Um passeio por Milo, o território da uva Carricante produzida no solo vulcânico do Etna
Na vertente leste do vulcão siciliano, um pequeno território transforma a Carricante em vinhos de impressionante frescor, profundidade e longevidade, e é o único autorizado a produzir o Etna Bianco Superiore DOC
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Falar dos vinhos do Etna exige muito mais do que mencionar solos vulcânicos e vinhedos de altitude. No famoso vulcão siciliano, ainda ativo e constantemente monitorado, tudo pode mudar de uma encosta para outra: a exposição solar, a altitude, a influência do mar, a quantidade de chuvas, a ventilação e, sobretudo, a composição dos solos, formados por materiais provenientes de diferentes erupções ao longo dos séculos.

É como se o Etna não fosse uma única região vitivinícola, mas um mosaico de pequenos territórios com identidades próprias. Para compreendê-lo verdadeiramente, é necessário conhecer suas “contrade”.
Na Itália, o termo contrada identifica uma área rural delimitada dentro de um município. No Etna, essas unidades geográficas são especialmente importantes porque ajudam a reconhecer lugares com características específicas de solo, altitude e microclima. A legislação da denominação reconhece 133 contrade, distribuídas por 20 municípios nas vertentes norte, leste e sul do vulcão.
Não existe uma classificação qualitativa oficial que estabeleça uma hierarquia entre elas. No entanto, a experiência dos produtores e a expressão dos vinhos revelam diferenças que podem ser percebidas dentro da taça, às vezes, até mesmo entre parcelas vizinhas.
A Etna DOC foi criada em 1968, tornando-se a primeira Denominação de Origem Controlada da Sicília e uma das mais antigas da Itália. Atualmente, reúne mais de 400 produtores e aproximadamente 1.300 hectares de vinhedos. É uma viticultura frequentemente chamada de heroica, com videiras cultivadas em encostas íngremes e terraços sustentados por antigos muros de pedra vulcânica construídos a seco, onde grande parte do trabalho precisa ser realizada manualmente.
Milo e sua vocação para a Carricante
Foi para conhecer uma das expressões mais particulares desse território que viajei a Milo, pequeno município situado a cerca de 750 metros de altitude, na vertente leste do Etna. Participei, entre os dias 8 e 10 de setembro, da 46ª edição da ViniMilo, realizada de 27 de agosto a 13 de setembro.

Mais do que um evento de vinhos, a ViniMilo tornou-se um conjunto de experiências ligadas ao vinho e ao seu significado mais profundo: a partilha, a convivência e o prazer de estar junto. O programa reúne degustações, masterclasses, gastronomia, caminhadas, música e encontros com produtores. No centro de tudo está o grande protagonista local: o Etna Bianco Superiore DOC.
Milo não é propriamente uma contrada, como muitas vezes se imagina, mas um município que reúne diferentes áreas vitícolas, entre elas Caselle, Fornazzo, Pianogrande, Praino, Rinazzo, Salice, Villagrande e Volpare. Apesar das particularidades de cada uma, elas compartilham condições que fazem desse território o habitat mais vocacionado do Etna para a Carricante.

Localizado na vertente oriental do vulcão e voltado para o mar Jônico, Milo recebe diretamente as correntes úmidas vindas do Mediterrâneo. É uma das áreas mais chuvosas de todo o Etna, com precipitação anual que pode superar mil milímetros. A altitude, a ventilação constante, a umidade e as grandes diferenças de temperatura entre o dia e a noite, somadas aos solos arenosos de origem vulcânica, criam condições especialmente favoráveis à Carricante.
Esses solos, porém, não são uniformes. Cinzas, areias, pedras e antigas matrizes de lava depositadas durante atividades vulcânicas de diferentes períodos formaram terrenos com idades, profundidades e composições distintas. Por isso, dizer apenas que um vinho nasce em “solo vulcânico” é insuficiente para explicar a complexidade do Etna.
A Carricante é uma variedade branca autóctone siciliana, de maturação tardia e naturalmente dotada de elevada acidez. Em Milo, ela encontra condições para amadurecer lentamente, preservando o frescor e desenvolvendo complexidade. Seus vinhos costumam apresentar notas cítricas, flores brancas, maçã, pera, ervas mediterrâneas e nuances defumadas ou de pedra molhada, acompanhadas por marcante salinidade e grande tensão em boca.
São brancos que podem parecer austeros quando jovens, mas revelam profundidade e excelente capacidade de evolução. É justamente por reconhecer essa singularidade que o disciplinar determina que o Etna Bianco Superiore DOC somente pode ser elaborado com uvas provenientes do município de Milo e deve conter, no mínimo, 80% de Carricante.
O termo “Superiore” não é apenas uma indicação genérica de qualidade. Ele identifica uma categoria com regras específicas, origem geográfica restrita e parâmetros próprios. Na taça, os melhores exemplares apresentam concentração, estrutura, persistência e longevidade, sem perder a acidez que define a personalidade da Carricante.
Se Milo é especialmente favorável a essa variedade branca, seu clima pode representar um desafio para a Nerello Mascalese, principal uva tinta do Etna. Também de maturação tardia, ela necessita de condições mais secas, quentes e ensolaradas para alcançar uma maturação fenólica completa. Nas áreas mais altas, úmidas e frescas de Milo, pode ter dificuldade para desenvolver açúcares, cor e taninos.
Por isso, poucos produtores locais cultivam a Nerello Mascalese, geralmente em parcelas mais baixas ou melhor expostas. Quando bem trabalhados, esses vinhos apresentam um perfil muito elegante, com fruta delicada, frescor e taninos finos.
Duas ilhas vulcânicas dentro da taça
Uma das experiências mais interessantes da ViniMilo foi a degustação promovida pela vinícola Maugeri em conjunto com a Eolia, produtora da ilha de Salina. O encontro colocou lado a lado diferentes safras de Etna Bianco Superiore das contrade Volpare e Volpare Frontebosco, elaborados pela Maugeri com Carricante, e vinhos brancos da Eolia produzidos com Malvasia delle Lipari.
A proposta permitiu comparar duas interpretações da viticultura insular e vulcânica. De um lado, a energia, a verticalidade e a acidez da Carricante cultivada na vertente leste do Etna; do outro, a luminosidade mediterrânea e o caráter aromático da Malvasia de Salina.

