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Patricia Lages
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Análise: O feminismo e os novos cabrestos

Causa feminista não tem trabalhado para garantir igualdade, mas para incutir a ideia de que a mulher tem de ser autossuficiente

Patricia Lages|Patricia Lages

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É preciso respeitar as escolhas das pessoas
É preciso respeitar as escolhas das pessoas

Ultimamente fala-se muito a respeito de tolerância, igualdade, poder de escolha. Entre as diversas bandeiras levantadas, uma das frentes mais atuantes é o feminismo que, segundo o que se imagina, busca assegurar à mulher o direito de estar no lugar que escolher, fazendo o que desejar e sendo quem quiser. Mas será que a luta realmente tem sido essa?

A causa feminista, em diversas frentes, não tem trabalhado para garantir a igualdade de direitos, mas sim, para incutir a ideia de que a mulher tem de ser autossuficiente, colocar os estudos e a vida profissional acima de tudo, terceirizar a criação dos filhos (pois, ainda que não tenha tempo para nada, deve ter pelo menos um, ou jamais atingirá a plenitude de ser mulher) e permanecer sempre alerta para repelir imediatamente tudo que seja caracterizado como “feminino demais”, como cuidar da casa, cozinhar ou educar pessoalmente os filhos.

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Para esse novo feminismo, casar antes dos 30 anos é um absurdo. A mulher moderna tem que estudar muito – fazer faculdade, pós, MBA, falar três idiomas – ser muito bem-sucedida na carreira profissional, comprar seu apartamento, ter um carrão na garagem, uma conta bancária recheada, viajar o mundo, curtir toda sua liberdade e, depois, quem sabe, pensar em ter um relacionamento.

Mas é claro que ela não precisa ficar sozinha durante esse período todo, afinal, conquistar tudo isso pode levar muito tempo. Enquanto isso, ela pode ter quantos homens quiser, trata-los como simples objetos de prazer e ser adepta ao sexo casual. Ainda que isso seja exatamente o que muitos homens faziam (e fazem) com as mulheres e que nós tanto repudiamos.

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Para esse novo feminismo, a mulher que deixa a carreira e prioriza a educação dos filhos deve estar maluca. Vai depender de homem? Como assim? Mulher que é mulher não depende de homem nenhum. Que coisa mais retrógrada, que ideia reacionária, que ridículo! A mulher do passado não podia optar por trabalhar fora, mas a mulher moderna também não pode optar por priorizar a família. E, assim, continuamos sem o direito de escolher.

Para esse novo feminismo, a força da mulher está em falar mais alto, em provar o tempo todo que é mais competente, mais inteligente e mais capaz e, obviamente, deixar claro que é mais macho que muito homem. Será que essa ditadura do “ser mais, fazer mais” nos traz realmente a liberdade de sermos quem quisermos?

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Para esse novo feminismo, coisas comuns do dia a dia viraram verdadeiros insultos. Um homem dar lugar a uma mulher no ônibus? Insulto! Vamos dar uma lição para que ele aprenda a não nos tratar como sexo frágil! Uma mãe comprar o jogo de panelinhas que a filha pediu de aniversário? Insulto dos insultos! Vamos constrangê-la até perceber que está sendo reacionária! Presentear uma mulher com um eletrodoméstico? Gente do céu, nem existe nome para isso... que “Amélia”!

É preciso respeitar as escolhas das pessoas e deixar de impor cabrestos antigos travestidos de ideologias modernas. Dizer à mulher onde ela deve estar e o que deve fazer não é algo novo, muito pelo contrário. Ao longo de toda história tivemos que acatar imposições, vermos nossos direitos serem cerceados e termos a nossa voz sempre abafada.

Mas a pergunta é: até quando você vai permitir que terceiros ditem regras na sua vida? Até quando você vai aceitar dar satisfações de suas escolhas e esperar a aprovação dos demais? Assuma a sua feminilidade, seus valores, suas crenças e não permita que nenhum movimento disfarçado de discursos novo lhe imponha velhos cabrestos.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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