tornaram a região famosa, a vinícola construiu sua identidade em torno do Ruchè, uma uva floral, marcada por aromas de especiarias e cultivada em poucos municípios.
A colheita noturna mostra como a produção de vinho precisa se adaptar às mudanças climáticas sem perder sua ligação com o território. Ao colher nas horas mais frescas, a Montalbera procura preservar as características de uma variedade que esteve perto de desaparecer e que hoje representa uma das expressões mais particulares do Monferrato.
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