As diferenças eram evidentes. Os vinhos de Milo demonstravam maior tensão, notas cítricas, ervas e salinidade. Nos exemplares de Salina apareciam aromas mais exuberantes de flores, frutas amarelas e casca de cítricos. Ainda assim, alguns pontos de encontro eram inegáveis: a acidez, a influência marítima, a sapidez e as nuances defumadas. Duas ilhas, dois ambientes vulcânicos e duas variedades autóctones traduzindo paisagens distintas dentro da taça.
Falar do vinho do Etna isoladamente, no entanto, seria ignorar tudo o que existe ao redor das videiras. A paisagem agrícola de Milo reúne pomares, castanheiras, bosques e plantações de avelãs, além dos tradicionais terraços de pedra vulcânica. A gastronomia é, portanto, uma parte essencial da experiência.

Um exemplo é a Cantine La Contea, em Mascali. Além de elaborar vinhos, a propriedade mantém um restaurante comandado pelo chef catanês Mirko Pappalardo, cuja cozinha valoriza ingredientes, receitas e sabores sicilianos em harmonia com os vinhos da própria casa. É uma forma de compreender o território não apenas por meio da taça, mas também dos produtos e das tradições que chegam à mesa.
Pequenos produtores, grandes identidades
Embora o crescimento do Etna tenha atraído importantes nomes do vinho italiano e internacional, os pequenos produtores familiares continuam fundamentais para preservar a diversidade do território.

Entre os projetos que me impressionaram está a Famiglia Statella, conduzida pelo enólogo Calogero Statella e sua esposa, Rita. A vinícola nasceu em 2016, com a aquisição de um vinhedo na contrada Pettinociarelle, em Castiglione di Sicilia, na vertente norte do Etna.
Portanto, não está localizada em Milo, mas sua participação na programação permitiu ampliar o olhar sobre as diferentes expressões do vulcão. Calogero, também enólogo da Tenuta delle Terre Nere desde 2008, conduz uma produção familiar de aproximadamente 10 mil garrafas. Seus vinhos chamam atenção pela precisão, pelo equilíbrio e pela capacidade de revelar as características das parcelas de origem.

Em Milo, outro destaque foi a Cantine Iuppa, conduzida por Angelo Iuppa e por seu filho Marco. A família possui vinhedos na contrada Salice, distribuídos em terraços sustentados por muros de pedra vulcânica. Ali são cultivadas principalmente Carricante, Catarratto, Nerello Mascalese e Nerello Cappuccio, além de uma parcela de vinhas centenárias em pé-franco, onde sobrevivem algumas variedades consideradas relíquias.
É um dos poucos produtores de Milo que consegue expressar com qualidade tanto a identidade dos brancos quanto a delicadeza dos tintos e rosados locais. Seus Etna Bianco Superiore mostram acidez, salinidade e profundidade, enquanto o Etna Rosso e o Etna Rosato, elaborados com Nerello Mascalese, apresentam uma interpretação mais sutil da variedade: menos potência e mais elegância, frescor e precisão.
A Cantine Iuppa trabalha de forma orgânica e cultiva manualmente seus vinhedos. A família também está recuperando um antigo palmento do século XIX, construção tradicionalmente utilizada para prensar as uvas e produzir vinho, que abrigará a nova cantina, a sala de degustação e uma estrutura de hospedagem.
E há uma boa notícia para os apreciadores brasileiros, os vinhos da Cantine Iuppa chegarão em breve ao Brasil. O acordo com um importador já foi concluído e, assim que todas as etapas do processo estiverem finalizadas, o nome da empresa poderá ser divulgado.
Depois de três dias entre vinhedos, produtores, degustações e mesas sicilianas, ficou ainda mais claro que Milo não deve ser visto apenas como uma pequena área dentro da Etna DOC. Trata-se de um território com identidade própria, construído pela combinação entre altitude, chuva, mar, vento, lava e trabalho humano.
Talvez esteja justamente aí o encanto do Etna: nada nele é completamente uniforme ou previsível. Cada encosta apresenta uma voz, cada contrada preserva uma história e cada vinho carrega uma interpretação diferente do vulcão.
Em Milo, essa identidade encontra sua expressão mais autêntica na Carricante, uma variedade capaz de transformar a força do vulcão e a influência do mar em vinhos de frescor, profundidade e impressionante longevidade.
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