Pintura clássica revela hábito de morcegos que cientistas só identificaram 400 anos depois
Só recentemente cientistas relataram os primeiros registros de uma espécie caçando e se alimentando de aves durante voos noturnos
Bichos|Do R7
LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA
Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

A pintura a óleo “Ar”, concluída em 1611 por Jan Brueghel, apresenta a representação de um comportamento animal que a ciência registrou formalmente apenas em 2025.
No canto superior direito da pintura, que retrata uma musa cercada por mais de sessenta espécies voadoras, um morcego transporta um pássaro no bico. A cena coincide com as descobertas de pesquisadores que, no ano passado, obtiveram as primeiras gravações de morcegos-noturnos-grandes (Nyctalus lasiopterus) capturando e desmembrando aves durante voos noturnos.

A análise, publicada na revista PNAS, demonstra que a produção de arte funciona como fonte de dados sobre a fauna e o conhecimento biológico em períodos que antecedem a história natural moderna. O estudo indica que o conhecimento sobre a predação de aves por morcegos já circulava na Europa quatro séculos antes de sua documentação científica contemporânea.
Os ecologistas Miguel Clavero e Pedro Romero-Vidal, da Estação Biológica de Doñana, na Espanha, identificaram o detalhe enquanto analisavam pinturas antigas para obter dados sobre o comércio histórico de animais. O espécime pintado por Brueghel apresenta pelagem marrom-avermelhada, asas longas e orelhas curtas e arredondadas, características que levaram os especialistas a associá-lo ao gênero noctule. A identificação do animal como o morcego-noturno-grande recebeu o apoio de técnicos que participaram dos registros modernos da espécie.
Veja Também
Outros pesquisadores, como Gianna Dondini e Simone Vergari, observaram que os indícios morfológicos são consistentes com a espécie, embora mencionem a possibilidade de se tratar de um morcego-noturno comum.
Clavero defende a identificação original com base na proporção entre o tamanho do predador e o da presa na imagem. Como o morcego-noturno-grande era raro na região da atual Bélgica, onde Brueghel residia, os cientistas indicam que o artista obteve a informação ou observou o animal durante deslocamentos pela Itália.
A representação do pássaro sendo carregado no bico é apontada como uso de licença artística, uma vez que morcegos utilizam a boca para emitir sons de ecolocalização e não voariam com o bico ocupado.
A presença de espécies de diferentes continentes na pintura, como papagaios-cinzentos-africanos, grous-coroados, pavões indianos e araras da América Central e do Sul, serve de base para o estudo da extensão das redes de comércio do século XVII.
O ecologista Damien Farine ressalta, entretanto, que o uso de obras de arte como registro de vida selvagem exige cautela, citando exemplos históricos em que ilustradores europeus retrataram a fauna australiana de forma incorreta por basearem seus desenhos na imaginação.
Miguel Clavero afirma que o uso de fontes como pinturas e dicionários geográficos permite modelar a distribuição de animais em séculos passados, preenchendo lacunas de registros que a academia costumava considerar inexistentes antes da década de 1950.


















